quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Capítulo 26 (Parte II) - O segredo


O caminho até Sintra foi agradável. Não tocámos no assunto David. Chegámos a casa da Raquel, já passava da uma da tarde. Foi ela quem nos abriu a porta com um sorriso encantador.

- Meninas como estão?
- Bem – Respondemos em simultâneo.

Caminhámos em direcção ao jardim, onde já estavam todos à nossa espera. Assim que saímos do interior da casa, os meus olhos encontraram os do David. Senti o meu corpo estremecer. Disse-lhe um “olá” apenas com os lábios e esbocei-lhe um sorriso. Ele respondeu da mesma forma mas sem sorrir. O meu coração ficou pequenino naquele momento. Tive a certeza de que o David estava magoado comigo e temi, pela primeira vez, que a minha atitude nos últimos dias o tivessem afastado de mim. A Raquel salvou-me dos meus próprios pensamentos quando me puxou por um braço para me apresentar à família. Conheci os pais, os tios, a prima e a pequena Ritinha, filha da prima. A Si cumprimentou-os e dirigiu-se para a mesa onde estavam o Ruben, o Gustavo e o David. Eu segui-a, tentando um sorriso. Cumprimentei os três com dois beijos. Deixei o David para último e afastei-me de imediato. Para disfarçar o nervoso miudinho que se apoderava de mim, resolvi dar logo o presente à Raquel, que entretanto se tinha juntado a nós com a Ritinha.

- Uma caixa? Hum, o que será? – Perguntava-me ela sem desconfiar do que iria receber.
- Um electrodoméstico. – Respondi-lhe com ar de gozo.
- Oh, não sejas assim. Queres abrir comigo, Ritinha?

A pequena nem respondeu. Agarrou no embrulho e num ápice desfez o papel vermelho. A Raquel pegou na caixa, abriu-a e olhou para mim com um sorriso rasgado. Levou as mãos aos cantos interiores dos olhos para controlar as lágrimas.

- Oh Kika… tu és demais! Obrigada, amiga!
- E tu és uma chorona. Mostra lá ao pessoal.

A Raquel tirou de dentro da caixa o “Música de Praia” e mostrou-o a toda a gente. Depois apertou-o contra o peito e deu-me um beijo repenicado na bochecha. Aquele momento carinhoso foi quebrado apenas pelo Sr. Carlos, pai da Raquel, a chamar-nos para a mesa que estava colocada no jardim. Nós obedecemos e sentámo-nos de imediato. O David sentou-se à minha frente. Por vezes trocávamos olhares que nos sufocavam. Nem um nem outro comemos praticamente nada. Pouco falámos para além do essencial de quando se está a ter uma refeição conjunta. A Ritinha pediu à mãe para se sentar ao meu lado. Estava encantada com a minha fita do cabelo. Disse-me que também tinha uma da Hello Kitty mas que se tinha esquecido de a colocar. Sem pensar, tirei a minha e coloquei-lha na cabeça. Ela ficou tão feliz que só pelo brilho do seu olhar consegui perceber que tinha acabado de ganhar uma companheira para a tarde. E foi, de facto, o que aconteceu. Eu e a Ritinha tornámo-nos inseparáveis. Brincámos às escondidas, às raquetes, montámos a casa da Barbie quinhentas mil vezes e levámos o Kenny a passear. Embora aqueles já não fossem os bonecos da moda, a pequena gostava deles por terem pertencido à mãe e à prima. E isso ainda nos unia mais. “Pelo menos brincamos com algo que eu conheça”. Cada vez que eu deixava a Ritinha e me juntava aos adultos, o David fazia questão de se afastar, inventando qualquer outra coisa para fazer, a última delas brincar com a miúda. Pegou nela ao colo e dançaram no meio do jardim. Um momento maravilhoso de ser presenciado. Pensei que talvez aquela fosse uma boa oportunidade para trocarmos algumas palavras e juntei-me à brincadeira. Mas assim que me aproximei o David voltou a afastar-se, dizendo à pequena que ia “ao banheiro”. Ela sorriu e agarrou-se a mim. Quis pentear-me os cabelos e eu deixei. Mas aquela atitude do David estava a perturbar-me de tal forma que, num instinto, pedi à Ritinha que fosse penteando as bonecas enquanto eu ia só fazer um xixizinho. Levantei-me sem lhe dar tempo de reclamar e fui plantar-me à porta da casa de banho. Quando o David saiu eu estava encostada à parede. Ele olhou para mim e afastou-se da porta.

- Já pode usar.
- Não vim à casa de banho. Vim falar contigo.

Ele rodou ligeiramente a cabeça e evitou o meu olhar.

- David, tu estás a evitar-me.
- Não é isso que você tem feito comigo? – Respondeu-me secamente, enquanto humedecia os lábios.
- Sim, é. E tu vieste ter comigo. Eu estou a fazer o mesmo. Porque é que estás a ter essa atitude?
- Você ainda pergunta porquê? Pôxa Kika, eu já te falei. Eu tou amarradão em você. O meu coração parou quando eu vi você entrar há pouco. Eu não consigo estar perto de você e não te beijar.
- Ah, claro que consegues. Estamos aqui os dois e tu…

O David agarrou-me na cara com as duas mãos e beijou-me com um desejo intenso. Eu, mais uma vez, não resisti ao beijo. Os nossos corpos apertavam-se contra a parede.


- David, pára. Pode aparecer alguém

Ele colocou uma mão na parede, onde eu estava encostada, ligeiramente acima do meu ombro esquerdo.

- Tá fugindo de novo? – Dizia-me, enquanto me segurava o queixo com a outra mão. – Você tá sempre fugindo. Kika, eu gosto de você, de verdade.

Os nossos olhos fitavam-se agora com uma intensidade que quase cegava. As nossas bocas estavam de novo próximas e o meu coração batia descontroladamente.

- Obrigada. – Trinquei o interior do lábio com tanta força que podia sentir o sabor do sangue na minha boca. A expressão facial do David demonstrava surpresa.

- Obrigada? Eu te digo que gosto de você, que tou apaixonado por você e você me agradece? Ah fala sério! – Dizia-me o David, enquanto dava uma palmada na parede, ao mesmo tempo que tentava disfarçar um sorriso nervoso. Aquele momento de tensão foi interrompido pelo barulho de uma peça de louça a partir, seguido do choro da Ritinha que, com os seus tenros seis anos, tinha assistido à conversa.
O David afastou-se de mim pondo as mãos na cabeça e eu fui a correr pegar a menina ao colo.

- Calma, querida, não chores. Foi só um susto!
- Ele estava a bater-te? – Perguntava-me ela por entre soluços e perante o olhar desesperado do David.
- Não, querida – limpei-lhe as lágrimas – claro que não. O David estava só a matar um bichinho que estava na parede.
- Prometes? – Perguntava com um beicinho.
- Claro, princesa. Eu sou tua amiga, não te ia mentir.
- E a jarra? A tia Lala vai ralhar comigo.
- Oh, não vai nada. Nós dizemos-lhe que foi sem querer – fiz-lhe uma festa na bochecha. – Mas o que estavas aqui a fazer?
- Eu vinha só à tua procura. – A Ritinha fazia beicinho.
- Pronto, encontraste-me. Agora vamos lá para fora sim? – Ela abanou a cabeça positivamente – Mas primeiro dá-me um beijinho e outro ao David, pode ser? – Ela ia abanando que sim com a cabeça a todas as minhas perguntas – Ele também é teu amigo, não é? E ele é divertido e carinhoso contigo não é? E ele dança bem, não dança?

Sorri-lhe, dei-lhe um beijinho na cara e ela retribuiu-me. Pousei-a no chão, compus-lhe a bandolete na cabeça e pedi-lhe um sorriso. Ela deu-me o mais fantástico do mundo.

- Dás um beijinho ao David?

Ela olhou para ele em jeito de resposta. Ele baixou-se e agarrou-a, dando-lhe um longo beijo na testa.

- Tá tudo bem, agora?
- Sim.
- Você gosta de mim?
- Gosto… muito.
- Ainda bem que você não tem medo de falar que gosta de mim, que nem certas pessoas que eu conheço.

Aquele “recado” do David trespassou-me o coração e quase me cortou a respiração. A Ritinha olhava para ele sem perceber o significado daquela frase. Ele levantou-se, riu-se para mim e foi para o jardim, sem olhar sequer para trás. Eu dei a mão à Ritinha e caminhámos juntas. “Estúpida, estúpida, estúpida, estúpida, estúpida”, repetia para mim mesma a cada passada. Queria tanto voltar a trás e mudar o rumo daquela conversa. Estávamos quase a sair quando a pequena pára e me diz.

- Eu vi tu e ele a darem um beijinho.

Congelei. Baixei-me de imediato e olhei em volta para me certificar que mais ninguém tinha ouvido. Puxei-a para junto de mim.

- Ritinha, sabes o que é um segredo?
- Sim. É uma coisa que eu sei e que não posso contar a ninguém.
- Isso mesmo, linda menina. Então… o beijo que tu viste… não podes contar a ninguém, está bem? É um segredo meu, teu e do David, ok? – Perguntei-lhe, piscando-lhe o olho.
- Sim, está bem. Mas, Kika, tu gostas dele?

Fiquei embasbacada com aquela pergunta, mas não consegui mentir-lhe. Foi um impulso ao qual não resisti.

- Sim, gosto muito dele, muito, muito. Mas isso também é segredo. E este é só nosso, meu e teu. Não podes contar nem ao David, está bem?
- Sim.– Sorriu de felicidade. – Ainda bem.
- Ainda bem o quê, querida?
- Que gostas dele, porque eu acho que ele também gosta de ti.

Um sorriso invadiu-me o rosto. A sinceridade das crianças é de facto uma coisa extraordinária. Mas pode ser, por vezes, tão inconveniente. Chegámos ao jardim e eu procurei a Si com o olhar e encontrei-a sentada junto ao Ruben, ao Gustavo e ao David. Fomos sentar-nos junto aos brinquedos, na manta esticada por cima da relva. A Raquel chamou-nos pouco depois para cantarmos os parabéns. A Ritinha continuava junto a mim. Depois dos festejos, voltámos para a mesa com o resto do grupo. Sentei-me com a pequena ao colo, sem conseguir evitar cruzar o meu olhar com o do David. Dividi com a menina uma fatia de bolo e uma taça de champanhe para crianças, enquanto a Si e a Raquel bebiam uns beirões e os rapazes continuavam a beber água. Por entre as brincadeiras com a pequena e as trocas de olhares com o David, ía-me martirizando por não ter conseguido, uma vez mais, ser sincera com o David.

Pouco depois, a mãe da Rita aproximou-se e informou-a de que teriam de voltar para casa. A pequena deu-me um beijo, desceu do meu colo e agarrou na mão da mãe. Preparavam-se para se afastarem da mesa quando a Rita, voltou e se agarrou às minhas pernas.

- Não quero ir embora.
- Ritinha, tens mesmo de ir. Mas olha, podes ficar com a minha bandolete. Ofereço-ta.

Ela agarrou-se a mim, deu-me um longo beijo na bochecha e brindou-me com a sua ingenuidade.

- Olha, eu não me esqueço dos nossos segredos…

Até estremeci só de a ouvir dizer aquela palavra. A Rita levou o dedo ao nariz e fê-lo rodopiar, mostrando que estava em dúvida.

- … mas eu já não me lembro de qual segredo é que eu não posso contar a ninguém, nem ao David. O do beijo ou o outro que gostas muito, muito, muito dele?

Baixei a cabeça lentamente, coloquei a mão por cima dos meus olhos e tentei a todo o custo controlar a respiração. “Merda”, era a única palavra que saía. Levantei a cabeça a custo e encontrei a Ritinha ainda com o dedo no nariz, confusa.

- Nenhum, Ritinha, nenhum. Agora vai lá que a tua mãe está à tua espera.

Percebendo que tinha feito asneira, a pequena tapou a boca, olhou para mim, depois para o David, pediu desculpa baixinho e correu para junto da mãe. O Ruben soltou uma gargalhada que não conseguiu parar nem com a Raquel a bater-lhe no braço. O Gustavo e a Si estavam entrelaçados a abafarem o riso no corpo um do outro. O David olhou para mim com uma calma que me enfureceu ainda mais. Sem dizer uma única palavra, levantei-me e fui para a casa de banho. Quando regressei para junto do grupo, já a Si e os rapazes estavam prontos para irem embora.

- Então, estavam à minha espera? - Perguntei
- Sim, Kika, já está a ficar tarde e os rapazes têm uma viagem para fazer amanhã cedo – Respondeu-me a Si, continuando – Paris, ai que inveja.
- Paris? – Não me recordava daquela viagem.
- Sim, lagartixa, primeira-mão dos dezasseis-avos de final da Liga dos Campeões, sabes o que é isso? – O Ruben olhava com ur ar trocista e eu já esperava uma provocação – Oh, claro que não. Vocês este ano é só liga dos cêntimos.
- Ruben, não sejas parvinho.
- Tou só a brincar, lagartixa.
- E aí gente, vamo? – O David intrometeu-se e começou a caminhar em direcção à porta da casa.

Saímos os seis e ficámos reunidos a despedir-nos. O David acenou com a mão e foi para o carro dele.

- Então mano? – Perguntava-lhe o Ruben, surpreendido
- Vou entrando, manz, tou ficando com frio e não posso piorar.
- Ah pois não, mano, vai lá, vai.
- E aí Gustavo, não demora, não?
- Pô macarrão, cê tá stressado. Relaxa, cara. Me dá um minuto.

O David nem respondeu, entrou imediatamente no seu carro. Todos olhavam para mim, como se esperassem qualquer atitude da minha parte. Percebendo a minha fingida distracção, a Si deu-me uma valente cotovelada.

- Porra, Si, essa doeu. Estás maluca ou quê?

A Si continuava a olhar para mim, tentando transmitir-me uma mensagem facial. Eu sabia perfeitamente o apelo que ela me fazia. E a minha vontade era sem dúvida ir ter com o David e dizer-lhe de uma vez por todas o que sentia, mas as minhas pernas não me obedeciam. Aquela luta entre o meu coração e o meu corpo só foi interrompida por nova provocação do Ruben.

- Oh Si, ela é lagarta. E eles são todos assim, dentro e fora do campo – Ele sorria.
- Assim como Ruben? – Perguntei-lhe com algum desdém.
- Fraquinhos, fraquinhos…

Soltou-me uma gargalhada conjunta. Senti uma vontade enorme de ofender o Ruben, mas consegui controlar-me. Soprei um beijo com os lábios e entrei no carro da Si, que ela me tinha pedido para conduzir, uma vez que tinha consumido álcool. A Si e o Gustavo beijaram-se e cada um entrou no respectivo carro. A Raquel e o Ruben continuavam abraçados junto à entrada da casa à espera que arrancássemos. Eu liguei o carro e, quase sem controlar o movimento, olhei para o David. Ele sorriu-me timidamente. Fechei os olhos, respirei fundo, e com o carro a trabalhar, abri a porta e saí, num gesto irreflectido. Contornei o carro da Si pela traseira, dirigi-me ao carro do David e abri a sua porta. Ele olhou para mim, algo surpreso.

- Então, esqueceu alguma coisa?
- Sim, esqueci-me de duas coisas – Fiz uma pausa e debrucei-me sobre ele – Esqueci-me de te dizer que te adoro e de esqueci-me de fazer isto.

Entrelacei a minha mão esquerda nos caracóis do David e dei-lhe um beijo cheio de paixão. Ele correspondeu. Deixámo-nos que as nossas línguas se envolvessem num bailado frenético e beijámo-nos louca e demoradamente, até quase perdermos o fôlego. Selámos aquele momento apaixonado com um leve beijo. Ficámos alguns segundos a olhar-nos profundamente.

- Obrigado – Foi a única palavra que o David proferiu por entre um sorriso delicioso, que eu retribui.

Voltei a erguer-me e antes de fechar a porta, olhei por cima do tejadilho do carro para a Raquel e o Ruben, que sorriam.

- Ruben – gritei de sorriso rasgado.
- Sim?

Estiquei o braço e levantei o dedo do meio, fazendo um gesto obsceno.

- Fraquinho, mas muito sincero…

Soltei uma gargalhada. Todos me acompanharam menos o David. Consegui decifrar-lhe a dúvida pela expressão facial. Voltei a debruçar-me no carro.

- Amanhã ele explica-te. – Roubei-lhe atrevidamente um beijo suave nos lábios – Até amanhã, caracolinhos.
- Não. Até quarta. – Disse-me com uma certa tristeza.
- Ou isso. Vou ter saudades tuas – Sorri-lhe e voltei a beijá-lo levemente. Ele olhava para mim atónito. 

Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, fechei a porta e saí. Voltei para o carro da Si, de sorriso rasgado. Ela olhava para mim enternecida. Puxei o carro para trás e preparei-me para seguir. Ainda sorridente, fitei a Sílvia, dizendo-lhe apenas: “Sinto o meu coraçãozinho aos pulos”. Ela sorriu para mim e aumentou o volume do rádio. Aqueles sorrisos acompanharam-nos até casa.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Capítulo 26 (Parte I) - O amanhã vem depois


Acordei com uma forte claridade a bater-me no rosto. Sentia as minhas pernas entrelaçadas nas do David, que estava abraçado a mim. Estiquei a mão, tirei o telemóvel da carteira e vi as horas. Passavam poucos minutos das nove. Desprendi o meu corpo do do David e fui à casa de banho trocar de roupa, o mais silenciosamente possível. Peguei na carteira e nas botas e, já na sala, calcei-as. A Si e o Gustavo ainda dormiam. Bati a porta devagarinho e regressei a minha casa.

Entrei no quarto para pousar a mala e encontrei um caixote. Percebi pelo remetente que era o livro para dar de presente à Raquel. Encostei a caixa a um canto, vesti um fato de treino e fui deitar-me no sofá a ler o meu livro. Perdi-me, durante um bom par de horas, por entre as palavras de Pat Conroy. A minha leitura foi apenas interrompida pelo sinal de mensagem no meu telemóvel. Era o David.

“Não precisava sair escondida. Podia ter esperado eu acordar, podia ter ficado para almoçar com a gente, podia ter deixado eu conversar com você. Podia. Você pode tudo… pena não querer!”

Não consegui desprender o meu olhar daquela mensagem por alguns minutos. Encontrava naquelas palavras uma agressividade à qual não estava habituada. Sentia-me sem qualquer resposta para enviar ao David. Dei inúmeras voltas à cabeça e não encontrava uma só frase que pudesse escrever.

“Olá. Como estás, sentes-te melhor? Beijo” – Optei por não tocar, sequer, no assunto.

“Estou bem, obrigado” – A resposta do David foi rápida e seca, o que me irritou ainda mais.

Sentia-me magoada. Apesar de todas as minhas indecisões e fugas, dos meus medos e hesitações, tinha estado com ele a noite toda, a tentar remediar uma situação pela qual também assumia as minhas culpas, a tentar compensar em carinho o que lhe andava a negar em palavras. E nem uma sinal de agradecimento por parte dele.
Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Estava ainda mais consumida pela culpa. Penitenciava-me por ter dado o primeiro passo para o jantar, por ter beijado o David, por não ter conseguido resistir ao seu encanto, por me ter deixado seduzir e por estar perdidamente apaixonada sem coragem para o assumir. Condenava-me por não ter estabelecido, desde o primeiro minuto, os limites entre o que poderia ter sido apenas uma bonita amizade e o que me parecia agora uma intimidante paixão. Deixei de culpar o David por aquelas palavras ásperas e assumi sozinha a responsabilidade por aquele imbróglio de sentimentos e emoções no qual nos tinha colocado.

Meia desorientada, liguei o rádio da sala com o volume quase no máximo, abri as janelas da casa e comecei, desesperadamente, a limpar. Tirei cada peça do seu lugar, esfreguei cada móvel, centímetro por centímetro, aspirei, varri, lavei… embriagada pela raiva que me movia.
Algumas horas depois, fui colocando tudo no seu devido local. Preparava-me para repor os tapetes quando fui interrompida pelo silêncio imposto pela Sílvia que havia desligado o som e se encontrava encostada à porta da sala a olhar para mim, perplexa.

- O que é que se passa aqui? – Perguntou-me, enrugando as sobrancelhas num ar desconfiado.
- É a tua casa que está a levar a maior esfrega do século. – Respondi-lhe determinada, enquanto pegava num cigarro que fui fumar para a varanda.
- Eh lá, andas cheia de vontade, tu. Não me parece é que isto seja só mania das limpezas. – Pousou a carteira em cima da mesa da sala – Vou tirar um café. Queres?
- Sim, estava mesmo a apetecer-me.

Enquanto a Si foi à cozinha, eu sentei-me em cima de uns tapetes que estavam no chão da varanda. Aqueles dias no Porto e as limpezas domésticas tinham-me deixado de rastos. A Si voltou com o café, já com a dose certa de açúcar e mexido, pronto a beber.

- Estamos muito amáveis, dona Si. Vais pedir-me alguma coisa?
- Sim, por acaso vou. – Passou-me a chávena e sentou-se ao meu lado no chão.
- Então, pede lá, a ver se estás com sorte. – Sorri-lhe.
- Bem, eu queria pedir-te que… bem que… – A Si parecia atrapalhada com o que ia dizer.
- Mau, já não estou a gostar nada… Estás gaga? O que é que se passa? – O meu tom de voz era de quem adivinhava um pedido estranho.
- Kika… (pausa) tu tens de te entender com o David. Por favor!

Levantei-me num ápice e lancei o fumo do cigarro a toda a força.

- Olha lá, tu não estás boa da cabeça. Que raio de conversa é esta Si?
- Oh babe nós estivemos a falar lá em casa. Ele está tão apaixonado por ti Kika. O Gustavo também já me tinha dito que ele está mesmo a gostar de ti, que nunca o tinha visto assim apanhadinho. Como é que tu estás a deixar escapar esta oportunidade?
- Oportunidade? Para quê… para sofrer? Não muito obrigada. Já tive a minha dose.
- Mas sofrer porquê? – A Sílvia levantava o tom de voz e eu também.
- Tu vives em que mundo? Ele daqui a nada vai embora, entendes? E eu não quero mais relações à distância na minha vida, não quero meter-me num situação que eu sei, à partida, que me vai magoar.
- E como é que sabes o futuro? Ah, és bruxa agora.
- Não, sou atenta. E prefiro cortar o mal pela raiz agora, que é só uma paixão. Daqui a uns meses poderia ser amor e eu iria sofrer novamente. – Fiz uma pausa longa sem obter qualquer reacção da Sílvia – Eu sei que não o devia ter beijado, eu estava encantada demais. Mas eu pensei que não ia passar disso mesmo, de uns beijos, de uma atracção. Aconteceu. E, sim, já devia ter acabado com isto antes sequer de ter começado. Mas ainda vou a tempo de evitar uma tragédia.
- Não vais não. Acredita que não vais. Mas tu é que sabes, a vida é tua e o coração é teu. Mas olha, só para que saibas, ele pediu-me a minha opinião e eu dei-lha. Disse-lhe com todas as sílabas que tu estás a-pai-xo-na-da.

Mal terminou a frase, a Si saiu da varanda. Passados uns minutos, ouvi o esquentador disparar e percebi que ela estava no banho. Acendi outro cigarro e deixei-me ficar na varanda até ela terminar. Pouco depois entrei na casa de banho. Nem a água quente a escorrer-me pelo corpo conseguia retirar de cima de mim o azedume daquela conversa. A minha cabeça andava demasiado confusa com toda aquela situação. Mas eu mantinha-me convicta de que estava a tomar a decisão certa.
Pouco depois a Si saiu para trabalhar. Passou pelo sofá, onde eu estava deitada, a ver os episódios da última temporada da série “The O.C.”.

A Si regressou algumas horas depois e eu continuava no mesmo sítio, ainda a ver televisão.

- Como é que tu ainda consegues ver isso, Kika? Já é a milésima vez que o fazes.

Encolhi os ombros. Estava no quinto episódio e tinha já a cara inchada de tanto chorar.

- Tu sabes que eu gosto. – Controlava o tremelico dos lábios, mordendo-os.
- Vais ficar aí que nem uma madalena arrependida, estou a ver. – A Si beijou-me a testa e deixou-me um conselho antes de sair – Não te deites tarde. Amanhã temos a festa da Raquel.
- Eu sei. Mas ainda não tenho sono.
- Ok. Eu vou-me deitar que estou exausta. Boa noite, bichinha.

*************************

Ainda não eram dez e meia da manhã e já a Si se atirava para cima de mim para me acordar. Abri os olhos a custo, mas voltei a fechá-los de imediato perante a luminosidade que já invadia o meu quarto. A Si, ainda de pijama, enfiou-se debaixo dos cobertores e abraçou-me.

- Ei dorminhoca, vamos a levantar
- Shiu, fala baixo. Dói-me tanto a minha cabecinha.
- Deitaste-te tarde?
- Oito da manhã é tarde não é? – Perguntei-lhe tapando a cara com a almofada.
- O quê? Tu és mesmo parva – A Si tirou-me a almofada com força de cima da cara – Eu avisei-te Kika. Oh babe, tu precisas de descansar, senão qualquer dia cais para o lado.
- Sim mãezinha.
- Não é mãezinha, coisíssima nenhuma. E vá, levanta-te senão atrasamo-nos.
- Tenho mesmo de ir? Não me apetece nada.
- Tens sim, é o almoço de aniversário da Raquel. E a casa dos pais dela é em Sintra. Por isso toca a levantar, para comermos qualquer coisa, tomar banho e pormo-nos bonitas.
- Não sei se me apetece estar com o David.
- Apetece, claro que apetece. E apetece também falares com ele e assumires de uma vez por todas aquilo que sentes. Deixa-te de desculpas esfarrapadas e de medos parvos, e aproveita a vida. Hoje, não é ontem nem amanhã, é hoje, Kika. Esquece o passado, não penses no futuro, vive esta paixão agora.
- Já acabaste? – Perguntei-lhe tranquilamente.
- Não, ainda não. Sabes, tenho saudades daquela Kika completamente destravada que, quando estava apaixonada, só fazia loucuras sem pensar minimamente nas consequências. Quem é que me obrigou a fazer mais de quarenta quilómetros para ir a um bar de praia ver um concerto de Heavy Metal? – Eram perguntas retóricas, às quais a própria Si ia dando as respostas, sem me deixar abrir a boca sequer – Tu, e tu nem gostas desse tipo de música, mas estavas maluquinha pelo bonzão do vocalista. Quem subiu ao palco da Latada em Coimbra para cantar o “feitiço” com o André Sardet? Tu, e nem gostas da música, mas querias fazer uma declaração de amor. Quem veio de Roma de propósito dormir a Coimbra só porque o outro anormal fazia anos? Tu, porque o amavas…

A Si ía falando e as lágrimas começavam a querer descer pelas maçãs do meu rosto. Sorri, por vezes, ao recordar todas aquelas aventuras em que me tinha metido, sempre levada pelo coração.

- … Tu fizeste estas loucuras todas sem saber o que o futuro te iria trazer. E olha, não trouxe nada daquilo que tu imaginavas. Todos te fizeram sofrer. E tu pensaste nisso? Não. – A Si falava agora para mim num tom inquisitório, que se elevava lentamente sem se tornar agressivo – E o que é que tu me dizias, quando eu desempenhava um papel inverso? Aquele de te impedir de fazer aquelas maluqueiras todas? O que é que me respondias, kika, quando eu te dizia: “Pensa sempre no amanhã”?

A Si estava sentada na cama a olhar fixamente para mim.

- Vá lá, responde.

Respondi-lhe com um sorriso rasgado.

- Eu estou apaixonada hoje, por isso que se foda o amanhã… O amanhã vem depois e não no fim – cantei esta última frase, da música do André Sardet, que eu odiava. A Si soltou uma gargalhada.

- Então, minha babe… – A Si fez uma pausa, respirou fundo, sorriu-me e continuou – …que se lixe o amanhã. É hoje que estás apaixonada, não é? – A Si ficou à espera que lhe acenasse que sim com a cabeça, o que eu fiz – Então levanta-te, tapa-me essas olheiras com uns quilitos de base e vai viver essa paixão.

Levantei-me e vesti-me. Pus um body” e umas leggin’s pretas cardadas no interior, calcei os botins pretos rasos e vesti por cima do body uma túnica rosa-choque de lã. Escovei o cabelo e coloquei uma bandolete preta com um laço, logo atrás da franja. Peguei na carteira e no presente da Raquel e esperei pela Si junto à porta.

- Vamos? – Perguntou com uma voz doce e um sorriso.

Respondi-lhe apenas com a cabeça, mas sem retribuir o sorriso.

- Que foi, Kika?
- Não sei se hoje é um bom dia para ver o David. Ele ontem foi um bocado duro comigo.
- Claro que é. Ele estava triste, só isso. Anda, não penses mais no assunto. Quando lá chegarmos, logo se vê.

A Si puxou-me pela mão, eu coloquei-lhe o braço por cima dos ombros e descemos pelo elevador. Fomos abraçadas até ao carro. A minha amiga sorria, confiante. Eu também sorria, mas não transbordava a mesma confiança que ela, sobretudo por não conseguir esquecer as palavras azedas do David.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Capítulo 25 - Sinto-me tão culpada


A Sílvia ainda dormia à hora que eu saí para a empresa. Entrei silenciosamente no seu quarto e deixei-lhe um bilhete em cima da mesinha de cabeceira.

“Babe, vou para o Porto em trabalho. Regresso amanhã à noite. Eu estou bem, a sério que estou. Mas vou aproveitar para “fugir” e abstrair-me das voltas malucas que a minha vida tem levado. Não ligues. Eu vou dando notícias. Ti amo. Beijinho no coração”

Beijei-lhe docemente a face e saí. Chegue à empresa em cima da hora e já o Sr. António esperava à entrada para guardar a minha mala na bagageira do Mercedes do Dr. Gonçalves. Cumprimentei-o com um sorriso, fui ao gabinete buscar todo o material que necessitava e voltei para junto do carro, onde esperei encostada enquanto fumava um cigarro. O Dr. Gonçalves e o João apareceram logo depois.

- Bom dia.
- Bom dia Ana – Cumprimentou-me o Dr. Gonçalves, tirando a chave do carro do bolso e entregando-ma – Leve o carro, por favor. Sabe que não gosto de fazer viagens longas ao volante.
- Doutor, pode ser o João a levá-lo? Eu preferia trazê-lo na viagem de regresso.
- Claro, por mim não há problema. Mas passa-se alguma coisa, Ana?
- Só uma dor de cabeça. Não dormi muito bem.
- Então vá atrás e descanse. Trouxe tudo o que é necessário?
- Sim doutor – Respondi ao mesmo tempo que abri a porta traseira e me sentei.

Iniciámos a longa viagem até ao Porto. Encostei a cabeça ligeiramente para trás, fechei os olhos e deixei-me contagiar pelo som que saía da coluna. A música que passava era uma das muitas de Bryan Adams, o cantor preferido do Dr. Gonçalves. Como tinha conhecido a mulher com quem casara há 20 anos ao som de “Everything i do, i do it for you”, transformou a discografia do cantor canadiano na banda sonora da sua vida.
Não era propriamente a melodia que me apetecia ouvir naquela manhã, nem tão pouco as letras que queria decifrar, mas não havia nada que pudesse fazer para além de me deixar embalar. Esporadicamente abria os olhos na esperança de poder apreciar a paisagem e distrair-me de qualquer pensamento relacionado com o David, mas a chuva miudinha que batia velozmente no vidro não mo permitia. Ao invés, impunha-me automaticamente um regresso à noite anterior. Eu voltava a fechar os olhos, tentava concentrar-me na letra da música e acompanhava, quase em surdina, o Dr. Gonçalves a cantar. Quando a tentativa de me focar apenas naquele momento falhou e a cara do David voltou a pairar nos meus pensamentos, liguei o computador portátil na ânsia de me distrair com um qualquer jogo. Até ao momento em que a falta de bateria me deixou novamente entregue às vozes do Bryan Adams e do Dr. Gonçalves, ao som da chuva a bater no vidro e às palavras que o David me tinha dito na noite anterior.
Depois da pausa que fizemos para o café e para fumar um cigarrinho, sensivelmente a meio do caminho, eu percebi que não poderia estar mais duas horas a tentar encontrar pretextos para não pensar no David, no que ele sentia por mim e no que eu, embora negando-o, sentia por ele. Voltei a recostar-me no confortável banco traseiro do carro, deixei tombar ligeiramente a cabeça para trás, fechei os olhos e viajei no tempo. Regressei ao dia que os nossos caminhos se cruzaram e tentei perceber que ironia do destino seria aquela que, desde aquele dia, teimava em nos juntar. Pensei no David Luiz, o jogador que me tantas vezes me tinha feito acompanhar, inconscientemente, com uma certa alegria os jogos do rival directo do meu clube do coração. E pensei no David, o homem cuja voz me acalmava, cujo sorriso me alegrava, cujos lábios me faziam estremecer, cujas palavras me prendiam. Não conseguia parar de pensar no David, o homem que me tinha levado a sentir de novo borboletas a bailarem no estômago, o ser humano que tão pouco conhecia mas que a cada dia me cativava um bocadinho mais, a pessoa pela qual estava completamente apaixonada. Deixei que um sorriso se abrisse na minha face e, ironicamente, senti vontade de abraçá-lo. E foi com uma enorme saudade do David que cheguei ao Porto. 

Tinha acabado de entrar no pavilhão de dimensões gigantes onde decorria a feira quando recebi uma mensagem da Si.

“Olá babe. Espero que estejas mesmo bem. Assim que chegares, diz alguma coisa. Baci.”

Agradeci mentalmente à Si por respeitar o meu pedido e respondi-lhe de imediato.

“Já cheguei. E sim estou bem. Vou andar atarefada. Prometo não me esquecer de ti. Beijo”

Sabia que a Si não ia responder. Guardei o telemóvel e caminhei com o Dr. Gonçalves e o João para o stand da empresa, que já tinha sido montado pelos colegas que tinham chegado no dia anterior. Os dias no Porto foram marcados por uma correria maluca. Entre o atendimento ao público que se dirigia ao stand para saber mais acerca dos produtos da empresa; os passeios pela feira na tentativa de encontrar e analisar os stands das empresas concorrentes; o colóquio onde o Dr. Gonçalves participou; os jantares, irritantemente formais, aos quais o patrão nos teimava em levar, a mim e ao João, não sobrou tempo nenhum para enviar uma mensagem ou fazer um telefonema.
Eram seis e meia da tarde de sexta-feira quando saímos do Porto. Tal como prometido, desta vez era eu quem conduzia o Mercedes. Como já não chovia, sabia que podia abusar um pouco mais do que o João na velocidade. O Dr. Gonçalves nem sequer reparava no conta-quilómetros, tal era a sua concentração nas músicas do Bryan Adams. Apesar da máxima atenção com que conduzia, não podia evitar que o meu pensamento vagueasse, pontualmente. E o destino era sempre o mesmo: a imagem do David. Contrariando totalmente as minhas intenções, aquela estadia no Porto tinha-me feito sentir imensas saudades do David.

O João dormia refastelado no banco de trás, eu conduzia tranquilamente e o Dr. Gonçalves cantarolava as suas músicas preferidas. Até que o CD terminou. O meu patrão desviou os olhos da estrada, pela primeira vez desde que tínhamos saído do Porto, e fixou-os no relógio do carro. Deu um salto do banco, olhou para mim aflito e gritou.

- Ana, a que horas joga o meu Benfica?
- Às oito menos um quarto Doutor.
- Bolas, temos de parar para ver o jogo. – Enquanto falava comigo, mexia atrapalhadamente no rádio, tentando sintonizar qualquer emissora que já estivesse em directo do Estádio da Luz – Qual é a próxima estação de serviço?
- Mealhada. Já estamos perto. Paramos lá.
- Óptimo. Ver o Benfica e comer um leitãozinho… parece-me muito bem. – Continuava entretido com os botões do rádio – Ah, encontrei.

O rádio estava sintonizado na Renascença. O comentador ia informando que faltavam quinze minutos para o início da partida e avisou que já tinha disponível os “onzes iniciais”. Começou pela equipa do Benfica. O Dr. Gonçalves aumentou o volume. O jornalista começou a divulgar os nomes pela habitual lógica das posições, começando na baliza. Estava a falar sobre a defesa e não proferiu o nome do David. Eu e o Dr. Gonçalves trocámos imediatamente olhares surpresos.

- Ei, oh rapaz, esqueceste-te do David Luiz? – Perguntava o Dr. Gonçalves, dando leves palmadas no rádio, onde o jornalista continuava a divulgar os nomes dos jogadores.
- Que estranho o David não jogar. Que será que aconteceu Doutor?
- Não faço a mínima ideia, Ana.

Mas a resposta não tardou. O comentador da Renascença prontificou-se a revelar a justificação para aquela ausência invulgar do David na equipa titular do Benfica.

“Nota para ausência de David Luiz no onze, que nem sequer foi convocado para a partida desta noite. O departamento médico do Benfica fez saber, em comunicado, que o central brasileiro ficou de fora das contas de Jesus por se encontrar com sintomas gripais.”

- Fodasse! – Deixei escapar por entre os dentes.

O Dr. Gonçalves nem se apercebeu, estava demasiadamente concentrado nas declarações do jornalista. Eu, ao invés, nem sequer percebi o que ele continuava a dizer. Fui imediatamente absorvida pela imagem do David à chuva à porta de casa do Paulo na noite de quarta-feira. Instantaneamente, uma sensação de culpa invadiu-me o corpo e a mente.

Entrei na área de serviço da Mealhada. O Dr. Gonçalves saiu imediatamente em direcção ao restaurante para procurar a mesa com melhor visibilidade para a televisão. Eu acordei o João, que estremunhado saiu do carro. Acendi um cigarro e comecei uma busca raivosa pela minha carteira. “Como é possível que ele esteja doente e ninguém me diga nada?”. Encontrei o telemóvel e deparei-me com um sem número de chamadas da Si e do Gustavo. Algumas já recebidas na noite anterior. Fiquei ainda mais furiosa. Avisei o João que ía fazer uns telefonemas e fui sentar-me num banco junto ao estacionamento. Marquei o número da Si quase sem pestanejar. Ela atendeu-me num tom desesperante.

- Porra, Kika, estava a ver que não.
- Desculpa, babe, desculpa. Opa foram dias stressantes, desculpa, só agora vi as vossas chamadas. Já sei que o David está doente. Como é que ele está?
- Na cama, com uma gripe descomunal.
- Merda, páh, eu disse-lhe para ele sair da chuva. É tão teimoso esse gajo. E eu sinto-me tão culpada.
- Não tens de sentir. Ele é grandinho, já devia saber o que pode e não pode fazer.
- Oh, mas sinto. Como é que ele está?
- Passou o dia a arder em febre, mas agora está um pouco melhor. O médico do Benfica medicou-o e nós temos feito uns chás.
- Estás aí em casa?
- Sim, dá sempre jeito uma mulher nestas ocasiões. - A Si sorria espontaneamente e eu ouvia o Gustavo reclamar – Olha, e tu como estás?
- Estou exausta, mas estou bem. Olha, estamos na Mealhada, vamos jantar e ver o jogo e depois seguimos viagem. Assim que chegar vou aí ter. Só tenho de ir à empresa buscar o meu carro, ok?
- Não é preciso, Kika, o David está deitado, está a recuperar. E tu precisas de descansar.
- Eu tenho o fim-de-semana todo para descansar. Não se fala mais no assunto. Assim que chegar vou aí ter.
- Ok, faz como quiseres.
- Óptimo. Então espera aí por mim. Agora vou jantar, sim?
- Sim, vai lá. Até logo. Façam boa viagem. Venham devagar.
- Não te preocupes, sou eu que vou a conduzir.
- Pior. A sério, vem com calma, babe. Prometes?
- Sim, prometo. Beijinho.

Não tenho uma única recordação dos noventa minutos do jogo do Benfica, sei apenas que tinha ganho por três a zero nem tão pouco da viagem que fiz entre a Mealhada e o Seixal. O meu único pensamento, a minha única preocupação, o meu único deseja eram o David. E só o David.

Entrei em casa do David movida por uma vontade enorme de o abraçar, apesar do receio provocado pelo sentimento de culpa que teimava em não me largar.

- Desculpem não ter atendido as chamadas. – Disse à Si e ao Gustavo, enquanto os cumprimentava.
- Não tem mal babe. Estás bem? Pareces tão cansada. – Perguntava-me a Si com a preocupação estampada no rosto
- Estou bem, a sério. Só quero ver o David. Como é que ele está?
- Melhorou. Mas tá lá no quarto. Vai lá, ele vai ficar bobo de te ver.
- Achas Gu?
- Tenho a certeza, Kika.

O sorriso do Gustavo tranquilizava-me um pouco. Afinal, ele conhecia perfeitamente bem o David. Pousei a carteira em cima da mesa da sala e caminhei em direcção ao quarto do David. Entrei, pé ante pé, para evitar o som provocado pelos tacões das botas. Só a luz do candeeiro da mesa de cabeceira estava ligado, iluminando o rosto pálido do David, que estava deitado no lado direito da cama, mais junto da janela. Eu sentei-me do lado contrário, mais próximo da porta, descalcei cuidadosamente as botas e gatinhei em cima da cama até junto do David. Debrucei-me ligeiramente junto a ele e fiz-lhe uma festa na cara. Deixei-me perder, por momentos, nos traços perfeitos daquela face. Apesar das profundas olheiras arroxeadas e dos lábios gretados pela febre, a beleza do David permanecia incólume.

O David abriu lentamente os olhos e sorriu para mim. Eu retribui o sorriso e dei-lhe um beijo na testa. Percebi naquele momento que ainda ardia em febre.

- Kika – Disse-me com a voz rouca, enquanto empurrava os cobertores para trás.
- Olá doentinho. Como te sentes?
- Um pouco melhor. Mas tou morrendo de calor e ainda me dói um pouco a cabeça. O que você tá fazendo aqui?
- Vim ver como estavas. Cheguei há pouco do Porto.
- Está com um ar cansado.
- A viagem foi cansativa. – Sentei-me na cama, sem desviar o olhar do David. – Eu pedi-te tanto para saíres da chuva. E agora sinto-me tão culpada por estares doente.
- Deixa para lá. Eu é que devia ter tido cuidado. Essa burrice me fez falhar o jogo. Sabe como ficou?
- Ganharam. Três zero. Mas os adeptos sentiram a tua falta.
- E como você sabe?
- Porque eu vi o jogo e os muitos cartazes dedicados a ti. Tens de te por bom para o próximo jogo.
- Tenho mesmo.

O David voltou a puxar os cobertores para cima de si, depois de ter soltado um arrepio.

- Estás todo transpirado por causa da febre. Deixa lá ver a temperatura. – Debrucei-me sobre ele e peguei o termómetro que estava em cima da mesa de cabeceira. – Toma, põe isso na boca.

Fiquei a contemplá-lo enquanto esperávamos pelo sinal do aparelho que chegou uns minutos depois.

- Deixa ver, caracolinhos. – Peguei no termómetro. – Trinta e oito. Temos de baixar isto. E de mudar esta roupa da cama que está toda húmida e ainda te faz pior. Vai tomar um duche com água morna que troco os lençóis e vou-te preparar um chá.

O David nem reclamou. Levantou-se, retirou uns boxers e um pijama dentro de um gavetão e os lençóis de outro. Foi para o chuveiro ainda a cambalear. Eu refiz a cama com a roupa lavada e fui à cozinha preparar o chá. Enquanto esperava pelo David, fui ter com a Si e o Gustavo à sala. Conversámos até ouvirmos a água parar de correr. Peguei o chá e uma garrafa de água na cozinha e voltei para o quarto. Esperei, deitada, que o David secasse o cabelo. Sentia os olhos pesados, a cabeça zonza, o corpo dorido. Mas a preocupação com o David era interminavelmente superior ao meu cansaço. Levantei-me assim que senti o David entrar no quarto.

- Você está exausta, lagartixa.
- Eu sou rija, ainda me aguento um bocadinho mais. Vá, deita-te e bebe o chá.

O David fez o que lhe ordenei. Deitado de lado e apoiado no braço direito, bebeu o chá de uma só vez. Eu arrepiei-me. Estava completamente enjoada com aquele cheiro que eu tanto odiava, mas evitei o mais que pude demonstrá-lo ao David. Ele pousou a caneca em cima da mesinha e deitou-se. Eu tapei com os cobertores até ao pescoço e sentei-me ao seu lado.

- Sentes-te melhor?
- Um pouquinho, mas essa dor de cabeça ‘tá me matando. E não ‘tou podendo tomar mais remédio. – A cara do David espelhava o seu sofrimento.
- Queres que te faça um cafuné? Pode ser que ajude a diminuir a dor. A Si costuma fazer-me e resulta.
- Obrigado Kika, obrigado mesmo.
- Shiu. Não agradeças. Eu estou aqui porque quero. Vá, chega a cabeça mais para aqui.

Sentada, encostei-me à cabeceira da cama, puxei a almofada do David ligeiramente para cima da minha perna e ele deitou a cabeça. Entrelacei a minha mão nos seus caracóis e muito lentamente comecei a rodopiá-la, enquanto que, com a ponta dos dedos, lhe massajava o couro cabeludo. O David estava de olhos fechados e eu conseguia sentir pelo tacto o seu relaxamento.
Senti, naquele momento, brotar em mim o meu lado mais protector. Uma faceta que definitivamente tinha herdado da minha mãe e que fui desenvolvendo ao longo da vida enquanto irmã, prima e amiga mais velha. Adormeci com o meu coraçãozinho um pouco mais feliz.

Foi uma terrível dor nas costas e a dormência do braço que me fizeram acordar. Não tinha a mínima noção de quanto tempo teria dormido, sabia apenas que não estava na minha casa e que era para lá que devia voltar. Afastei-me delicadamente enquanto segurava na cabeça do David e a pousava de novo na almofada. Arrastei-me levemente pela cama e saí do quarto cuidadosamente, para não acordar o David daquele sono que, pela sua feição, me parecia tão delicado. Fui até à sala à procura da Si e do Gustavo, mas não os encontrei. Contudo, a mala, o casaco e as botas da Si denunciavam a sua presença na casa. Voltei ao corredor e vi a porta do quarto do Gustavo fechada. Depreendi que estivessem a dormir juntos. Peguei no meu telemóvel e vi as horas. “Merda, já são quatro da manhã. E agora?” – perguntei a mim mesma, enquanto me encostava à janela da sala. Vislumbrei a minha casa ao fundo e tentei, por segundos, ponderar qual seria a melhor. Num acto quase inconsciente, peguei na carteira e voltei para o quarto. Fechei a porta lentamente e corri com os olhos o quarto do David. Encontrei em cima do puff vermelho umas calças de treino e uma sweat. Irreflectidamente, avancei para lá, olhei para o David para me certificar que ele estava a dormir, virei-me de costas e despi-me. Tirei primeiro a camisola, depois o soutien e vesti rapidamente a sweat. Voltei a olhar para o David para confirmar que dormia e num gesto que me pareceu suficientemente veloz despi as calças e vesti as do David. Estava a fazer umas dobras na cintura quando uma voz me fez gelar o sangue.

- Que bunda mais bonita – Disse-me o David num tom envergonhadamente provocador.

Mandei um salto, terminei as dobras de forma acelerada e virei-me num ápice.

- Porra David que susto. Pensei que estivesses a dormir. – Senti-me corar.
- E estava. Mas qualquer coisa me fez abrir os olhos. E ainda bem.
- E ainda bem o tanas. Que vergonha, pá!
- Vergonha de quê, sua boba? Desse bum bum gostoso.
- Shiu. Acabaram-se os elogios ao meu rabo. Gostoso? – Perguntei com desdém – Deves estar a alucinar. É melhor voltarmos a ver essa temperatura.

Peguei no termómetro e enfiei-lho na boca. Continuava corada e deveras constrangida. O aparelho deu sinal, o David tirou-o num ápice e mostrou-mo.

- Tá vendo? Não tou mais com febre não.
- Pois, então deve ser o sono que te faz dizer essas parvoíces.
- Deixa de ser boba, Kika. Vai dormir comigo? – Perguntou-me com um sorriso rasgado.
- Vou dormir ao pé de ti, sim. Já são quatro da manhã, a Si está a dormir com o Gu e eu não quero ir para casa sozinha.
- Ué, claro que não. Vem – O David pegou-me a mão e puxou levemente para junto dele – Deita aqui.

Eu passei por cima dele sem lhe tocar e deitei-me, debaixo dos lençóis e cobertores, ao seu lado. Podia sentir o calor do seu corpo. Senti uma enorme vontade de abraçá-lo, de beijá-lo, de lhe abrir o meu coração. Mas fechei os olhos e tentei afastar aqueles pensamentos. Esforcei-me por adormecer mas, apesar do enorme cansaço que continuava a sentir, não conseguia dormir. Percebi que também o David se esforçava para adormecer. Não parava de se mexer. Abanava o pé esquerdo, coçava o braço direito, virava a cara para um lado e depois para o outro. Suspirava. Eu continuava quietinha no meu canto da cama. Mas ao fim de uns largos minutos, aquela agitação do David começava a preocupar-me. Abri os olhos e deitei-me de lado, virada para ele.

- Caracolinhos, estás bem? Precisas de alguma coisa?           
- Não, está tudo bem.
- Então porque é que não paras quieto?
- Não consigo dormir – Agora também ele se deitava de lado, virado para mim.
- Então se calhar é melhor eu ir para o sofá. Diz-me só onde estão os cobertores.
- Não – Disparou prontamente – fica aqui comigo.
- Ok, eu fico. Mas então dorme. Tens de descansar.
- Eu sei. – Fez uma breve pausa. – Posso te pedir uma coisa?
- Sim, claro.
- Chega mais para junto de mim e me abraça.

Respirei fundo e senti o bater do meu coração num compasso acelerado. Quis negar-lhe o pedido, mas o seu olhar penetrante fez-me aproximar, num acto quase hipnótico. Cheguei um bocadinho mais perto, rodei um pouco mais o meu corpo e abracei-o. Ficámos assim, com os corpos entrelaçados durante um par de minutos. Um enlace perfeito que o David aproveitou para me sussurrar ao ouvido.

- Deixa eu dizer que estou apaixonado por você, deixa?

Olhei-o bem fundo e não consegui evitar um doce sorriso.

- Está dito.

Perdendo totalmente o controlo do meu corpo, deixei que a minha cabeça se inclinasse e beijei o David suavemente. Voltei a sorrir-lhe e deitei-me novamente de barriga para cima. O David imitou-me o gesto. Estávamos agora mais próximos. Os nossos pés brincavam ao fundo da cama. As nossas mãos encontraram-se por entre os nossos corpos e apertaram-se, primeiro de forma suave, depois com mais firmeza. O David apagou o pequeno candeeiro colocado sobre a mesa de cabeceira e sussurou.

- Estava precisando ficar assim com você… lado a lado.

Não lhe respondi. Limitei-me a apertar-lhe um pouquinho mais a mão. No silêncio absoluto do quarto do David, adormecemos embalados pelo bater dos nossos corações.

sábado, 9 de outubro de 2010

Capítulo 24 - Tu és louco?


Acordei estranha naquela manhã de segunda-feira. Sentia um aperto no peito e um sufoco que me cortava a respiração. Tinha passado mal a noite, por entre pesadelos e suores frios. Foi com uma má disposição terrível que fui trabalhar. O dia foi passado por entre reuniões, discussões e papeladas. No final dessa semana a empresa iria participar num feira industrial no Porto. O Dr. Gonçalves pediu-me que preparasse toda a estratégia de comunicação e marketing, que fizesse um comunicado para a imprensa e ainda redigisse o discurso para ele utilizar no colóquio integrado no certame. Embora gostasse de trabalhar sob pressão, a verdade é que estava a deixar que a vida pessoal afectasse o meu desempenho profissional. Decidi, por isso, recusar o convite da Si para ir jantar com o grupo a casa do David. Apresentei-lhe o cansaço e a sobrecarga de trabalho como justificações e ela aceitou, ainda que ligeiramente amuada. Deitei-me na cama, depois de um banho, e liguei ao Paulo. Precisava mesmo de falar com ele. Em duas horas, coloquei-o a par do que tinha acontecido nos últimos dias, da conversa com a minha mãe, dos meus sentimentos e das minhas dúvidas. Eu falava e ele ouvia.

A terça-feira foi inteiramente dedicada a escrever textos, pensar na disposição dos panfletos informativos, placards, revistas e dossiês de imprensa no stand da feira, actualizar a newsletter e o site e enviar o comunicado para as redacções. No final do dia estava ainda mais estafada, sobretudo mentalmente. Por entre as difíceis tentativas de concentração mental tinha de me debater com a fuga dos meus pensamentos para lugares como a cozinha do David, o meu quarto ou o centro de treinos do Seixal. Voltei a recusar um convite estar com o grupo. Nessa noite o encontro seria em casa do Ruben, onde a Si iria realizar a tão esperada sessão fotográfica com a Raquel. As minhas justificações mantiveram-se iguais. A reacção da Si às mesmas piorou ligeiramente. Despediu-se, no telefonema que tivemos, com um “andas muito estranha mas logo falamos melhor”.
Assim que pressenti a Si entrar em casa, fingi que dormia profundamente. Durante esses dois dias não enviei uma única mensagem ao David e não me encostei nem por um segundo ao parapeito da janela do meu quarto.

Na quarta-feira, porém, a fuga perdeu eficácia. E a culpa tinha um nome: Paulo Leitão. Passei a manhã toda a preparar o discurso do Dr. Gonçalves sobre “Liderança de mercado em 25 anos de história” e saí para almoçar já eram quase duas e meia da tarde. Comi uma sopa à pressa num pequeno restaurante a cinco minutos da empresa e regressei meia hora depois. Entrei, apressada, mas abrandei o ritmo logo na recepção, assim que o Sr. António me disse que tinha uma visita no gabinete. Entrei e deparei-me com o Paulo sentado na minha cadeira. A Salomé apareceu logo atrás a perguntar se precisávamos de alguma coisa. Eu conhecia bem as intenções dela: coscuvilhar. Disse-lhe que não e fechei a porta.

- Esta gaja irrita-me de uma maneira. Um dia destes passo-me da cabeça. – Resmunguei num tom abespinhado.
- Calma Aninhas. Andas muito stressada para o meu gosto.
- Olha lá Paulo, o que estás aqui a fazer?
- Fui almoçar com o Gonçalves para tratarmos de uns assuntos. E decidi vir fazer-te um convite. Jantas lá em casa logo? Já falei com a Si. Ela está confirmadíssima. Noite de Karaoke, parece-te bem?
- Chiça, tu e o karaoke. Não te cansas de cantar tão mal?
- Cala-te. Jantas ou não?
- Sim, janto. Mas aviso já que não sei a que horas chego. Estou atulhada em trabalho. Por isso é melhor fazeres petiscos.
- Já tinha pensado nisso. Que tal uns salgadinhos e uns patés?
- Parece-me bem. Agora pira-te que tenho mais que fazer.
- Bolas Ana, tu hoje estás impossível. Estás mesmo a precisar de me ouvir cantar – Soltou uma gargalhada audível em todo o edifício.
- Shiu. Ri-te baixo. Sim, é mesmo disso que preciso. Agora, deixa-me trabalhar oh Zé Cabra. – Sorri levemente, enquanto me levantava para lhe abrir a porta. – Adeus Paulo, até à próxima.
- Cara Ana, tenha um resto de uma boa tarde.

Sorrimos os dois disfarçadamente. Adorávamos aqueles momentos de formalismo fingindo. A tarde demorou a passar. Ainda assim, por momentos, pareceu-me demasiado curta para a imensidão de trabalho que tinha por fazer.
Saí da empresa já passava das sete e meia da tarde e tinha começado a chover. Dez minutos depois, estava no estacionamento em frente ao prédio onde o Paulo mora. A chuva caía agora com mais intensidade. Dei uma corrida até à porta, toquei à campainha e subi os dois lanços de escada apressadamente. A porta já estava entreaberta. Assim que entrei, vi o Paulo na cozinha, que fica ao fundo do corredor, e fui até lá. Vi o casaco da Sílvia pousado. Dei um beijo no Paulo.

- Desculpa o atraso. Queres que leve alguma coisa?
- Só faltam as tostas para o paté.
- Ok. SI JÁ AFINASTE A VOZ? – Gritei de forma a ser ouvida na sala, onde pensei estar só a Sílvia.
- “JÁ” – Respondeu-me, soltando uma gargalhada.

Peguei na taça com as tostas e segui até à sala. Caminhava sorridente, mas assim que entrei naquela divisão, senti uma expressão de irritação invadir-me o rosto. A Si estava acompanhada do Gustavo, da Raquel, do Ruben e do David.
- Boa noite – Disse quase em surdina.
Fui apanhada completamente de surpresa. Tinha imaginado um serão a três, só com o Paulo e a Si, como era habitual.

- Kika, até que enfim que te ponho os olhos em cima. – A Raquel veio logo abraçar-me. O Ruben seguiu-a.
- Então lagartixa, ainda amuada?
- Oh Ruben, não comeces.
- Desculpa, amiga, já vi que não estás nos teus dias. Já ouvi dizer que o Gonçalves te anda a matar com trabalho – Dizia, enquanto roubava uma tosta da taça – Queres que meta uma cunha para te diminuírem o horário? – Fez aquele sorriso de troça que lhe era característico.
- Não obrigada. Eu gosto muito de trabalhar.
- Kika, isso aí tem um nome – Disparava o Gustavo, agarrado ao comando da Playstation – Penso que é… (pausa) … doença. – Soltou uma gargalhada. – Agora passa as tostas que o paté eu já tenho.

Fui até ao sofá, dei um beijo na testa da Si e passei as tostas ao Gustavo. Olhei para o David e sorri-lhe. Ele encostou-se a um canto da poltrona e fez-me sinal para me sentar junto dele. Eu aproximei-me, dei-lhe dois beijos e sentei-me.

- Tava difícil falar com você esta semana. – Disse-me quase em surdina.
- Tenho tido muito trabalho, desculpa.
- Ué, nem um minuto para enviar uma mensagem?

Fui interrompida pelo toque do telemóvel da empresa. Levantei-me e fui apressadamente buscar a carteira à cozinha. Procurei atrapalhadamente o aparelho, mas a chamada parou. Ouvi, entretanto, o toque característico que o telemóvel faz quando se desliga por falta de bateria. Voltei à sala com a carteira.

- Quem era? – Perguntou a Si.
- Não sei. A porcaria do telemóvel desligou-se e já não deu para ver.
- Paciência. Acabou-se o trabalho. Vamos mas é cantar que eu estou inspirado hoje. – Disse o Paulo enquanto preparava o programa de Karaoke da consola.

Aquele programa funcionava como uma espécie de concurso. O Paulo escolheu a função de cantar a pares, em que cada um teria de cantar uma parte da música, alternadamente. A identificação era feita através da cor das letras que correspondia à cor de uma fita colada no microfone. O Gustavo avisou que não alinhava na brincadeira porque “preferia ficar comendo tosta com paté” e com essa desistência tínhamos o número perfeito para formar três pares. A Raquel e o Ruben formaram um par, eu e a Si outro, o David e o Paulo outro. Começámos o concurso. O Ruben e a Raquel eram os mais divertidos. Escolhiam de forma alternada entre os estilos romântico e pimba. Eu e a Si não parávamos de discutir sobre a língua em que havíamos de cantar. O Paulo e o David discutiam sobre os autores das músicas: o Paulo só queria cantar músicas de grandes vultos portugueses; o David teimava em cantar músicas de grandes nomes da música brasileira. Estava a confusão instalada naquela sala. O único casal oficial em concurso, a Raquel e o Ruben, estava a vencer e eu e o David começávamos a passar-nos. Eu gritava com a Si, o David reclamava com o Paulo. Eles riam-se e nós ficávamos cada vez mais possessos com as nossas acusações de que estaríamos a perder pontos por culpa deles. Sem que nada o fizesse prever, o David exaltou-se com o Paulo.

- Cara, cê tem a certeza que cê conhece as regras desse negócio?
- Não David, ele nem sabe o que significa afinação – Intrometi-me. – Ele e esta que aqui está ao lado.
- Ei, eu não tenho nada a ver com isso.
- Tens sim, Sílvia. Não consegues sequer acompanhar o ritmo da música. Tu costumas ouvir música, por acaso?
- É, deve ouvir a mesma música que esse daí – Dizia o David apontando para o Paulo.

A Raquel e o Ruben tinham aproveitado para namorarem, ainda embalados pela última música romântica que tinham cantado, e o Gustavo tinha parado de comer tostas para se agarrar à barriga de tanto rir. A Si e o Paulo continuavam com sorrisos irritantemente cúmplices.

- Olha, estão para aí a criticar, porque é que não cantam os dois? Já que são assim tão perfeitos. – Dizia a Si num tom trocista.
- Porra, têm cá um mau perder. Realmente vocês foram feitos um para o outro. Ficam lindamente bem, juntinhos. – Acrescentou o Paulo num tom provocador.

O silêncio instalou-se repentinamente naquela sala.

- Vou buscar qualquer coisa para beber. – Disse o Paulo, com um sorriso envergonhado.

Ele saiu da sala e eu, num ápice, seguiu-o. Entrei na cozinha atrás dele, irritada.

- Que merda de boca foi aquela, Paulo Leitão?
- A verdade.
- Opa mas que verdade? Tu às vezes passas-te.
- Sim, às vezes. Sobretudo quando vejo uma amiga armada em parva.
- Desculpa?
- Oh Kika, tu andas assim irritada porque não paras de fugir.
- Fugir? Oh estúpido, fugir de quê? De quem?
- De mim.

A voz do David congelou-me o sangue. Estava de costas e não me tinha apercebido da sua presença na cozinha. Não conseguia encará-lo. O Paulo saiu, silenciosamente. Senti o David encostar a porta. Respirei fundo e virei-me de frente para ele.

- Eu não estou a fugir de nada. – Disse-lhe decidida.
- Como não? Desde domingo que você se esconde. Não liga, não manda mensagem, não aparece.
- Já te disse que ando cheia de trabalho.
- Ah. Todos nós trabalhamos Kika. E você chegou nem ligou pra mim. Sentou, pediu desculpa e se afastou.
- Fui atender o telemóvel David.
- Pôxa, mas nem um sorriso, nem uma piada, nem uma conversa.

Caminhei em direcção á janela da cozinha e encostei-me. Queria estar afastada o mais possível do David.

- Desculpa.
- Pára de pedir desculpa. Pára de fingir que nada tá acontecendo entre nós.
- Mas não está.
- Cê acha que não? – O David elevava o tom de voz – Então e os beijos, os carinhos, a cumplicidade? Será que eu tou ficando maluco?

Eu estava de novo de costas para o David. Tinha o olhar perdido na chuva que caía cada vez mais agressivamente.

- Olha para mim Kika. – Pediu-me num tom agressivo. Eu acedi. – Me responde.
- Que queres que te diga?
- Sou eu que tou entendendo tudo errado ou a gente está vivendo uma paixão, mas só um de nós está assumindo isso? Ou será que eu estou vivendo essa paixão sozinho? Fala alguma coisa por favor.

A cada palavra do David, eu tremia um pouquinho mais. Sentia um turbilhão de pensamentos a rodopiarem no meu cérebro, prontos a entrarem em erupção a qualquer momento. Mas de cada vez que eu tentava pronunciar uma palavra, um bloqueio automaticamente controlado pelo meu cérebro impedia-me de falar. O meu coração batia cada vez mais acelerado. O David avançou em direcção a mim, agarrou-me nos braços e suplicou-me.

- Fala comigo. Me diz que não tou maluco, me diz que você está sentindo o mesmo que eu sinto, que você tá querendo o mesmo que eu quero. Fala, Kika.
- Pára David – Gritei-lhe. – Pára, por favor.

O David afastou-se de mim. Conseguia perceber pelas suas veias salientes a raiva que o consumia.

- Eu pensava que você ia sempre atrás, mesmo que quebrasse a cara. – Ele falava agora calma e secamente, remetendo-me para o momento do primeiro beijo, na cozinha da sua casa – Afinal, você não passa de uma medricas.

Assim que terminou de falar, saiu da cozinha disparado. Entrou na sala, pegou nas suas coisas, despediu-se bruscamente e saiu. Eu fiquei imóvel por uns segundos. Mas, desperta pelo bater violento da chuva contra a janela, dei uma corrida até à sala, peguei na minha carteira, despedi-me perante o olhar estupefacto dos nossos amigos e saí. Desci as escadas a toda a velocidade atrás do David. Cheguei à porta do prédio e vi-o correr, debaixo de uma forte chuvada, em direcção ao seu carro.

- David, espera. – Gritei-lhe.

Ele parou, mesmo com a chuva a bater-lhe violentamente na cara.

- Diz.
- Eu não sou medricas… (pausa) … e sai da chuva por favor!
- Ai não? Então vem aqui e me fala que eu não tou maluco.
- David sai daí se faz favor. Vais ficar doente.
- Só saio daqui quando você falar.
- Sai daí.
- Tou esperando.
- Porra, sai da chuva David. Vais ficar doente. – Gritava cada vez mais alto.
- Afinal, você é medricas mesmo.

Eu pousei a carteira no chão da entrada do prédio e saí. Arrepiei-me assim que senti aquela água gelada no meu corpo.

- Sai debaixo da merda da chuva já. – Gritei-lhe com todas as minhas forças - Tu és louco?
- Sou louco sou, garota… – Gritou de braços aberto – Por você, sua medricas!

Virou-me costas e correu até ao seu carro. Eu fiquei ali, à espera que a chuva que caía e a raiva que sentia parassem. Fiquei ali alguns minutos. Não pararam. Voltei para a entrada do prédio, sentei-me no chão e, a tremer de frio, acendi um cigarro. Não conseguia perceber se aquelas gotas de água, que me escorriam pela cara abaixo, eram da chuva ou da tristeza que me invadia a alma.

Apaguei o cigarro e caminhei lentamente até ao meu carro. Vinte minutos depois estava em casa. Fui directa para a banheira. Tomei um banho e deitei-me. Ouvi o meu telemóvel pessoal dar sinal de que tinha uma chamada não atendida. Era do Dr. Gonçalves. “Merda, se calhar era ele”. Liguei-lhe de imediato.

- Sim, Doutor, peço desculpa mas fiquei sem bateria no telemóvel da empresa e só agora vi a sua chamada.
- Não há problema, Ana. Era só para a avisar que afinal, e devido a um imprevisto com a Salomé, amanhã tem nos acompanhar, a mim e ao João, ao Porto. Regressamos na sexta à noite. Algum problema?
- Não, claro que não.
- Óptimo. Então amanhã às nove na empresa.
- Ok. Até amanhã Doutor.
- Até amanhã, Ana. Boa noite.

Preparei, em minutos, uma mala com algumas roupas e as tralhas da higiene pessoal. Fui fazer um leite quente com mel para beber, tomei um comprimido para prevenir uma eventual gripe e deitei-me. Adormeci embalada pelos gritos do David. “Sou louco sou, garota. Por você, sua medricas!”