terça-feira, 19 de outubro de 2010

Capítulo 27 - Vem para cá


Estava apaixonada e feliz. Ter assumido o que sentia pelo David, dizer-lho olhos nos olhos, permitia-me virar uma página do livro da minha vida. Queria esquecer definitivamente as agruras do passado, lembrar tão e somente o que era bom de lembrar. Mas desejava, acima de tudo, descobrir novos trilhos, conhecer outras sensações, encontrar diferentes formas de exteriorizar sentimentos, embarcar nas mais diversas viagens da paixão.
A leveza provocada pelo estado de êxtase em que me encontrava permitiu-me saborear, de forma nunca antes feita, aquela viagem até à empresa. Pela primeira vez desde que tinha deixado Coimbra, uma segunda-feira era um dia afável. O trânsito não me enervou naquela manhã, as pessoas pareciam-me mais simpáticas, o frio arrepiante de Fevereiro não me aborreceu, o sol brilhou com mais intensidade, a paisagem tornou-se muito mais agradável. Até a chegada à empresa se tornou num momento mais ternurento. Perante o meu sorriso, o Sr. António, encostado ao balcão, não se coibiu de tentar adivinhar a razão para tamanha felicidade.

- Que alegria a sua, menina, aposto que são as artimanhas do amor.
- Aposta ganha, Sr. António. – Pisquei-lhe o olho, sorri e subi as escadas a correr sem prolongar o assunto.

Entrei no meu gabinete, sentei-me e abri, como habitual, as páginas dos vários jornais. Todas tinham uma notícia em comum: a presença da equipa do Benfica em Paris para o jogo da Liga dos Campeões. Lembrar-me do David tornou-se inevitável. Recordei, de sorriso na cara, o momento da noite anterior. Respirei fundo. Deixei que aquele beijo e as palavras que tinha proferido enchessem de cor o meu local de trabalho. Estava em paz comigo mesma. Olhei para a foto do David que ilustrava uma das notícias e fui invadida por uma enorme saudade.
Estava perdida em pensamentos quando fui interrompida pelas leves pancadas na porta do meu gabinete. Dei ordem para que quem estava do outro lado entrasse.

- Bom dia Ana.
- Bom dia Doutor. Precisa de alguma coisa?
- Já tenho os números e o balanço da participação da empresa na feira, quero que faça uma notícia e envie para a imprensa e que actualize o site, claro. – Disse-me enquanto pousava um monte de papéis na minha secretária.
- Com certeza. Estava só à espera dos documentos. – Sorri-lhe.
- Muito bem, então se precisar de alguma coisa estou no meu gabinete.
- Obrigada.

O Doutor Gonçalves olhou para mim de uma forma misteriosa e dirigiu-se à porta. Antes de sair, ainda se voltou para mim.

- Está enamorada Ana?

Fiquei momentaneamente sem reacção àquela pergunta. Era demasiado estranho para mim estar a falar da minha vida pessoal com o meu patrão.

- Porque pergunta Doutor?
- Ora, minha cara, eu também já tive esse brilho nos olhos e esse sorriso na cara. E para além disso tenho filhos da sua idade.

Sorri envergonhadamente. Estava ainda mais constrangida com aquela afirmação do Dr. Gonçalves. Ele saiu sem mais conversa e eu deixei-me escorregar pela cadeira. Se por um lado me encantava aquele lado humano do meu patrão, por outro intimidava-me a sua perspicácia.

Peguei nos documentos que ele me tinha deixado e comecei a preparar o comunicado. As palavras saíam-me com mais fluência, as ideias surgiam de forma rápida na minha cabeça, a clareza dos meus pensamentos rentabilizava o trabalho. Apesar de a escrita me estar a correr bem, fiz, como habitualmente, uma pausa a meio da manhã para o café com o João e a Matilde.

Quando entrei na sala de convívio, já os meus colegas estavam à minha espera. Entrei sorridente e reparei na atenção que o João prestava à televisão. Virei a cabeça e vi o David. Estava elegante no seu fato preto e gravata vermelha. Percebi de imediato que se tratavam de imagens da comitiva benfiquista, no aeroporto de Lisboa, a embarcar rumo a Paris. Mantive-me em silêncio, quer para permitir que o João, benfiquista ferrenho, se inteirasse do que o jornalista dizia, quer para aproveitar deliciar-me com cada traço do David.
Assim que a reportagem acabou, a Matilde tirou os cafés e saímos os três para o exterior, de chávena numa mão e cigarro na outra.
De regresso ao gabinete, tentei concentrar-me de novo naquela papelada imensa. Mas a concentração parecia, então, mais difícil de alcançar. Não conseguia abstrair-me da imagem do David e sentia, a cada minuto que passava, aumentar a saudade que sentia dele. Ainda assim, e por entre muito esforço, consegui acabar as tarefas que me tinham sido incutidas.

*********************

A segunda-feira passou lentamente. Fui-me apercebendo ao longo do dia a falta que o David me estava a fazer. Senti mais profundamente as marcas dessa carência quando, já de noite e no meu quarto, me encostei ao parapeito da minha janela e voltei a não encontrar um brilho especial no prédio ao fundo. A persiana corrida da janela do quarto do David lembrava-me da sua ausência, mas não me entristecia… pelo contrário. Ao olhá-lo, aquele rectângulo recordava-me dos momentos maravilhosos que tinha já dividido com o David e dava-me confiança num futuro risonho. A lua e as estrelas iluminavam o céu, àquela hora vestido de negro, e um generoso reflexo invadia o meu quarto e trazia até mim toda a força do Universo. Eu olhei o horizonte e por instantes pude vislumbrar o sorriso do David desenhado por entre aquele sem fim de constelações.

Despertei daquela hipnose, com o toque do meu telemóvel.

So I won't hesitate no more, no more; It cannot wait I'm sure
There's no need to complicate, our time is short; This is our fate, I'm yours

- Olá, caracolinhos, tudo bem? – Nem com a maior vontade do mundo seria capaz de disfarçar aquela voz de felicidade.
- Oi, lagartixa, tudo óptimo. E você como está?
- Bem. – Tinha tanta coisa para dizer ao David e não conseguia proferir uma única palavra. Era como se a emoção de ouvir a sua voz me roubasse o som dos sentimentos, apenas expressos pelo olhar.

Do outro lado da linha, o David mantinha-se igualmente calado. Pelo compasso da sua respiração podia imaginá-lo de sorriso tímido mas rasgado. Durante uns bons segundos, permanecemos assim. Até que eu resolvi interromper o momento.

- Estava aqui a olhar para a tua janela.
- É bonita, não é? – Perguntava-me em jeito de brincadeira.
- Hum… hoje nem por isso.– Sorria docemente sem conseguir desviar o olhar daquele sítio que durante algum tempo foi tão misterioso.
- Talvez quarta-feira melhore.
- Vai melhorar com certeza… – fiz uma breve pausa – … quando o Gu a abrir para preparar a tua chegada – Soltei uma gargalhada.
- Você é ruim, hein Kika? E aí esteve com esse babaca hoje?
- Não. A Si convidou-me para ir com ela lá jantar mas eu não quis. Acho que eles estavam mesmo a precisar deste momento a dois. Como tu não estás, eles têm a casa só para eles.
- Fez bem. Sabe que eu ‘tava pensando? – O entusiasmo na voz do David nem o deixou esperar pela minha resposta. – Convidar você para jantar lá em casa na quarta-feira… (pausa) … e expulsar o Gustavo. Sei lá, mandar ele para sua casa.
- Bolas! E eu é que sou ruim? – Riamo-nos descontroladamente. – Coitado do Gu.
- Isso é um não?
- Não. – Continuava a sorrir – Eu aceito o convite para jantar e até me parece fácil convencer o Gustavo a vir cá para casa.
- Concordo – O David suspirou profundamente. – E assim podemos ficar só nós dois.
- Sim, parece-me uma óptima ideia. Ficar só contigo. Sabes… – O meu coração palpitava a um ritmo cada vez mais intenso – estou cheia…
- De saudades minhas? – O David interrompeu-me – Eu também ‘tou morrendo de saudades tuas.

Sorrimos e o silêncio voltou a intrometer-se na nossa conversa. Enquanto escutava a respiração do David, baixei o olhar lentamente e contraí-me, com a plena sensação de que tinha o meu corpo envolto pelo seu abraço.

- Bolas! Tenho cá uma pontaria. – Soltei, quase em surdina.
- Por quê tá dizendo isso?
- Oh… com todas as oportunidades que tive para te dizer que te adoro tinha logo de escolher a véspera de uma viagem. Ia saber-me tão bem ter ficado a conversar contigo.
- Sabe o que ia me saber bem agora? – Eu já conhecia aquele tom de provocação.
- O quê David?
- Um beijo teu.
- Oh caracolinhos… – Sorri e recordei o toque quente dos seus lábios– E eu? O que eu faria por um beijo teu!
- O que é que você faria? – A provocação voltava a caracterizar as palavras do David.
- Tudo o que possas imaginar – Respondi-lhe no mesmo tom tentador.
- Vem para cá!

Aquele apelo do David deixou-me sem resposta durante uns bons segundos. Encostei a cabeça ao vidro gelado e deixei-me contagiar por uma interminável vontade de correr para os seus braços. Mas, ao olhar para a janela fechada do quarto do David, despertei novamente para a dura realidade dos cerca de dois mil quilómetros que nos separavam.

- David…tem juízo! Sabes perfeitamente que isso é impossível!
- Porquê?
- Como porquê? Olha, porque sim.
- Ah, assim fico mais esclarecido! – Respondeu-me com desdém.
- Oh, não me irrites.

Após um breve momento de silêncio, o David soltou uma gargalhada.

- Pôxa, Kika, tava brincando né?
- Ai estavas “brincando”? – Carreguei no sotaque brasileiro – E não sabes que não se brinca com assuntos sérios?

O David ria ainda com mais satisfação.

- Pô, tava só com saudade de ouvir você irritada.
- Ai estavas? – Não contive o sorriso – Parvinho!
- Tou até imaginando a sua cara – O David tentava controlar o sorriso – Agora falando sério, vou ter de desligar. ‘Tá ficando na minha hora.
- Ok. Vai lá de descansar que amanhã tens de estar em grande forma.
- Tenho mesmo. Você fica bem?
- Fico, claro. E tu?
- Vou ficar pensando em você!

A doçura com que o David proferiu aquelas palavras acalmou-me o coração, atordoado já pela eminente despedida.

- Eu também vou ficar a pensar em ti. Dorme bem. – As palavras saiam agora a custo, mais lentas e prolongadas.
- A gente se vê quarta-feira. – Notava na voz do David um leve toque de tristeza.
- Quarta não. Amanhã!
- Amanhã? Como assim? – O entusiasmo voltava a moldar o timbre do David.
- Na televisão. Não perco esse jogo por nada. – Respondi-lhe a sorrir.
- Claro. – A expressão do David estava de novo entristecida – Dorme bem, lagartixa. Beijo grande.
- Beijinho David. Até amanhã!

Desliguei a chamada e fui pousar o telemóvel em cima da mesinha de cabeceira. Vesti o pijama e deitei-me com a sensação de que tinha feito ou dito algo de errado. Um sentimento estranho que eu não conseguia explicar a mim própria. Fechei os olhos e tentei adormecer. Inevitavelmente, toda a conversa com o David inundava os meus pensamentos. De repente, percebi o que me inquietava. “Até amanhã? Eu disse até amanhã?”. Sorri. Ainda que a roçar o irrealizável, aquela ideia de “até amanhã” agradava-me.


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Um novo dia, a mesma rotina, um semelhante estado de espírito. Naquela terça-feira, as saudades do David consumiam-me com uma intensidade estonteante. As suas palavras não me saíam da cabeça. Fiz o caminho de casa até à empresa guiada por aquele apelo: “vem para cá”.

Já no meu gabinete, permanecia pasmada em frente ao computador. No ecrã, uma imagem do David, e no pensamento, as suas palavras, de novo. Fui atacada por um tremendo estado de ansiedade. Quanto mais me tentava convencer de quão mirabolante era a ideia de me meter num avião e viajar para Paris, mais essa loucura ganhava forma no meu pensamento. Fui encontrando, de forma intuitiva e quase insensata, várias maneiras de contornar todas as barreiras que me separavam do David, ao longo daqueles dois mil quilómetros. A cada minuto que passava ia delineando uma nova estratégia que viabilizasse aquela viagem. Os dentes roçavam de forma audível, os dedos não paravam de tiritar na secretária, os pés batiam descompassadamente. E de cada vez que fechava os olhos tentando fazer valer, na balança da indecisão, o peso da racionalidade, era brindada com o sorriso encantador do David e de novo aquela loucura ganhava forma.  

Levantei-me, movida por uma coragem irracional, e dirigi-me ao gabinete do Dr. Gonçalves. Dei três leves pancadas na porta e aguardei pela ordem para entrar. O meu coração batia descontroladamente e os nervos faziam tremer cada milímetro do meu corpo. Entrei, com a voz embargada, mas confiante na sensibilidade do meu patrão.

- Bom dia Doutor. Podemos conversar? – Perguntei um pouco receosa.
- Claro. Sente-se – respondia o Dr. Gonçalves, apontando para a cadeira em frente a si. – Então?
- Bem Doutor – Tentava controlar a secura na voz provocada por aquele estado de ânsia – Eu queria pedir-lhe um favor.

O Dr. Gonçalves levantou-se, abriu a janela por trás de si e acendeu um cigarro. Eu olhava, com cobiça, para aquele acto que me apetecia repetir. O meu patrão fazia sinal com a cabeça para continuar.

- Então, eu precisava de tirar dois dias de férias… (pausa) … se possível, claro.
- Ora, cara Ana, mas para isso não precisava de vir até aqui. Bastava comunicar os dias à Salomé e enviar-me um e-mail. Se tem dias de férias, acho bem que usufrua deles.
- Pois, mas é que… – inevitavelmente, as minhas mãos começaram a tremer e os meus dentes davam pequenas trincas no interior dos lábios. O Dr. Gonçalves olhava-me, aguardando que eu continuasse – … Sabe, Doutor, eu precisava de gozar estes dois dias de férias… – voltei a fazer nova pausa para controlar a voz trémula – hoje e amanhã.

O meu patrão olhava-me com surpresa. Uma nuvem de fumo voou da sua boca e o cigarro foi apagado. Eu sentia cada vez mais dificuldade em controlar o estado de nervos em que me encontrava.

- Pois bem, Ana, se precisa… – Ele estava de novo sentado na sua poltrona – Mas passa-se alguma que eu deva saber? Posso ajudar em alguma coisa?

A indecisão voltou a tomar conta de mim. O motivo a apresentar para faltar ao trabalho podia não parecia plausível aos olhos do meu patrão, mas a mentira era uma alternativa que estava fora dos meus planos.

- Eu preciso de me ausentar do país, Doutor. Tenho mesmo de fazer uma “viagem-relâmpago” a Paris. – Assim que terminei de falar, respirei fundo e deixei que uma sensação de alívio me percorresse o corpo.
- Paris? Não me diga que vai ver o Benfica? – Perguntava o Dr. Gonçalves divertido.
- Bem, na verdade…

O meu patrão nem me deixou terminar a frase. Soltou de imediato uma gargalhada audível em todo o edifício.

- A sério? – Uma expressão de surpresa inundava-lhe o rosto – Pensei que a Ana fosse sportinguista e que essa sua característica fosse irreversível.
- E é, doutor, mas…
- Ah, compreendo. Vai ver o jogo do Benfica, mas esse não é o objectivo principal da sua viagem, estou certo?

Aquela sinceridade e perspicácia do meu patrão assustavam-me.

- Está certíssimo, doutor. E eu peço desculpa pela ousadia, mas de facto esta viagem é muito importante.
- Quem é o felizardo? – O Dr. Gonçalves sorria e elevava o olhar numa expressão de adivinha. Depois fitou-me com os seus olhos arregalados – Não me diga que é você a namorada do pequeno Ruben?
- Não, claro que não – Respondi-lhe, num tom firme.
- Muito bem, Ana. Então, estamos conversados. Faça boa viagem e desfrute da beleza de Paris. A que horas tem voo?
- Ainda não marquei a viagem. Tinha de falar consigo primeiro, obviamente.
- Muito bem, então não se preocupe que eu faço a reserva. Afinal, se temos uma parceria com a TAP é bom que a usemos. Não quero esses fulanos a encherem os bolsos às minhas custas. Envie-me um e-mail com os seus dados pessoais.
- Eu agradeço, Doutor, mas eu não vou sozinha, vou com a minha amiga Raquel – fiz uma breve pausa e sorri – a namorada do Ruben.
- Não há problema, minha cara, eu depois acerto contas com o velho Amorim.

O Dr. Gonçalves sorria, divertido, enquanto me mandava tratar das informações com urgência. Eu, ainda atónica com a compreensão e generosidade do meu patrão, corri para o meu gabinete. Estava com um sorriso de orelha a orelha e transbordava felicidade por todos os poros quando peguei no telemóvel e liguei à Raquel.

- “Olá Kika, tudo bem?”
- Bonjour mademoiselle. Ça vá?
- “Bom dia também para ti. Tens a certeza que estás bem?” – A Raquel sorria enquanto falava.
- Estou óptima, mas preciso de ter uma conversa muito séria contigo. Estás em casa?
- “Sim, estou. Porquê?”
- Tens o computador ligado?
- “Sim Kika. Mas importas-te de me dizer o que se passa?”
- Então tens dois minutos para me mandar um e-mail com os teus dados pessoais e mais meia hora para fazer as malas. Vamos viajar.
- “Vamos?” – A Raquel mostrava um tom confuso na voz.
- Sim, vamos, Sra. Amorim. E leva agasalhos que parece que a noite em Paris é muito fria.
- “Paris? Tu não estás bem da cabeça, pois não Kika?”
- Já te disse que estou óptima. Agora manda-me lá isso que o meu patrão está à espera.
- “O teu patrão?” – A Raquel gritava de forma estridente – “O que é que o teu patrão tem a ver com o assunto?”
- Pensa Raquel, pensa. Eu não podia ir para Paris sem avisar o Dr. Gonçalves. E ele como é um querido ofereceu-se para nos reservar as viagens. A empresa tem um protocolo qualquer com a TAP que eu não percebi, mas também não quero. Já estás a mandar o e-mail?
- “Estás a falar a sério, Kika?” – A voz da Raquel era agora definida por um misto de entusiasmo e surpresa.
- Nunca falei tão a sério. Daqui a meia hora estou em tua casa.
- E como é que vamos para o aeroporto? E onde é que vamos dormir esta noite? E bilhetes para o jogo?
- Calma. Não te preocupes que eu trato de tudo. Até já. Beijinho.

Sem esperar para ouvir a resposta da Raquel, desliguei e sentei-me em frente ao computador à espera do seu e-mail.

******************************

O aeroporto estava num reboliço naquele início de tarde. Lá dentro, um amontoado de pessoas e de malas provocavam o caos na zona das partidas, com as filas para o chek-in a formarem um labirinto disforme e desordenado e as conversas multi-linguísticas a comporem uma harmonia tão estridente quanto admirável. Cá fora, o pára e arranca dos carros, táxis e autocarros e a correria louca de quem deles saía eram toldados por uma carga de tensão descomunal. E no meio daquela confusão, eu e a Raquel bebíamos, sentadas numa esplanada, um café enquanto fumávamos o último cigarro antes da chamada para o embarque. Dividíamos sorrisos e expressões de ansiedade, enquanto o nosso entusiasmo ia crescendo com o aproximar da hora do voo. Caminhámos, excitadas e confiantes, para a porta de embarque. Atravessávamos o último corredor, quando um pensamento veloz me assaltou. Olhei para a Raquel, em pânico.

- Bolas, ainda não liguei ao Paulo. – Desacelerei o passo, enquanto procurava freneticamente o telemóvel na carteira.
- Ai Kika, e se ele não atender? – A Raquel estava ainda mais apavorada que eu.
- Mato-o. – Respondi-lhe convicta.

A palavra saiu-me num tom ligeiramente acima do pretendido e todos os passageiros que estavam na fila olhavam para mim. Eu sorri, primeiro timidamente, pelo desconforto que aquela observação colectiva me provocada, depois abertamente, ao ouvir a voz do Paulo.

- Doutora Ana, estava mesmo à espera do seu telefonema. Já sei que tem novidades para me contar e escusa de tentar desmentir.
- Paulinho, falamos sobre isso depois. Agora tenho outro assunto urgente a tratar contigo.
- Hum, cheira-me a problema.
- Isso já depende de ti.
- De mim? Oh Aninhas…
- Shiu – ordenei-lhe enquanto dava mais um passo em direcção à porta de embarque, auxiliada pela Raquel que me segurava no telefone para que eu pudesse procurar a carteira dos documentos. – Preciso que me encontres um hotel em Paris barato, mas não brega, e reserves um quarto duplo.
- Dois – Ordenava a Raquel colocando o telemóvel junto ao seu ouvido. – É melhor prevenir – Continuou, olhando para mim e devolvendo o telemóvel à minha orelha.
- Estás com a Raquel? – Interrompia o Paulo, com uma pergunta incrédula.
- Sim. Pronto, dois quartos duplos num hotel porreirinho mas baratinho. E preciso também de dois bilhetes para o jogo de logo.
- Do Benfica? – As palavras do Paulo continuavam inundadas de surpresa e desconfiança.
- Não, do Cascalheiro de Baixo. Claro que é do Benfica, Paulo. Percebeste tudo? – Perguntava-lhe, enquanto dava mais um passo e ficava com apenas mais três pessoas à minha frente na fila.
- Hum, hum. E a seguir vais pedir-me o quê? Dois bilhetes para visitar a Torre Eiffel? – A voz do Paulo confirmava as minhas suspeitas de que ele não estava a acreditar numa única palavra que eu dizia.
- Olha por acaso era boa ideia, mas não sei se teremos tempo para isso. – Respondi-lhe a sorrir e cheguei finalmente junto da funcionária.
- Mais alguma coisa doutora? – O Paulo dava continuação ao seu desdém.

Entreguei o bilhete à funcionária e ela fixava o olhar na minha mão que segurava o cartão de cidadão. Eu segui-lhe o olhar e atrapalhada, tentei desculpar-me.

- Desculpe… o meu cartão de cidadão, certo?
- Hã? – Gritava o Paulo do outro lado da linha. – Para que é que eu quero isso?
- Obrigada por preferir viajar com a TAP. Boa tarde e boa viagem. – Dizia-me a funcionária com um sorriso simpático. Eu agradeci-lhe, dei um passo em frente e fiquei à espera da Raquel, antes de terminar a chamada.

- Ana, estás a ouvir-me? – Os gritos do Paulo ao telefone voltavam a chamar a atenção dos outros passageiros sobre mim. Sorri envergonhada e virei costas.
- Sim, estou aqui. Vais arranjar-me o que te pedi ou não?
- Tu e a Raquel… vocês estão… vocês vão… apanhar um avião para Paris?
- Sim, claro. Pensavas que eu estava a brincar?
- Chiça, Ana Moreira, tu és completamente passada dessa cabeça. – O Paulo falava com firmeza, como era seu apanágio.
- Pois sou, Paulinho, mas tu já devias saber disso. – Sorri-lhe e fiquei a ouvir as suas gargalhadas parisienses. – E então, posso fazer uma viagem tranquila com a certeza de que tenho uma camita para dormir e uma cadeira no Parque dos Príncipes para ver o meu caracolinhos?
- Oh Kika…
- Obrigada. Eu sabia que não me ias falhar. Agora vou ter de desligar, está bem?
- Com certeza. Façam boa viagem.
- Obrigada. Assim que chegar ligo-te. Olha… – não consegui acabar a frase.
- Já sei. – Interrompeu-me o Paulo – Não posso dizer nada aos rapazes.
- O Ruben já sabe. Portanto, não digas ao David.
- Fica descansada. Beijinhos.
- Obrigada. Beijinhos. Adoro-te.

Desliguei o telemóvel, coloquei-o na carteira e fiquei, com a Raquel, à espera da nossa vez de entrar na manga de acesso ao avião que nos levasse até Paris.

Já sentadas nos nossos lugares, e enquanto nos preparávamos para a descolagem, não evitámos um sorriso e uma troca de olhares cúmplices. Encontrámos, no rosto uma da outra, a certeza de que aquela loucura iria resultar na perfeição. Porque afinal, ela era movida por duas das coisas mais importantes na vida de alguém: a amizade e a paixão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Capítulo 26 (Parte II) - O segredo


O caminho até Sintra foi agradável. Não tocámos no assunto David. Chegámos a casa da Raquel, já passava da uma da tarde. Foi ela quem nos abriu a porta com um sorriso encantador.

- Meninas como estão?
- Bem – Respondemos em simultâneo.

Caminhámos em direcção ao jardim, onde já estavam todos à nossa espera. Assim que saímos do interior da casa, os meus olhos encontraram os do David. Senti o meu corpo estremecer. Disse-lhe um “olá” apenas com os lábios e esbocei-lhe um sorriso. Ele respondeu da mesma forma mas sem sorrir. O meu coração ficou pequenino naquele momento. Tive a certeza de que o David estava magoado comigo e temi, pela primeira vez, que a minha atitude nos últimos dias o tivessem afastado de mim. A Raquel salvou-me dos meus próprios pensamentos quando me puxou por um braço para me apresentar à família. Conheci os pais, os tios, a prima e a pequena Ritinha, filha da prima. A Si cumprimentou-os e dirigiu-se para a mesa onde estavam o Ruben, o Gustavo e o David. Eu segui-a, tentando um sorriso. Cumprimentei os três com dois beijos. Deixei o David para último e afastei-me de imediato. Para disfarçar o nervoso miudinho que se apoderava de mim, resolvi dar logo o presente à Raquel, que entretanto se tinha juntado a nós com a Ritinha.

- Uma caixa? Hum, o que será? – Perguntava-me ela sem desconfiar do que iria receber.
- Um electrodoméstico. – Respondi-lhe com ar de gozo.
- Oh, não sejas assim. Queres abrir comigo, Ritinha?

A pequena nem respondeu. Agarrou no embrulho e num ápice desfez o papel vermelho. A Raquel pegou na caixa, abriu-a e olhou para mim com um sorriso rasgado. Levou as mãos aos cantos interiores dos olhos para controlar as lágrimas.

- Oh Kika… tu és demais! Obrigada, amiga!
- E tu és uma chorona. Mostra lá ao pessoal.

A Raquel tirou de dentro da caixa o “Música de Praia” e mostrou-o a toda a gente. Depois apertou-o contra o peito e deu-me um beijo repenicado na bochecha. Aquele momento carinhoso foi quebrado apenas pelo Sr. Carlos, pai da Raquel, a chamar-nos para a mesa que estava colocada no jardim. Nós obedecemos e sentámo-nos de imediato. O David sentou-se à minha frente. Por vezes trocávamos olhares que nos sufocavam. Nem um nem outro comemos praticamente nada. Pouco falámos para além do essencial de quando se está a ter uma refeição conjunta. A Ritinha pediu à mãe para se sentar ao meu lado. Estava encantada com a minha fita do cabelo. Disse-me que também tinha uma da Hello Kitty mas que se tinha esquecido de a colocar. Sem pensar, tirei a minha e coloquei-lha na cabeça. Ela ficou tão feliz que só pelo brilho do seu olhar consegui perceber que tinha acabado de ganhar uma companheira para a tarde. E foi, de facto, o que aconteceu. Eu e a Ritinha tornámo-nos inseparáveis. Brincámos às escondidas, às raquetes, montámos a casa da Barbie quinhentas mil vezes e levámos o Kenny a passear. Embora aqueles já não fossem os bonecos da moda, a pequena gostava deles por terem pertencido à mãe e à prima. E isso ainda nos unia mais. “Pelo menos brincamos com algo que eu conheça”. Cada vez que eu deixava a Ritinha e me juntava aos adultos, o David fazia questão de se afastar, inventando qualquer outra coisa para fazer, a última delas brincar com a miúda. Pegou nela ao colo e dançaram no meio do jardim. Um momento maravilhoso de ser presenciado. Pensei que talvez aquela fosse uma boa oportunidade para trocarmos algumas palavras e juntei-me à brincadeira. Mas assim que me aproximei o David voltou a afastar-se, dizendo à pequena que ia “ao banheiro”. Ela sorriu e agarrou-se a mim. Quis pentear-me os cabelos e eu deixei. Mas aquela atitude do David estava a perturbar-me de tal forma que, num instinto, pedi à Ritinha que fosse penteando as bonecas enquanto eu ia só fazer um xixizinho. Levantei-me sem lhe dar tempo de reclamar e fui plantar-me à porta da casa de banho. Quando o David saiu eu estava encostada à parede. Ele olhou para mim e afastou-se da porta.

- Já pode usar.
- Não vim à casa de banho. Vim falar contigo.

Ele rodou ligeiramente a cabeça e evitou o meu olhar.

- David, tu estás a evitar-me.
- Não é isso que você tem feito comigo? – Respondeu-me secamente, enquanto humedecia os lábios.
- Sim, é. E tu vieste ter comigo. Eu estou a fazer o mesmo. Porque é que estás a ter essa atitude?
- Você ainda pergunta porquê? Pôxa Kika, eu já te falei. Eu tou amarradão em você. O meu coração parou quando eu vi você entrar há pouco. Eu não consigo estar perto de você e não te beijar.
- Ah, claro que consegues. Estamos aqui os dois e tu…

O David agarrou-me na cara com as duas mãos e beijou-me com um desejo intenso. Eu, mais uma vez, não resisti ao beijo. Os nossos corpos apertavam-se contra a parede.


- David, pára. Pode aparecer alguém

Ele colocou uma mão na parede, onde eu estava encostada, ligeiramente acima do meu ombro esquerdo.

- Tá fugindo de novo? – Dizia-me, enquanto me segurava o queixo com a outra mão. – Você tá sempre fugindo. Kika, eu gosto de você, de verdade.

Os nossos olhos fitavam-se agora com uma intensidade que quase cegava. As nossas bocas estavam de novo próximas e o meu coração batia descontroladamente.

- Obrigada. – Trinquei o interior do lábio com tanta força que podia sentir o sabor do sangue na minha boca. A expressão facial do David demonstrava surpresa.

- Obrigada? Eu te digo que gosto de você, que tou apaixonado por você e você me agradece? Ah fala sério! – Dizia-me o David, enquanto dava uma palmada na parede, ao mesmo tempo que tentava disfarçar um sorriso nervoso. Aquele momento de tensão foi interrompido pelo barulho de uma peça de louça a partir, seguido do choro da Ritinha que, com os seus tenros seis anos, tinha assistido à conversa.
O David afastou-se de mim pondo as mãos na cabeça e eu fui a correr pegar a menina ao colo.

- Calma, querida, não chores. Foi só um susto!
- Ele estava a bater-te? – Perguntava-me ela por entre soluços e perante o olhar desesperado do David.
- Não, querida – limpei-lhe as lágrimas – claro que não. O David estava só a matar um bichinho que estava na parede.
- Prometes? – Perguntava com um beicinho.
- Claro, princesa. Eu sou tua amiga, não te ia mentir.
- E a jarra? A tia Lala vai ralhar comigo.
- Oh, não vai nada. Nós dizemos-lhe que foi sem querer – fiz-lhe uma festa na bochecha. – Mas o que estavas aqui a fazer?
- Eu vinha só à tua procura. – A Ritinha fazia beicinho.
- Pronto, encontraste-me. Agora vamos lá para fora sim? – Ela abanou a cabeça positivamente – Mas primeiro dá-me um beijinho e outro ao David, pode ser? – Ela ia abanando que sim com a cabeça a todas as minhas perguntas – Ele também é teu amigo, não é? E ele é divertido e carinhoso contigo não é? E ele dança bem, não dança?

Sorri-lhe, dei-lhe um beijinho na cara e ela retribuiu-me. Pousei-a no chão, compus-lhe a bandolete na cabeça e pedi-lhe um sorriso. Ela deu-me o mais fantástico do mundo.

- Dás um beijinho ao David?

Ela olhou para ele em jeito de resposta. Ele baixou-se e agarrou-a, dando-lhe um longo beijo na testa.

- Tá tudo bem, agora?
- Sim.
- Você gosta de mim?
- Gosto… muito.
- Ainda bem que você não tem medo de falar que gosta de mim, que nem certas pessoas que eu conheço.

Aquele “recado” do David trespassou-me o coração e quase me cortou a respiração. A Ritinha olhava para ele sem perceber o significado daquela frase. Ele levantou-se, riu-se para mim e foi para o jardim, sem olhar sequer para trás. Eu dei a mão à Ritinha e caminhámos juntas. “Estúpida, estúpida, estúpida, estúpida, estúpida”, repetia para mim mesma a cada passada. Queria tanto voltar a trás e mudar o rumo daquela conversa. Estávamos quase a sair quando a pequena pára e me diz.

- Eu vi tu e ele a darem um beijinho.

Congelei. Baixei-me de imediato e olhei em volta para me certificar que mais ninguém tinha ouvido. Puxei-a para junto de mim.

- Ritinha, sabes o que é um segredo?
- Sim. É uma coisa que eu sei e que não posso contar a ninguém.
- Isso mesmo, linda menina. Então… o beijo que tu viste… não podes contar a ninguém, está bem? É um segredo meu, teu e do David, ok? – Perguntei-lhe, piscando-lhe o olho.
- Sim, está bem. Mas, Kika, tu gostas dele?

Fiquei embasbacada com aquela pergunta, mas não consegui mentir-lhe. Foi um impulso ao qual não resisti.

- Sim, gosto muito dele, muito, muito. Mas isso também é segredo. E este é só nosso, meu e teu. Não podes contar nem ao David, está bem?
- Sim.– Sorriu de felicidade. – Ainda bem.
- Ainda bem o quê, querida?
- Que gostas dele, porque eu acho que ele também gosta de ti.

Um sorriso invadiu-me o rosto. A sinceridade das crianças é de facto uma coisa extraordinária. Mas pode ser, por vezes, tão inconveniente. Chegámos ao jardim e eu procurei a Si com o olhar e encontrei-a sentada junto ao Ruben, ao Gustavo e ao David. Fomos sentar-nos junto aos brinquedos, na manta esticada por cima da relva. A Raquel chamou-nos pouco depois para cantarmos os parabéns. A Ritinha continuava junto a mim. Depois dos festejos, voltámos para a mesa com o resto do grupo. Sentei-me com a pequena ao colo, sem conseguir evitar cruzar o meu olhar com o do David. Dividi com a menina uma fatia de bolo e uma taça de champanhe para crianças, enquanto a Si e a Raquel bebiam uns beirões e os rapazes continuavam a beber água. Por entre as brincadeiras com a pequena e as trocas de olhares com o David, ía-me martirizando por não ter conseguido, uma vez mais, ser sincera com o David.

Pouco depois, a mãe da Rita aproximou-se e informou-a de que teriam de voltar para casa. A pequena deu-me um beijo, desceu do meu colo e agarrou na mão da mãe. Preparavam-se para se afastarem da mesa quando a Rita, voltou e se agarrou às minhas pernas.

- Não quero ir embora.
- Ritinha, tens mesmo de ir. Mas olha, podes ficar com a minha bandolete. Ofereço-ta.

Ela agarrou-se a mim, deu-me um longo beijo na bochecha e brindou-me com a sua ingenuidade.

- Olha, eu não me esqueço dos nossos segredos…

Até estremeci só de a ouvir dizer aquela palavra. A Rita levou o dedo ao nariz e fê-lo rodopiar, mostrando que estava em dúvida.

- … mas eu já não me lembro de qual segredo é que eu não posso contar a ninguém, nem ao David. O do beijo ou o outro que gostas muito, muito, muito dele?

Baixei a cabeça lentamente, coloquei a mão por cima dos meus olhos e tentei a todo o custo controlar a respiração. “Merda”, era a única palavra que saía. Levantei a cabeça a custo e encontrei a Ritinha ainda com o dedo no nariz, confusa.

- Nenhum, Ritinha, nenhum. Agora vai lá que a tua mãe está à tua espera.

Percebendo que tinha feito asneira, a pequena tapou a boca, olhou para mim, depois para o David, pediu desculpa baixinho e correu para junto da mãe. O Ruben soltou uma gargalhada que não conseguiu parar nem com a Raquel a bater-lhe no braço. O Gustavo e a Si estavam entrelaçados a abafarem o riso no corpo um do outro. O David olhou para mim com uma calma que me enfureceu ainda mais. Sem dizer uma única palavra, levantei-me e fui para a casa de banho. Quando regressei para junto do grupo, já a Si e os rapazes estavam prontos para irem embora.

- Então, estavam à minha espera? - Perguntei
- Sim, Kika, já está a ficar tarde e os rapazes têm uma viagem para fazer amanhã cedo – Respondeu-me a Si, continuando – Paris, ai que inveja.
- Paris? – Não me recordava daquela viagem.
- Sim, lagartixa, primeira-mão dos dezasseis-avos de final da Liga dos Campeões, sabes o que é isso? – O Ruben olhava com ur ar trocista e eu já esperava uma provocação – Oh, claro que não. Vocês este ano é só liga dos cêntimos.
- Ruben, não sejas parvinho.
- Tou só a brincar, lagartixa.
- E aí gente, vamo? – O David intrometeu-se e começou a caminhar em direcção à porta da casa.

Saímos os seis e ficámos reunidos a despedir-nos. O David acenou com a mão e foi para o carro dele.

- Então mano? – Perguntava-lhe o Ruben, surpreendido
- Vou entrando, manz, tou ficando com frio e não posso piorar.
- Ah pois não, mano, vai lá, vai.
- E aí Gustavo, não demora, não?
- Pô macarrão, cê tá stressado. Relaxa, cara. Me dá um minuto.

O David nem respondeu, entrou imediatamente no seu carro. Todos olhavam para mim, como se esperassem qualquer atitude da minha parte. Percebendo a minha fingida distracção, a Si deu-me uma valente cotovelada.

- Porra, Si, essa doeu. Estás maluca ou quê?

A Si continuava a olhar para mim, tentando transmitir-me uma mensagem facial. Eu sabia perfeitamente o apelo que ela me fazia. E a minha vontade era sem dúvida ir ter com o David e dizer-lhe de uma vez por todas o que sentia, mas as minhas pernas não me obedeciam. Aquela luta entre o meu coração e o meu corpo só foi interrompida por nova provocação do Ruben.

- Oh Si, ela é lagarta. E eles são todos assim, dentro e fora do campo – Ele sorria.
- Assim como Ruben? – Perguntei-lhe com algum desdém.
- Fraquinhos, fraquinhos…

Soltou-me uma gargalhada conjunta. Senti uma vontade enorme de ofender o Ruben, mas consegui controlar-me. Soprei um beijo com os lábios e entrei no carro da Si, que ela me tinha pedido para conduzir, uma vez que tinha consumido álcool. A Si e o Gustavo beijaram-se e cada um entrou no respectivo carro. A Raquel e o Ruben continuavam abraçados junto à entrada da casa à espera que arrancássemos. Eu liguei o carro e, quase sem controlar o movimento, olhei para o David. Ele sorriu-me timidamente. Fechei os olhos, respirei fundo, e com o carro a trabalhar, abri a porta e saí, num gesto irreflectido. Contornei o carro da Si pela traseira, dirigi-me ao carro do David e abri a sua porta. Ele olhou para mim, algo surpreso.

- Então, esqueceu alguma coisa?
- Sim, esqueci-me de duas coisas – Fiz uma pausa e debrucei-me sobre ele – Esqueci-me de te dizer que te adoro e de esqueci-me de fazer isto.

Entrelacei a minha mão esquerda nos caracóis do David e dei-lhe um beijo cheio de paixão. Ele correspondeu. Deixámo-nos que as nossas línguas se envolvessem num bailado frenético e beijámo-nos louca e demoradamente, até quase perdermos o fôlego. Selámos aquele momento apaixonado com um leve beijo. Ficámos alguns segundos a olhar-nos profundamente.

- Obrigado – Foi a única palavra que o David proferiu por entre um sorriso delicioso, que eu retribui.

Voltei a erguer-me e antes de fechar a porta, olhei por cima do tejadilho do carro para a Raquel e o Ruben, que sorriam.

- Ruben – gritei de sorriso rasgado.
- Sim?

Estiquei o braço e levantei o dedo do meio, fazendo um gesto obsceno.

- Fraquinho, mas muito sincero…

Soltei uma gargalhada. Todos me acompanharam menos o David. Consegui decifrar-lhe a dúvida pela expressão facial. Voltei a debruçar-me no carro.

- Amanhã ele explica-te. – Roubei-lhe atrevidamente um beijo suave nos lábios – Até amanhã, caracolinhos.
- Não. Até quarta. – Disse-me com uma certa tristeza.
- Ou isso. Vou ter saudades tuas – Sorri-lhe e voltei a beijá-lo levemente. Ele olhava para mim atónito. 

Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, fechei a porta e saí. Voltei para o carro da Si, de sorriso rasgado. Ela olhava para mim enternecida. Puxei o carro para trás e preparei-me para seguir. Ainda sorridente, fitei a Sílvia, dizendo-lhe apenas: “Sinto o meu coraçãozinho aos pulos”. Ela sorriu para mim e aumentou o volume do rádio. Aqueles sorrisos acompanharam-nos até casa.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Capítulo 26 (Parte I) - O amanhã vem depois


Acordei com uma forte claridade a bater-me no rosto. Sentia as minhas pernas entrelaçadas nas do David, que estava abraçado a mim. Estiquei a mão, tirei o telemóvel da carteira e vi as horas. Passavam poucos minutos das nove. Desprendi o meu corpo do do David e fui à casa de banho trocar de roupa, o mais silenciosamente possível. Peguei na carteira e nas botas e, já na sala, calcei-as. A Si e o Gustavo ainda dormiam. Bati a porta devagarinho e regressei a minha casa.

Entrei no quarto para pousar a mala e encontrei um caixote. Percebi pelo remetente que era o livro para dar de presente à Raquel. Encostei a caixa a um canto, vesti um fato de treino e fui deitar-me no sofá a ler o meu livro. Perdi-me, durante um bom par de horas, por entre as palavras de Pat Conroy. A minha leitura foi apenas interrompida pelo sinal de mensagem no meu telemóvel. Era o David.

“Não precisava sair escondida. Podia ter esperado eu acordar, podia ter ficado para almoçar com a gente, podia ter deixado eu conversar com você. Podia. Você pode tudo… pena não querer!”

Não consegui desprender o meu olhar daquela mensagem por alguns minutos. Encontrava naquelas palavras uma agressividade à qual não estava habituada. Sentia-me sem qualquer resposta para enviar ao David. Dei inúmeras voltas à cabeça e não encontrava uma só frase que pudesse escrever.

“Olá. Como estás, sentes-te melhor? Beijo” – Optei por não tocar, sequer, no assunto.

“Estou bem, obrigado” – A resposta do David foi rápida e seca, o que me irritou ainda mais.

Sentia-me magoada. Apesar de todas as minhas indecisões e fugas, dos meus medos e hesitações, tinha estado com ele a noite toda, a tentar remediar uma situação pela qual também assumia as minhas culpas, a tentar compensar em carinho o que lhe andava a negar em palavras. E nem uma sinal de agradecimento por parte dele.
Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Estava ainda mais consumida pela culpa. Penitenciava-me por ter dado o primeiro passo para o jantar, por ter beijado o David, por não ter conseguido resistir ao seu encanto, por me ter deixado seduzir e por estar perdidamente apaixonada sem coragem para o assumir. Condenava-me por não ter estabelecido, desde o primeiro minuto, os limites entre o que poderia ter sido apenas uma bonita amizade e o que me parecia agora uma intimidante paixão. Deixei de culpar o David por aquelas palavras ásperas e assumi sozinha a responsabilidade por aquele imbróglio de sentimentos e emoções no qual nos tinha colocado.

Meia desorientada, liguei o rádio da sala com o volume quase no máximo, abri as janelas da casa e comecei, desesperadamente, a limpar. Tirei cada peça do seu lugar, esfreguei cada móvel, centímetro por centímetro, aspirei, varri, lavei… embriagada pela raiva que me movia.
Algumas horas depois, fui colocando tudo no seu devido local. Preparava-me para repor os tapetes quando fui interrompida pelo silêncio imposto pela Sílvia que havia desligado o som e se encontrava encostada à porta da sala a olhar para mim, perplexa.

- O que é que se passa aqui? – Perguntou-me, enrugando as sobrancelhas num ar desconfiado.
- É a tua casa que está a levar a maior esfrega do século. – Respondi-lhe determinada, enquanto pegava num cigarro que fui fumar para a varanda.
- Eh lá, andas cheia de vontade, tu. Não me parece é que isto seja só mania das limpezas. – Pousou a carteira em cima da mesa da sala – Vou tirar um café. Queres?
- Sim, estava mesmo a apetecer-me.

Enquanto a Si foi à cozinha, eu sentei-me em cima de uns tapetes que estavam no chão da varanda. Aqueles dias no Porto e as limpezas domésticas tinham-me deixado de rastos. A Si voltou com o café, já com a dose certa de açúcar e mexido, pronto a beber.

- Estamos muito amáveis, dona Si. Vais pedir-me alguma coisa?
- Sim, por acaso vou. – Passou-me a chávena e sentou-se ao meu lado no chão.
- Então, pede lá, a ver se estás com sorte. – Sorri-lhe.
- Bem, eu queria pedir-te que… bem que… – A Si parecia atrapalhada com o que ia dizer.
- Mau, já não estou a gostar nada… Estás gaga? O que é que se passa? – O meu tom de voz era de quem adivinhava um pedido estranho.
- Kika… (pausa) tu tens de te entender com o David. Por favor!

Levantei-me num ápice e lancei o fumo do cigarro a toda a força.

- Olha lá, tu não estás boa da cabeça. Que raio de conversa é esta Si?
- Oh babe nós estivemos a falar lá em casa. Ele está tão apaixonado por ti Kika. O Gustavo também já me tinha dito que ele está mesmo a gostar de ti, que nunca o tinha visto assim apanhadinho. Como é que tu estás a deixar escapar esta oportunidade?
- Oportunidade? Para quê… para sofrer? Não muito obrigada. Já tive a minha dose.
- Mas sofrer porquê? – A Sílvia levantava o tom de voz e eu também.
- Tu vives em que mundo? Ele daqui a nada vai embora, entendes? E eu não quero mais relações à distância na minha vida, não quero meter-me num situação que eu sei, à partida, que me vai magoar.
- E como é que sabes o futuro? Ah, és bruxa agora.
- Não, sou atenta. E prefiro cortar o mal pela raiz agora, que é só uma paixão. Daqui a uns meses poderia ser amor e eu iria sofrer novamente. – Fiz uma pausa longa sem obter qualquer reacção da Sílvia – Eu sei que não o devia ter beijado, eu estava encantada demais. Mas eu pensei que não ia passar disso mesmo, de uns beijos, de uma atracção. Aconteceu. E, sim, já devia ter acabado com isto antes sequer de ter começado. Mas ainda vou a tempo de evitar uma tragédia.
- Não vais não. Acredita que não vais. Mas tu é que sabes, a vida é tua e o coração é teu. Mas olha, só para que saibas, ele pediu-me a minha opinião e eu dei-lha. Disse-lhe com todas as sílabas que tu estás a-pai-xo-na-da.

Mal terminou a frase, a Si saiu da varanda. Passados uns minutos, ouvi o esquentador disparar e percebi que ela estava no banho. Acendi outro cigarro e deixei-me ficar na varanda até ela terminar. Pouco depois entrei na casa de banho. Nem a água quente a escorrer-me pelo corpo conseguia retirar de cima de mim o azedume daquela conversa. A minha cabeça andava demasiado confusa com toda aquela situação. Mas eu mantinha-me convicta de que estava a tomar a decisão certa.
Pouco depois a Si saiu para trabalhar. Passou pelo sofá, onde eu estava deitada, a ver os episódios da última temporada da série “The O.C.”.

A Si regressou algumas horas depois e eu continuava no mesmo sítio, ainda a ver televisão.

- Como é que tu ainda consegues ver isso, Kika? Já é a milésima vez que o fazes.

Encolhi os ombros. Estava no quinto episódio e tinha já a cara inchada de tanto chorar.

- Tu sabes que eu gosto. – Controlava o tremelico dos lábios, mordendo-os.
- Vais ficar aí que nem uma madalena arrependida, estou a ver. – A Si beijou-me a testa e deixou-me um conselho antes de sair – Não te deites tarde. Amanhã temos a festa da Raquel.
- Eu sei. Mas ainda não tenho sono.
- Ok. Eu vou-me deitar que estou exausta. Boa noite, bichinha.

*************************

Ainda não eram dez e meia da manhã e já a Si se atirava para cima de mim para me acordar. Abri os olhos a custo, mas voltei a fechá-los de imediato perante a luminosidade que já invadia o meu quarto. A Si, ainda de pijama, enfiou-se debaixo dos cobertores e abraçou-me.

- Ei dorminhoca, vamos a levantar
- Shiu, fala baixo. Dói-me tanto a minha cabecinha.
- Deitaste-te tarde?
- Oito da manhã é tarde não é? – Perguntei-lhe tapando a cara com a almofada.
- O quê? Tu és mesmo parva – A Si tirou-me a almofada com força de cima da cara – Eu avisei-te Kika. Oh babe, tu precisas de descansar, senão qualquer dia cais para o lado.
- Sim mãezinha.
- Não é mãezinha, coisíssima nenhuma. E vá, levanta-te senão atrasamo-nos.
- Tenho mesmo de ir? Não me apetece nada.
- Tens sim, é o almoço de aniversário da Raquel. E a casa dos pais dela é em Sintra. Por isso toca a levantar, para comermos qualquer coisa, tomar banho e pormo-nos bonitas.
- Não sei se me apetece estar com o David.
- Apetece, claro que apetece. E apetece também falares com ele e assumires de uma vez por todas aquilo que sentes. Deixa-te de desculpas esfarrapadas e de medos parvos, e aproveita a vida. Hoje, não é ontem nem amanhã, é hoje, Kika. Esquece o passado, não penses no futuro, vive esta paixão agora.
- Já acabaste? – Perguntei-lhe tranquilamente.
- Não, ainda não. Sabes, tenho saudades daquela Kika completamente destravada que, quando estava apaixonada, só fazia loucuras sem pensar minimamente nas consequências. Quem é que me obrigou a fazer mais de quarenta quilómetros para ir a um bar de praia ver um concerto de Heavy Metal? – Eram perguntas retóricas, às quais a própria Si ia dando as respostas, sem me deixar abrir a boca sequer – Tu, e tu nem gostas desse tipo de música, mas estavas maluquinha pelo bonzão do vocalista. Quem subiu ao palco da Latada em Coimbra para cantar o “feitiço” com o André Sardet? Tu, e nem gostas da música, mas querias fazer uma declaração de amor. Quem veio de Roma de propósito dormir a Coimbra só porque o outro anormal fazia anos? Tu, porque o amavas…

A Si ía falando e as lágrimas começavam a querer descer pelas maçãs do meu rosto. Sorri, por vezes, ao recordar todas aquelas aventuras em que me tinha metido, sempre levada pelo coração.

- … Tu fizeste estas loucuras todas sem saber o que o futuro te iria trazer. E olha, não trouxe nada daquilo que tu imaginavas. Todos te fizeram sofrer. E tu pensaste nisso? Não. – A Si falava agora para mim num tom inquisitório, que se elevava lentamente sem se tornar agressivo – E o que é que tu me dizias, quando eu desempenhava um papel inverso? Aquele de te impedir de fazer aquelas maluqueiras todas? O que é que me respondias, kika, quando eu te dizia: “Pensa sempre no amanhã”?

A Si estava sentada na cama a olhar fixamente para mim.

- Vá lá, responde.

Respondi-lhe com um sorriso rasgado.

- Eu estou apaixonada hoje, por isso que se foda o amanhã… O amanhã vem depois e não no fim – cantei esta última frase, da música do André Sardet, que eu odiava. A Si soltou uma gargalhada.

- Então, minha babe… – A Si fez uma pausa, respirou fundo, sorriu-me e continuou – …que se lixe o amanhã. É hoje que estás apaixonada, não é? – A Si ficou à espera que lhe acenasse que sim com a cabeça, o que eu fiz – Então levanta-te, tapa-me essas olheiras com uns quilitos de base e vai viver essa paixão.

Levantei-me e vesti-me. Pus um body” e umas leggin’s pretas cardadas no interior, calcei os botins pretos rasos e vesti por cima do body uma túnica rosa-choque de lã. Escovei o cabelo e coloquei uma bandolete preta com um laço, logo atrás da franja. Peguei na carteira e no presente da Raquel e esperei pela Si junto à porta.

- Vamos? – Perguntou com uma voz doce e um sorriso.

Respondi-lhe apenas com a cabeça, mas sem retribuir o sorriso.

- Que foi, Kika?
- Não sei se hoje é um bom dia para ver o David. Ele ontem foi um bocado duro comigo.
- Claro que é. Ele estava triste, só isso. Anda, não penses mais no assunto. Quando lá chegarmos, logo se vê.

A Si puxou-me pela mão, eu coloquei-lhe o braço por cima dos ombros e descemos pelo elevador. Fomos abraçadas até ao carro. A minha amiga sorria, confiante. Eu também sorria, mas não transbordava a mesma confiança que ela, sobretudo por não conseguir esquecer as palavras azedas do David.