sábado, 9 de outubro de 2010

Capítulo 24 - Tu és louco?


Acordei estranha naquela manhã de segunda-feira. Sentia um aperto no peito e um sufoco que me cortava a respiração. Tinha passado mal a noite, por entre pesadelos e suores frios. Foi com uma má disposição terrível que fui trabalhar. O dia foi passado por entre reuniões, discussões e papeladas. No final dessa semana a empresa iria participar num feira industrial no Porto. O Dr. Gonçalves pediu-me que preparasse toda a estratégia de comunicação e marketing, que fizesse um comunicado para a imprensa e ainda redigisse o discurso para ele utilizar no colóquio integrado no certame. Embora gostasse de trabalhar sob pressão, a verdade é que estava a deixar que a vida pessoal afectasse o meu desempenho profissional. Decidi, por isso, recusar o convite da Si para ir jantar com o grupo a casa do David. Apresentei-lhe o cansaço e a sobrecarga de trabalho como justificações e ela aceitou, ainda que ligeiramente amuada. Deitei-me na cama, depois de um banho, e liguei ao Paulo. Precisava mesmo de falar com ele. Em duas horas, coloquei-o a par do que tinha acontecido nos últimos dias, da conversa com a minha mãe, dos meus sentimentos e das minhas dúvidas. Eu falava e ele ouvia.

A terça-feira foi inteiramente dedicada a escrever textos, pensar na disposição dos panfletos informativos, placards, revistas e dossiês de imprensa no stand da feira, actualizar a newsletter e o site e enviar o comunicado para as redacções. No final do dia estava ainda mais estafada, sobretudo mentalmente. Por entre as difíceis tentativas de concentração mental tinha de me debater com a fuga dos meus pensamentos para lugares como a cozinha do David, o meu quarto ou o centro de treinos do Seixal. Voltei a recusar um convite estar com o grupo. Nessa noite o encontro seria em casa do Ruben, onde a Si iria realizar a tão esperada sessão fotográfica com a Raquel. As minhas justificações mantiveram-se iguais. A reacção da Si às mesmas piorou ligeiramente. Despediu-se, no telefonema que tivemos, com um “andas muito estranha mas logo falamos melhor”.
Assim que pressenti a Si entrar em casa, fingi que dormia profundamente. Durante esses dois dias não enviei uma única mensagem ao David e não me encostei nem por um segundo ao parapeito da janela do meu quarto.

Na quarta-feira, porém, a fuga perdeu eficácia. E a culpa tinha um nome: Paulo Leitão. Passei a manhã toda a preparar o discurso do Dr. Gonçalves sobre “Liderança de mercado em 25 anos de história” e saí para almoçar já eram quase duas e meia da tarde. Comi uma sopa à pressa num pequeno restaurante a cinco minutos da empresa e regressei meia hora depois. Entrei, apressada, mas abrandei o ritmo logo na recepção, assim que o Sr. António me disse que tinha uma visita no gabinete. Entrei e deparei-me com o Paulo sentado na minha cadeira. A Salomé apareceu logo atrás a perguntar se precisávamos de alguma coisa. Eu conhecia bem as intenções dela: coscuvilhar. Disse-lhe que não e fechei a porta.

- Esta gaja irrita-me de uma maneira. Um dia destes passo-me da cabeça. – Resmunguei num tom abespinhado.
- Calma Aninhas. Andas muito stressada para o meu gosto.
- Olha lá Paulo, o que estás aqui a fazer?
- Fui almoçar com o Gonçalves para tratarmos de uns assuntos. E decidi vir fazer-te um convite. Jantas lá em casa logo? Já falei com a Si. Ela está confirmadíssima. Noite de Karaoke, parece-te bem?
- Chiça, tu e o karaoke. Não te cansas de cantar tão mal?
- Cala-te. Jantas ou não?
- Sim, janto. Mas aviso já que não sei a que horas chego. Estou atulhada em trabalho. Por isso é melhor fazeres petiscos.
- Já tinha pensado nisso. Que tal uns salgadinhos e uns patés?
- Parece-me bem. Agora pira-te que tenho mais que fazer.
- Bolas Ana, tu hoje estás impossível. Estás mesmo a precisar de me ouvir cantar – Soltou uma gargalhada audível em todo o edifício.
- Shiu. Ri-te baixo. Sim, é mesmo disso que preciso. Agora, deixa-me trabalhar oh Zé Cabra. – Sorri levemente, enquanto me levantava para lhe abrir a porta. – Adeus Paulo, até à próxima.
- Cara Ana, tenha um resto de uma boa tarde.

Sorrimos os dois disfarçadamente. Adorávamos aqueles momentos de formalismo fingindo. A tarde demorou a passar. Ainda assim, por momentos, pareceu-me demasiado curta para a imensidão de trabalho que tinha por fazer.
Saí da empresa já passava das sete e meia da tarde e tinha começado a chover. Dez minutos depois, estava no estacionamento em frente ao prédio onde o Paulo mora. A chuva caía agora com mais intensidade. Dei uma corrida até à porta, toquei à campainha e subi os dois lanços de escada apressadamente. A porta já estava entreaberta. Assim que entrei, vi o Paulo na cozinha, que fica ao fundo do corredor, e fui até lá. Vi o casaco da Sílvia pousado. Dei um beijo no Paulo.

- Desculpa o atraso. Queres que leve alguma coisa?
- Só faltam as tostas para o paté.
- Ok. SI JÁ AFINASTE A VOZ? – Gritei de forma a ser ouvida na sala, onde pensei estar só a Sílvia.
- “JÁ” – Respondeu-me, soltando uma gargalhada.

Peguei na taça com as tostas e segui até à sala. Caminhava sorridente, mas assim que entrei naquela divisão, senti uma expressão de irritação invadir-me o rosto. A Si estava acompanhada do Gustavo, da Raquel, do Ruben e do David.
- Boa noite – Disse quase em surdina.
Fui apanhada completamente de surpresa. Tinha imaginado um serão a três, só com o Paulo e a Si, como era habitual.

- Kika, até que enfim que te ponho os olhos em cima. – A Raquel veio logo abraçar-me. O Ruben seguiu-a.
- Então lagartixa, ainda amuada?
- Oh Ruben, não comeces.
- Desculpa, amiga, já vi que não estás nos teus dias. Já ouvi dizer que o Gonçalves te anda a matar com trabalho – Dizia, enquanto roubava uma tosta da taça – Queres que meta uma cunha para te diminuírem o horário? – Fez aquele sorriso de troça que lhe era característico.
- Não obrigada. Eu gosto muito de trabalhar.
- Kika, isso aí tem um nome – Disparava o Gustavo, agarrado ao comando da Playstation – Penso que é… (pausa) … doença. – Soltou uma gargalhada. – Agora passa as tostas que o paté eu já tenho.

Fui até ao sofá, dei um beijo na testa da Si e passei as tostas ao Gustavo. Olhei para o David e sorri-lhe. Ele encostou-se a um canto da poltrona e fez-me sinal para me sentar junto dele. Eu aproximei-me, dei-lhe dois beijos e sentei-me.

- Tava difícil falar com você esta semana. – Disse-me quase em surdina.
- Tenho tido muito trabalho, desculpa.
- Ué, nem um minuto para enviar uma mensagem?

Fui interrompida pelo toque do telemóvel da empresa. Levantei-me e fui apressadamente buscar a carteira à cozinha. Procurei atrapalhadamente o aparelho, mas a chamada parou. Ouvi, entretanto, o toque característico que o telemóvel faz quando se desliga por falta de bateria. Voltei à sala com a carteira.

- Quem era? – Perguntou a Si.
- Não sei. A porcaria do telemóvel desligou-se e já não deu para ver.
- Paciência. Acabou-se o trabalho. Vamos mas é cantar que eu estou inspirado hoje. – Disse o Paulo enquanto preparava o programa de Karaoke da consola.

Aquele programa funcionava como uma espécie de concurso. O Paulo escolheu a função de cantar a pares, em que cada um teria de cantar uma parte da música, alternadamente. A identificação era feita através da cor das letras que correspondia à cor de uma fita colada no microfone. O Gustavo avisou que não alinhava na brincadeira porque “preferia ficar comendo tosta com paté” e com essa desistência tínhamos o número perfeito para formar três pares. A Raquel e o Ruben formaram um par, eu e a Si outro, o David e o Paulo outro. Começámos o concurso. O Ruben e a Raquel eram os mais divertidos. Escolhiam de forma alternada entre os estilos romântico e pimba. Eu e a Si não parávamos de discutir sobre a língua em que havíamos de cantar. O Paulo e o David discutiam sobre os autores das músicas: o Paulo só queria cantar músicas de grandes vultos portugueses; o David teimava em cantar músicas de grandes nomes da música brasileira. Estava a confusão instalada naquela sala. O único casal oficial em concurso, a Raquel e o Ruben, estava a vencer e eu e o David começávamos a passar-nos. Eu gritava com a Si, o David reclamava com o Paulo. Eles riam-se e nós ficávamos cada vez mais possessos com as nossas acusações de que estaríamos a perder pontos por culpa deles. Sem que nada o fizesse prever, o David exaltou-se com o Paulo.

- Cara, cê tem a certeza que cê conhece as regras desse negócio?
- Não David, ele nem sabe o que significa afinação – Intrometi-me. – Ele e esta que aqui está ao lado.
- Ei, eu não tenho nada a ver com isso.
- Tens sim, Sílvia. Não consegues sequer acompanhar o ritmo da música. Tu costumas ouvir música, por acaso?
- É, deve ouvir a mesma música que esse daí – Dizia o David apontando para o Paulo.

A Raquel e o Ruben tinham aproveitado para namorarem, ainda embalados pela última música romântica que tinham cantado, e o Gustavo tinha parado de comer tostas para se agarrar à barriga de tanto rir. A Si e o Paulo continuavam com sorrisos irritantemente cúmplices.

- Olha, estão para aí a criticar, porque é que não cantam os dois? Já que são assim tão perfeitos. – Dizia a Si num tom trocista.
- Porra, têm cá um mau perder. Realmente vocês foram feitos um para o outro. Ficam lindamente bem, juntinhos. – Acrescentou o Paulo num tom provocador.

O silêncio instalou-se repentinamente naquela sala.

- Vou buscar qualquer coisa para beber. – Disse o Paulo, com um sorriso envergonhado.

Ele saiu da sala e eu, num ápice, seguiu-o. Entrei na cozinha atrás dele, irritada.

- Que merda de boca foi aquela, Paulo Leitão?
- A verdade.
- Opa mas que verdade? Tu às vezes passas-te.
- Sim, às vezes. Sobretudo quando vejo uma amiga armada em parva.
- Desculpa?
- Oh Kika, tu andas assim irritada porque não paras de fugir.
- Fugir? Oh estúpido, fugir de quê? De quem?
- De mim.

A voz do David congelou-me o sangue. Estava de costas e não me tinha apercebido da sua presença na cozinha. Não conseguia encará-lo. O Paulo saiu, silenciosamente. Senti o David encostar a porta. Respirei fundo e virei-me de frente para ele.

- Eu não estou a fugir de nada. – Disse-lhe decidida.
- Como não? Desde domingo que você se esconde. Não liga, não manda mensagem, não aparece.
- Já te disse que ando cheia de trabalho.
- Ah. Todos nós trabalhamos Kika. E você chegou nem ligou pra mim. Sentou, pediu desculpa e se afastou.
- Fui atender o telemóvel David.
- Pôxa, mas nem um sorriso, nem uma piada, nem uma conversa.

Caminhei em direcção á janela da cozinha e encostei-me. Queria estar afastada o mais possível do David.

- Desculpa.
- Pára de pedir desculpa. Pára de fingir que nada tá acontecendo entre nós.
- Mas não está.
- Cê acha que não? – O David elevava o tom de voz – Então e os beijos, os carinhos, a cumplicidade? Será que eu tou ficando maluco?

Eu estava de novo de costas para o David. Tinha o olhar perdido na chuva que caía cada vez mais agressivamente.

- Olha para mim Kika. – Pediu-me num tom agressivo. Eu acedi. – Me responde.
- Que queres que te diga?
- Sou eu que tou entendendo tudo errado ou a gente está vivendo uma paixão, mas só um de nós está assumindo isso? Ou será que eu estou vivendo essa paixão sozinho? Fala alguma coisa por favor.

A cada palavra do David, eu tremia um pouquinho mais. Sentia um turbilhão de pensamentos a rodopiarem no meu cérebro, prontos a entrarem em erupção a qualquer momento. Mas de cada vez que eu tentava pronunciar uma palavra, um bloqueio automaticamente controlado pelo meu cérebro impedia-me de falar. O meu coração batia cada vez mais acelerado. O David avançou em direcção a mim, agarrou-me nos braços e suplicou-me.

- Fala comigo. Me diz que não tou maluco, me diz que você está sentindo o mesmo que eu sinto, que você tá querendo o mesmo que eu quero. Fala, Kika.
- Pára David – Gritei-lhe. – Pára, por favor.

O David afastou-se de mim. Conseguia perceber pelas suas veias salientes a raiva que o consumia.

- Eu pensava que você ia sempre atrás, mesmo que quebrasse a cara. – Ele falava agora calma e secamente, remetendo-me para o momento do primeiro beijo, na cozinha da sua casa – Afinal, você não passa de uma medricas.

Assim que terminou de falar, saiu da cozinha disparado. Entrou na sala, pegou nas suas coisas, despediu-se bruscamente e saiu. Eu fiquei imóvel por uns segundos. Mas, desperta pelo bater violento da chuva contra a janela, dei uma corrida até à sala, peguei na minha carteira, despedi-me perante o olhar estupefacto dos nossos amigos e saí. Desci as escadas a toda a velocidade atrás do David. Cheguei à porta do prédio e vi-o correr, debaixo de uma forte chuvada, em direcção ao seu carro.

- David, espera. – Gritei-lhe.

Ele parou, mesmo com a chuva a bater-lhe violentamente na cara.

- Diz.
- Eu não sou medricas… (pausa) … e sai da chuva por favor!
- Ai não? Então vem aqui e me fala que eu não tou maluco.
- David sai daí se faz favor. Vais ficar doente.
- Só saio daqui quando você falar.
- Sai daí.
- Tou esperando.
- Porra, sai da chuva David. Vais ficar doente. – Gritava cada vez mais alto.
- Afinal, você é medricas mesmo.

Eu pousei a carteira no chão da entrada do prédio e saí. Arrepiei-me assim que senti aquela água gelada no meu corpo.

- Sai debaixo da merda da chuva já. – Gritei-lhe com todas as minhas forças - Tu és louco?
- Sou louco sou, garota… – Gritou de braços aberto – Por você, sua medricas!

Virou-me costas e correu até ao seu carro. Eu fiquei ali, à espera que a chuva que caía e a raiva que sentia parassem. Fiquei ali alguns minutos. Não pararam. Voltei para a entrada do prédio, sentei-me no chão e, a tremer de frio, acendi um cigarro. Não conseguia perceber se aquelas gotas de água, que me escorriam pela cara abaixo, eram da chuva ou da tristeza que me invadia a alma.

Apaguei o cigarro e caminhei lentamente até ao meu carro. Vinte minutos depois estava em casa. Fui directa para a banheira. Tomei um banho e deitei-me. Ouvi o meu telemóvel pessoal dar sinal de que tinha uma chamada não atendida. Era do Dr. Gonçalves. “Merda, se calhar era ele”. Liguei-lhe de imediato.

- Sim, Doutor, peço desculpa mas fiquei sem bateria no telemóvel da empresa e só agora vi a sua chamada.
- Não há problema, Ana. Era só para a avisar que afinal, e devido a um imprevisto com a Salomé, amanhã tem nos acompanhar, a mim e ao João, ao Porto. Regressamos na sexta à noite. Algum problema?
- Não, claro que não.
- Óptimo. Então amanhã às nove na empresa.
- Ok. Até amanhã Doutor.
- Até amanhã, Ana. Boa noite.

Preparei, em minutos, uma mala com algumas roupas e as tralhas da higiene pessoal. Fui fazer um leite quente com mel para beber, tomei um comprimido para prevenir uma eventual gripe e deitei-me. Adormeci embalada pelos gritos do David. “Sou louco sou, garota. Por você, sua medricas!”

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Capítulo 23 - Em fase de negação


 

Entrei sorrateiramente no quarto para dar um beijinho de despedida à minha irmã. Ela dormia tão profundamente que eu achei melhor não a acordar, apesar de me custar ir embora sem me despedir. Deixei-lhe um bilhete em cima da mesinha de cabeceira, dei-lhe um beijo leve e saí. Fui ao outro quarto e despedi-me do meu pai. Peguei na mala e fui ter ao carro, onde a minha mãe já esperava por mim. Seguimos viagem até à estação Coimbra-B sem trocar qualquer palavra e chegámos lá cinco minutos depois. A minha mãe acompanhou-me até à bilheteira.

- Boa tarde! Um bilhete para o Alfa, com destino Lisboa, por favor.
- Boa tarde, menina. Com certeza. Mas aviso-a já que os comboios estão todos com, pelos menos, duas horas de atraso. – Disse-me o senhor da bilheteira.
- Então porquê?
- Houve um grande acidente numa passagem de nível lá para o norte. A informação das autoridades é que precisam de no mínimo duas horas para reabrir as linhas.
- Ok, muito obrigada. Eu aguardo.

Peguei no bilhete e saí. Encostei a pequena mala a um banco no exterior da estação e sentei-me. A minha mãe ficou de pé a olhar para mim com um ar surpreendido.

- Estás a pensar ficar aqui duas horas à espera?
- Claro, mãe. Não posso sair daqui, imagina que até despacham a coisa mais cedo.
- Oh, estas coisas infelizmente só têm tendência par atrasar nunca para adiantar.
- Sim, talvez.
- Olha, porque é que não vamos beber um café ali ao Choupal?
- Ok, vamos lá. Por acaso tenho saudades de lá ir.

Saímos da estação, voltámos a entrar dentro do carro e em dois minutos chegámos à Mata do Choupal, que fica pertinho da estação. Estacionámos o carro na entrada da mata e fizemos um pequeno percurso a pé até ao café. Sentámo-nos na mesa da esplanada mais afastada do parque de merendas, que estava cheio àquela hora. Pedimos um café, um carioca e um cinzeiro.

- Que saudades das tardes de estudo que aqui fazia com a Su e Mari. – Disse enquanto olhava à minha volta – Sobretudo nas épocas dos exames de Junho e de Setembro.
- O tempo passa Kika. Parece que ainda ontem entraste para a faculdade e olha só o que aconteceu desde então.
- Tens razão mãe. Então, já estou em Almada há mais de meio ano, vê lá, ainda me lembro dos primeiros dias lá em casa e no trabalho. E que tormento que foram esses dias.
- O tempo ajuda… (pausa) … e agora até já tens amigos famosos e tudo.
- Tinha de vir a piadinha, não era Dona Maria?
- Estou só a brincar. Olha lá, a Si vai-te buscar à estação quando chegares?
- Não, é o Sr. José, já tinha falado com ele. E a Si vai jantar com o Gustavo.
- Namorado novo?
- Acho que ainda não, mas não deve faltar muito – Sorri.
- E quem é esse Gustavo? Já de manhã falaste nele como se eu o conhecesse.
- Desculpa. É um amigo de infância do David, que vive com ele em Portugal. Também é jogador de futebol.
- Hum, estou a ver porque é que vocês saem todos juntos. Seis pessoas, três casais.
- Oh, não me irrites.
- Então, o Ruben e a namorada, a Si e esse Gustavo… parece-me lógico que tu e o David…
- Oh mãe, vá lá, outra vez essa conversa não!
- Mas tu gostas dele, não gostas Kika?
- Não – respondi rapidamente tentando mostrar sinceridade.
- Não me mintas. Se não gostasses não tinhas levado tão a peito o que eu disse ontem. E já tinhas falado nele, coisa que ainda não fizeste, a não ser para referires o acidente e o convívio com os meninos.
- Não te estou a perceber. – Olhei-a intrigada, tentando acompanhar o seu raciocínio, enquanto acendia um cigarro.
- Quando conheceste o Paulo, dois dias depois já falavas nele como se o conhecesses há meses. Duas ou três semanas depois já ele estava em Coimbra contigo e com a Si. Do David nunca me falaste.
- Oh mãe é só um amigo.
- Pára Kika, eu sou tua mãe.
- Que queres que te diga?
- A verdade!

Olhei a minha mãe nos olhos. Conseguia perceber nela uma necessidade extrema de descobrir até que ponto a afirmação do dia anterior tinha sido grave. Resolvi abrir o jogo.

- Ok. A verdade. Depois do convívio com os miúdos, nós fomos jantar só os dois, houve logo uma empatia grande, apenas quebrada por um telefonema de um certo sacana!
- O quê? – A minha mãe arregalava os olhos. – Esse gajo ainda leva…
- Shiu. Não me interrompas. Depois eu conheci o Ruben e a Raquel, que é a namorada dele. Ah, e também o Gustavo. Apresentei-lhes a Si e começámos a sair todos. Jantamos várias vezes ou simplesmente nos encontramos para um café. Por norma em casa de um de nós. E é isso – Dei a última passa e apaguei o cigarro.
- Mas isso já eu tinha percebido. Só ainda não percebi a razão desse brilho nos teus olhos.
- Oh, o sorriso dele, a boa disposição, o olhar… (pausa) … os beijos. – De repente percebi que estava com um sorriso rasgado sob o olhar atento da minha mãe – Ai mãe nem acredito que te estou a dizer isto.
- Queres saber a minha opinião?
- Não, obrigada.
- Mas eu dou-ta na mesma.
- Se é para dizeres que é um desgosto ou uma merda do género vale mais estares caladinha, por favor. Até porque se trata só de um encantamento normal de quem já não estava habituada a sentir as maravilhas provocadas por um beijo e não vai passar disso, porque eu não quero, percebes? Eu não quero. – Estava um pouco exaltada.
- Já acabaste? – Perguntou-me calmamente.
- Sim.
- Ok. Tu estás apaixonada e estás em negação. O que já não é novidade para mim…
- Oh mãe…
- Ei! – A minha mãe apontou-me o dedo quase ao nariz – Agora falo eu. Mas não é isso que me preocupa, aliás fico muito feliz que estejas a abrir, de novo, as portas do teu coração. O que eu quero é que o faças com calma e sensatez. Penso que não é o caso. Já ponderaste bem sobre quem é o David Luiz? Sobre o estatuto dele e sobre a invasão que fazem à sua privacidade? Já pensaste no facto de ele estar prestes a sair do Benfica? O que eu acho que é um dado adquirido, por muito que ele diga publicamente que é o clube que ele ama. Estarás pronta para te meteres numa relação tão complicada? Pensa bem no que te estás a meter Kika.

Eu mantinha-me calada, a olhar atentamente para a minha mãe. Aquelas perguntas não eram novas para mim. Eram, aliás, as mesmas que eu fazia a mim própria nas últimas 48 horas. Acendi novo cigarro e fiquei a ouvir a minha mãe.

- Ouve filha, eu sei que ontem não devia ter usado aquela palavra. Desgosto não era bem o que queria dizer. Só que de facto assusta-me que estejas apaixonada por esse rapaz. Mas também sei que assim que assumires essa paixão, a minha opinião não vai valer de nada, porque tu és teimosa e independente demais para deixares que a opinião dos outros sejam mais importantes que a tua. Sempre foste assim e hás-de continuar a ser.
- Mas eu não estou apaixonada pelo David.
- Estás sim. Só não queres admitir.
- Não quero nem vou fazê-lo. Porque as minhas respostas às tuas perguntas são todas positivas. Sim já ponderei, sim já pensei, sim já sei… e é precisamente por isso que não vou assumir absolutamente nada. Porque não estou preparada para relação de espécie nenhuma.
- Kika, nem tu acreditas no que estás para aí a dizer.
- Ok. Acabou a conversa. Vamos embora?

Olhei para o relógio. Quase sem darmos por isso já tinham passado duas horas desde que nos tínhamos sentado ali. Apaguei o cigarro e pedi a conta. A minha mãe ainda disparou.

- Vamos. Olha lá, quando é que deixas a porcaria do tabaco?
- No mesmo dia em que me apaixonar. – Sorri.
- No mesmo dia em que assumires, queres tu dizer.
- Que seja.

Pagámos e voltámos para a estação. Esperámos mais quinze minutos pelo comboio. A minha mãe esteve sempre comigo. O comboio parou na linha 3 e eu preparei-me para entrar. Dei um beijo à minha mãe.

- Xau mãezinha. Obrigada pela conversa.
- Xau filha. Obrigada eu por me ouvires, depois da estupidez que te disse ontem.
- Oh, esquece isso.
- Vens cá no meu aniversário?
- Talvez, mas não no dia mesmo, porque é à semana. Venho no fim-de-semana seguinte, pode ser?
- Ok. Traz a Si e o Paulito.
- E o David?? – Fiz-lhe uma careta.
- Não abuses, Kika, não abuses – Respondeu-me a minha mãe tentando uma cara zangada.

Demos um longo e apertado abraço. Eu entrei no comboio e soltei um profundo suspiro. Olhei pela janela, acenei-lhe e vi-a a limpar as lágrimas. Eram sempre assim as nossas despedidas: chorosas. O comboio arrancou e eu liguei ao Sr. José a informá-lo de que estava a sair de Coimbra. Encostei-me no banco e pensei no quão a vida é injusta. A infelicidade de alguém, supondo que o acidente na linha-férrea teria resultado em morte, tinha permitido que eu viesse de Coimbra em paz com a minha mãe, depois daquela conversa sincera.

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Cheguei a Lisboa pouco mais de duas horas depois. O Sr. José lá estava, pontual e amável como sempre, à minha espera. Acenou-me assim que me viu sair da carruagem. Dirigi-me até ele e seguimos viagem para minha casa. Inevitavelmente, o tema da conversa durante a viagem foi o derby e a “fantástica actuação do David Luiz”, dizia-me o Sr. José sorridente.

- Acho que este ano o Benfica não o segura, menina.
- Hum, hum.
- Ele está em grande forma. Recuperou bem do mau início de época que fez.
- Hum, hum.
- Então menina, não diz nada?
- Não. Já tive a minha dose de David Luiz este fim-de-semana.
- Então, mas o fim-de-semana ainda não acabou menina.
- Nem me diga isso Sr. José, acho que já levei dose suficiente.

Passado algum tempo chegámos à entrada do prédio onde vivo. Despedimo-nos e eu subi. Assim que entrei em casa, pousei as trouxas no quarto e fui a correr para a banheira. Precisava mesmo de um banho relaxante, para poder colocar ordem no meu cérebro e no meu coração.

Estive cerca de meia hora no banho. Tentava chegar a um consenso e não conseguia. Estava a ficar desgastada psicologicamente por causa das minhas indecisões. Era praticamente inegável para mim que estava apaixonada pelo David. Só de pronunciar o nome dele, o meu coração palpitava velozmente, os meus lábios eram invadidos por um sorriso e o meu corpo acometido por um desejo louco de o beijar. Mas depois sofria um qualquer despertar de consciência que me relembrava o quão perigoso podia ser assumir aquela paixão.
Saí do banho com uma decisão tomada. “Ok Kika vais negar qualquer sentimento pelo David até ao limite e se necessário for, afastas-te por uns tempos, por muito doloroso que seja”. Entrei no quarto, acendi a luz, baixei a persiana sem sequer olhar para a janela do David e vesti um fato-de-treino quentinho. Fiz uns cereais, bebi um café, fumei um cigarro e lavei os dentes. Sentei-me no sofá, com o portátil em cima das pernas a tentar actualizar-me das notícias do dia. Algo que tinha evitado até então por saber que aquele miserável derby seria o tema central de qualquer jornal. Abri a página do Record e arrependi-me no mesmo segundo. A notícia em destaque era de novo a presença de “olheiros” enviados por grandes colossos do futebol europeu no jogo da noite anterior para apreciar a exibição do David Luiz. E mais uma vez o título da notícia era a garantia de que ele sairia no final da época. “Estás a ver Kika, ele vai embora não tarda nada. Por isso cada vez que te apetecer beijá-lo, abres a porcaria desta notícia e metes juízo nessa cabeça desmiolada”.

Fui interrompida nos meus pensamentos pelo toque da campainha. Supus que a Si se tivesse esquecido da chave, pousei o computador no sofá e fui a correr abrir a porta. Mas afinal era uma visita… e que visita! O David tinha o seu melhor sorriso. No corpo umas calças de ganga e uma sweat azul escura com carapuço. As mãos estavam escondidas atrás das costas.

- Oi lagartixa, tudo bom?
- Olá… – Engoli em seco. Não estava nada à espera de ver o David naquela noite. – Tudo e contigo, caracolinhos?
- Tudo legal.
- Entra.
- Primeiro preciso de te dar um presentinho.
- Hum… estou curiosa.

O David puxou as mãos de trás das costas e ofereceu-me duas rosas brancas. Fiquei completamente encantada com aquele gesto. Peguei nas rosas e cheirei-as. O David entrou e seguimos para cozinha. Tirei um copo alto do armário e, depois de o encher de água, coloquei lá as rosas.

- A que se deve este presentinho?
- É um pedido de desculpa. Uma rosa por cada golo…

Soltámos uma gargalhada conjunta.

- Opa, és mesmo maluquinho. Nem sei o que me apetece mais: se dar-te com as rosas na cabeça ou se agradecer-te com um beijo.
- Eu prefiro o beijo – Respondeu-me esticando a cara para junto da minha.

Eu agarrei-lhe na face com uma das mãos, rodei-a ligeiramente para o lado esquerdo e beijei-lhe a bochecha direita.

- Não era o beijo que eu esperava, lagartixa. – Disse-me fazendo beicinho.
- Não abuses da sorte Caracolinhos. E por favor, hoje não me chames lagartixa. Ainda estou muito sentida contigo. – Saí da cozinha e comecei a caminhar para a sala – Aliás, eu jurei que te matava se tu cumprisses a promessa, por isso não sei se foi boa ideia vires cá a casa.
- Poxa, agora fiquei com medo. – O David fingia uma cara amedrontada.

Sorrimos. Sentámo-nos no sofá, onde estava o meu computador aberto com a notícia sobre o David escancarada no visor.

- Você ‘tava lendo essa bobagem?
- Sim. – Senti-me constrangida. Peguei no computador e fui pousá-lo em cima da mesa – Mas não quero falar sobre isso. Não me interessa minimamente se vais sair do Benfica ou não.

Falei de forma ligeiramente ríspida. O David desmanchou o sorriso que tinha na cara e olhou para mim de forma séria.

- Eu também preferia não falar sobre as notícias a meu respeito.
- Óptimo. Então estamos em sintonia.
- Tudo o que houver para saber, você saberá por mim.
- Ok.

Por momentos, o ambiente na minha sala ficou constrangedor. Mas o David era perito em quebrar o gelo.

- Ué, e seu fim-de-semana como correu?
- Quase perfeito. Culpa tua. – Sorri.
- Mas eu já pedi desculpas, lagartixa.
- Opa não me chames isso outra vez, que eu passo-me.
- Você fica linda quando está zangada. Ainda mais linda.
- Oh, não sejas parvinho.
- E aí vamos jogar uma partidinha de bowling? Preciso da desforra. – Sorriu docemente, enquanto ia ligando a Wii sem esperar pela minha resposta.
- Não tenho alternativa, pois não?
- Ué, tá com medo? Perdeu as qualidades em Coimbra?
- Que engraçadinho. O meu forte no jogo, não são as qualidades, é a inspiração.
- Isso é desculpa, garota. Você tá com medo mesmo.
- E tu estás a irritar-me. – Disse, fingindo um tom zangado – Mas pronto, se te apetece levar outra coça, vamos lá.

Sorrimos. Preparámos o jogo e mais uma vez foi o David o primeiro a lançar a bola. Genial, como sempre. Já eu, definitivamente, não estava nos meus dias, o que dava um gozo enorme ao David. A cada jogada que eu falhava ele ria perdidamente. Eu irritava-me um bocadinho, mas depois a raiva fazia com que a jogada seguinte me saísse pior. Acabei por desistir de ficar chateada e comecei a levar o jogo de forma divertida. Acabámos quase num concurso de “pior jogador de bowling”. Não conseguíamos parar de rir. Até que se acabaram as jogadas. Deixamo-nos cair desamparados no sofá.

- Esquece lagartixa, parece que esse fim-de-semana você não ganha de jeito nenhum.
- Olha David, voltas a chamar-me isso e eu…
- Lagartixa! – O David estava a provocar-me.
- Opá pareces os putos. Ai que vontade de te…
- Beijar? – Ele aproximou-se repentinamente de mim. Estávamos tão próximos que eu sentia a respiração do David na minha cara.
- Não parvo, de te bater. – Respondi-lhe, tentando controlar-me.


Mas o David sorria para mim de uma forma tão terna que eu fiquei completamente desarmada. De repente, tudo o que estava à nossa volta desapareceu. Éramos só nós naquela sala. Os nossos olhos fitavam-se intensamente. Sentia o meu coração bater cada vez mais acelerado. Os nossos lábios tremelicavam de desejo. Os dele podia vê-los, os meus podias senti-los. Tentei a todo o custo concentrar-me na conversa com a minha mãe, mas o rosto do David estava a dificultar-me a tarefa. Num movimento repentino e impensado, aproximámo-nos e beijámo-nos com paixão. Envolvemo-nos num abraço apertado, enquanto os nossos lábios se movimentavam sem hesitar. Parámos, ofegantes. O David fez-me uma festa na cara, afastou-me o cabelo para trás da orelha e sorriu. Eu fui assombrada pela realidade, e num instante o arrependimento começou a percorrer-me os ossos. Ainda assim, não conseguia desviar o meu olhar do olhar do David.

- Já é tarde. E eu estou muito cansada.
- Tá me mandando embora? – Perguntou-se de sorriso no rosto.
- Estou. – Respondi-lhe também a sorrir.
- Tem razão. Tá ficando tarde mesmo.

Levantámo-nos e eu fui levá-lo à porta de casa. Ele vestiu o casaco que entretanto tinha tirado e colocou o carapuço.

- Uh, ficas tão sexy assim. – Usei um tom irónico.
- Eu sou sexy. – Enquanto falava o David ía fazendo poses. Soltámos uma gargalhada.
- Tu és é um grande convencido. Vá, vai-te lá embora. Obrigada pela visita.
- Não tem que agradecer. – Dei-me um beijo na testa – Eu vim porque eu precisava de te ver. ‘Tava morrendo de saudades suas.

Senti um arrepio percorrer-me o corpo. O David pousou a mão na minha face direita e humedeceu os lábios.

- Kika, eu preciso te falar uma coisa.

Bastou procurar mais fundo na imensidão esverdeada dos seus olhos para perceber o que ele me iria dizer. “Não faças isso”, pedia-lhe mentalmente, na esperança de ser “ouvida”. No entanto, não conseguia pronunciar qualquer palavra. Ele chegou-se mais perto de mim.

- Eu estou… – fez uma pausa e trincou o lábio inferior, enquanto eu continuava desesperadamente à espera que ele não continuasse – …eu estou gostando de você. Na verdade, eu estou apaixo…
- Shiu – Num acto irreflectido, levei-lhe a mão à boca, não o deixando acabar a frase – Por favor, David, não o digas.

Ele afastou-me ligeiramente a mão da sua boca. Eu deixei-a cair para junto do corpo.

- Mas eu preciso te falar o que sinto. – O David pegou no meu queixo e obrigou-me a encará-lo.
- Por favor.

Ele voltou a dar-me um beijo na testa e abraçou-me. Eu deixei-me envolver no calor do seu corpo e por momentos senti uma enorme vontade de chorar. Mas não deixei que o David o percebesse. Sorri-lhe enquanto o via afastar-se. Fechei a porta e fui sentar-me no sofá, onde o cheiro dele ainda permanecia. Deitei a cabeça numa almofada e não consegui lutar mais contra aquela lágrima teimosa. “Merda, Kika, tens mesmo de te afastar por uns tempos”.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Capítulo 22 - Oh mãe cala-te por favor!


O almoço com a Si correu maravilhosamente bem. Para além de nos termos deliciado com a comida e com a sempre encantadora vista para o Rio Mondego, ainda fomos buscar ao nosso “baú conjunto de memórias” os magníficos tempos da faculdade e as saudades que ficam de todos os momentos passados enquanto estudantes universitárias.

Saímos do Itália pouco passava das três da tarde. Acompanhei a Si até ao carro dela, onde nos despedimos, depois de ela ler uma mensagem que tinha recebido no telemóvel.

- Queres que te vá buscar amanhã à estação? – Perguntou-me a Si.
- Não é preciso, já falei com o Sr. José.
- Ok. Sendo assim vou aceitar o convite do Gustavo para jantar. – Disse-me, sorridente.
- Hum… jantarzinho a dois. Isso ‘tá a pegar. Eu bem te avisei que trabalhares menos teria os seus benefícios.
- És mesmo parvinha. Vá, até amanhã. E boa sorte para logo.
- Bem precisamos. – Dei-lhe dois beijos e comecei a afastar-me.

Fui até casa a pensar na conversa que tinha tido com a Si sobre o David. Na verdade, sabia que estava a ficar apaixonada. Já conhecia demasiadamente bem aqueles “sintomas”. Mas isso assustava-me e era precisamente por isso que, como dizia a Si, eu teimava em negar o que sentia. Apesar dos esforços para contrariar as minhas más recordações, o certo é que o meu passado teimava em atormentar-me o presente. Sabia que a partir do momento em que assumisse aquela paixão, ela iria tornar-se incontrolável, infindável e arrebatadora, o que poderia trazer-me dissabores. Temia também que a evolução dessa paixão pudesse levar-me a amar e isso era definitivamente algo que eu não queria. “Como poderei voltar a amar alguém depois do Tiago? Mais, como posso amar alguém sabendo que esse amor pode ser condicionado pela distância? Não, a separação é algo que não quero voltar a viver! Mas… como posso eu resistir àqueles beijos, àquele sorriso, àquele cheiro?”. Foi com aquelas dúvidas a toldarem-me a mente que cheguei a casa. Foi também ao recordar aqueles beijos que me lembrei da Raquel e do livro. Liguei à Sandra, dona de uma papelaria e a pessoa que me tinha conseguido encontrar o “Música de Praia”, e fui tomar um café com ela. Aproveitámos para colocar a conversa em dia durante um par de horas e eu voltei a casa com a promessa de que o livro me ía ser enviado.

Jantámos em família e a minha irmã nem se importou com o facto de termos comido à pressa para irmos ver o futebol para o café. Ela aproveitou inclusivamente para levar a prenda de aniversário que lhe tinha oferecido: uma máquina fotográfica. Saímos de casa as três sem o meu pai, que prefere sempre não ver derbys fora de casa.

Sentámo-nos, de cachecol ao pescoço, e eu podia ver que os nervos começavam a tomar conta da minha mãe. As mãos que não paravam de suar, o sorriso constante e os lábios secos deixavam transparecer a aceleração do seu coração. A minha irmã mantinha-se com a tranquilidade que a caracterizava e eu tentava disfarçar os nervos com as minhas piadas.

O árbitro deu início à partida. O estádio de Alvalade estava completamente cheio. Três pontos separavam as duas equipas na liderança da tabela. O Sporting, a jogar em casa e motivado pelos cânticos das suas claques, atacava freneticamente, mas não convertia as oportunidades em golo. O Benfica defendia seguro, com Luisão e David Luiz em grande nível. Eu abria o sorriso de cada vez que os operadores da Sporttv faziam um grande plano do David. Conseguia ver nele uma beleza especial naquela noite. O Sporting continuava a insistir e o Benfica respondia em contra-ataque. Estava um jogo bonito, sem faltas excessivas e com uma arbitragem limpa. Mas já só faltavam cinco minutos para terminar a primeira parte e ainda não se tinha gritado golo em Alvalade. Até que Liedson resolveu. Carriço colocou a bola em Matias Fernandez que bateu para Maniche. O veterano abriu na direita para João Pereira, o miúdo pôs na linha para Vukcevic que centrou afinado para a cabeça do levezinho, que apareceu solto entre os dois centrais benfiquistas. Em Alvalade e no café da santa terrinha gritou-se GOOOOOLLLLLLOOOOO de forma ensurdecedora. O intervalo trouxe o descanso à voz e a acalmia ao coração. Eu aproveitei para sair e fumar não um mas dois cigarros. Voltei para dentro assim que a Sporttv retomou a ligação ao Estádio. Sentei-me e embeveci-me com a felicidade estampada na cara da minha mãe. O árbitro mandou começar a segunda parte. Desta vez era o Benfica que mais atacava. Jesus devia ter mandado os rapazes correrem atrás do prejuízo e eles estavam a cumprir. Foram trinta minutos de pressão na área de Patrício. Já Roberto só por duas vezes foi chamado a intervir. Aos 32 minutos, na sequência de um lance sem perigo do Sporting, Luisão entrega a bola a David Luiz que, como tanto gosta, se aventura numa subida do terreno. Passa o meio campo, entrega a bola na linha a Coentrão que sobe velozmente pela ala esquerda e, à entrada da área, devolve ao 23 encarnado, que, com um potente remate, encosta o guardião leonino às redes. “FODASSE”, gritei assim que vi a bola dentro da baliza. A minha mãe deu um murro na mesa, soltou uma data de impropérios e ofendeu o David da maneira que só ela sabe. Instalou-se um mau estar no café onde estavam em maioria os sportinguistas. Bola ao centro e o Sporting reagia ao golo sofrido. Mas não da maneira mais eficaz. Os nervos eram perceptíveis nos jogadores. A partida caminhava a bom ritmo para o final e o empate parecia o resultado mais justo. Mas aos 89 minutos, o meu amigo David lembrou-se de cumprir a sua promessa e, na sequência de um pontapé de canto, saltou mais alto que Carriço e Nuno André Coelho, fazendo o segundo golo encarnado. “FODASSE”, voltei a gritar com mais força ainda. Estava petrificada e não conseguia desviar os meus olhos humedecidos do ecrã. O David corria loucamente de braços abertos em direcção ao Ruben que o aguardava também de braços abertos. Abraçaram-se junto à marca de canto e a Sporttv fazia grande plano da felicidade deles. Eu continuava com o olhar pregado na televisão quando o David me brindou com uma surpresa. Por entre os abraços ao Ruben, consegui ler-lhe nos lábios: “Eu cumpro”. Por momentos senti-me sem ar. Não conseguia discernir o que sentia com mais intensidade: se a felicidade de saber que aquele era um “momento nosso” ou se a raiva de o ver dar a vitória ao Benfica. Peguei na carteira e saí do café sem ver o final da partida. Sentei-me na rua a fumar um cigarro. Passados alguns minutos a minha mãe saiu também, sem proferir qualquer palavra, e começou a afastar-se. Percebi que o destino era a minha casa e segui-a. A minha irmã veio logo atrás de nós.

Chegámos a casa e a Cris lembrou-se de ligar a televisão, colocando automaticamente na Sic Noticias. E lá estava ele, o David, a irradiar felicidade, enquanto respondia ao repórter. A minha mãe, ainda calada, pegou instintivamente no comando, e mudou de canal.

- Oh mãe, o que é que estás a fazer? – Perguntou a Cris furiosa – agora que eu estava a ver o gostosão do David Luiz.
- Olha vai à merda mais o David Luiz – respondeu-lhe a minha mãe ainda mais irritada – Não quero ouvir esse gajo hoje.
- Oh mãe, mas ele está tão giro. – Dizia a Cris enquanto voltava a mudar o canal.
- Está caladinha, ele vale alguma coisa? Muda já essa merda.

Resolvi meter-me na conversa para tentar serenar os ânimos.

- Por acaso vale. É que para além de ser giro é muito boa pessoa.
- Sim, sim, muito boa pessoa – respondeu a minha mãe em tom irónico – e bom condutor também. Tu que o digas.
- Oh, não digas disparates. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E ele portou-se impecavelmente bem comigo.
- Oh mana, mas tu conhece-lo? – Perguntava a Cris entusiasmada.
- Sim, somos amigos. Conheci-o através da namorada do Ruben Amorim que também é minha amiga.

Achei que mentir seria a melhor solução naquele cenário.

- Eh lá, tenho de ir passar uns dias a Almada, estou a ver. – Respondia a Cris com um sorriso rasgado.
- Eu é que estou a ver que vocês são umas vira-casaca. O gajo é do Benfica – Continuava a minha mãe num tom irritado, agora virando-se para mim – E tu minha menina, estou a ver que andas muito mal acompanhada.
- Está caladinha – Respondi-lhe a sorrir – Eles são boas pessoas, podes acreditar. Mesmo.
- Sim, sim. Tu e os teus amigos. Porra, que tu só te dás com benfiquistas.
- O que é que queres Maria? Eles são mais que nós, a probabilidade de os conhecer é maior.

Eu continuava num tom animado a responder à minha mãe mas ela mantinha o seu ar sisudo e mal-humorado. A minha irmã aproveitou para voltar à conversa e da pior maneira.

- Oh mãe, é melhor não falares assim. Imagina que um dia destes ele se apaixona pela mana?

Apesar de aquelas palavras da minha irmã me terem feito corar, resolvi tentar disfarçar alinhando na brincadeira. Só não estava preparada para o que viria a seguir.

- Imagina só mãezinha. Um dia digo-te que venho a Coimbra apresentar-te o namorado novo e… tchanan – Estiquei o braço em direcção á porta de minha casa como se estivesse a apresentar alguém – mando entrar o David Luiz por esta porta.
- Era o maior desgosto que me podias dar.

Aquelas palavras da minha mãe e sobretudo a frieza e austeridade com que elas foram ditas puseram um ponto final nos sorrisos que eu e a minha irmã dividíamos. Senti o meu coração ficar pequenino. Olhei bem fundo no olhar da minha mãe e encontrei sinceridade naquela frase. O que me magoou mais ainda. No entanto, tinha ainda uma réstia de esperança de que aquilo fosse a raiva pela derrota do Sporting a tomar conta dela.

- Não estás a falar a sério pois não? – Perguntei-lhe com a voz trémula.
- Oh mãe não gozes – Disparou a minha irmã.

Mas a minha mãe manteve-se firme na sua declaração.

- Não estou a brincar. Se algum dia namorasses com esse rapaz ía ser o mais desgosto da minha vida. Jogador de futebol, ainda por cima do Benfica…

Não a deixei terminar a frase. Estava completamente alterada.

- Oh mãe cala-te por favor! Como é que podes dizer uma merda dessas? A porcaria da tua “clubite aguda” é que ainda te vai dar desgostos. O David é boa pessoa, é um óptimo amigo e parece-me um excelente ser humano. Eu quero lá saber em que clube é que ele joga.
- Oh mãe, a gente não gosta do Benfica, nada mesmo, e hoje então odiamos o David Luiz, mas daí a dizeres o que disseste. Porra.

A minha irmã veio em meu auxílio e eu agradeci-lhe, mentalmente, porque por momentos senti que estava a perder o controlo do que dizia e temia expor mais do que aquilo que queria. Sempre tinha tido com a minha mãe uma relação aberta, de confiança mútua, de partilha de histórias, segredos e sentimentos. Mas a distância física tinha levado também a uma distância de relacionamento entre nós. Tenho a certeza de que se ainda vivesse com ela já lhe teria contado o que se havia passado entre mim e o David e, inclusivamente, tencionava fazê-lo durante a minha curta estadia em Coimbra, mas aquela frase tinha mudado o rumo das minhas intenções. A minha mãe estava implacável.

- Olhem, não me chateiem. Vocês não iam sair? Então vão lá e deixem-me em paz.
- Sim, vamos sair. E é agora mesmo. Cris, vai-te arranjar se faz favor.

A minha irmã nem me respondeu. Em quinze minutos vestiu o vestido que eu lhe tinha oferecido e maquilhou-se. Estava encantadora. Enquanto a minha irmã se arranjava, eu fumei um cigarro e troquei de roupa. A minha mãe fechou-se na cozinha a preparar um chá. Já prontas, fomos ter com ela para nos despedirmos.

- Mãe, vamos embora. – Disse-lhe num tom calmo.
- Tenham juízo – respondeu-nos de forma seca – Kika, vê lá se não bebes.

Entrei em choque com as palavras da minha mãe. Senti uma raiva a apoderar-se de mim. A minha irmã ainda tentou evitar o confronto, puxando-me pelo braço.

- Anda mana, já é tarde.

Mas o meu corpo não reagia à ordem da minha irmã. Senti por momentos o chão fugir-me debaixo dos pés. Esforcei-me o mais que pude para sair sem responder à minha mãe mas não consegui.

- Tu às vezes consegues ser mesmo mazinha. Podes estar descansada que eu não vou beber. Mas não o faço por ti, é por mim.

Virei costas e iniciei uma caminhada furiosa até ao carro da minha irmã. Acendi um cigarro e olhei-a nos olhos. Conseguia ver neles tristeza e desilusão.

- Ei, miúda, não te quero assim. É a tua festa de anos e a noite espera por ti. – Sorri, roubei-lhe a máquina e tirei-lhe uma foto – Aliás, eles esperam por ti. Ai, ai que tu hoje vais arrasar.

A viagem até aos Jardins da Associação foi curta. Chegámos e depressa a minha irmã se transformou no centro das atenções. Não só pelo aniversário mas pela sua beleza que, naquela noite, estava inegável. Eu aproveitei para conversar com algumas amigas que já não via desde o natal, mas o episódio com a minha mãe tinha-me roubado o espírito festivo. Duas horas depois, despedi-me e voltei para casa sozinha.  Chorei durante todo o caminho. Senti que as dúvidas, que tinha em relação ao rumo que aquela amizade com o David estava a tomar, se estavam a dissipar. Porque naquele momento tive a certeza de que teria de pôr um ponto final naquele encantamento, naquela atracção, naquele desejo, naqueles beijos. Tive a certeza de que nunca poderia ser mais do que uma simples amiga do David.


*****************

Acordei por volta das dez e meia da manhã e a primeira coisa que fiz foi procurar na internet o primeiro comboio para Lisboa logo a seguir ao almoço. Fui depois para a cozinha preparar qualquer coisa para comer. Encontrei a minha mãe sentada à mesa.

- Bom dia.
- Bom dia. Já acordada?
- Sim, não tenho sono.
- Não vos ouvi chegar.
- Não chegámos tarde. – Fiz uma pausa e coloquei algum leite aquecido dentro de um copo – Vou-me embora depois do almoço – Disse-lhe sem tirar os olhos do copo.
- Então mas não ias só ao final da tarde?
- Tenho de ir mais cedo. Preciso de preparar umas coisas para a empresa.
- Isso é por causa da conversa de ontem?
- Não.
- Parece-me.
- Pois mas não é mãe.
- Kika, eu conheço-te e eu peço desculpa, mas só disse aquilo que penso.
- Claro, estás no teu direito. E ainda bem que não pensamos todos da mesma forma. De qualquer maneira não importa o que disseste, até porque eu nunca te iria dar esse desgosto.
- Tens a certeza?
- Claro. O David é só um amigo, como o Ruben, o Gustavo ou o Paulo, que bem conheces.
- Sim, esse lampião d’uma figa. – Sorriu levemente – mas o David não é só um amigo como o Paulo.
- Desculpa? – Deixei cair a colher no chão – E como é que sabes? Não o conheces.
- Porque os teus olhos não brilham da mesma forma quando falas de um ou de outro. E não precisas de mo dizer. Podes esconder-me a tua vida íntima, mas eu sou tua mãe, conheço-te como ninguém, sei o que sentes, sei o que pensas. E sei que esse David Luiz não é só um amigo.

A minha mãe olhava-me profundamente. Cada palavra sai-lhe da boca com uma serenidade quase medonha.

- Oh mãe cala-te por favor!
- Não queres ter essa conversa agora? Tudo bem. Mas algum dia temos de falar sobre o assunto.
- Não, não temos. Porque não há nem vai haver assunto. Nós somos só amigos e é isso que vamos continuar a ser. Sempre.
- Não digas sempre… (pausa) …porque sempre é muito tempo.

E depois destas palavras a minha mãe saiu da cozinha. Eu continuei lá a mexer o leite que ainda não tinha bebido e a olhar para as bolachas que ainda não tinha provado. E o apetite desapareceu. Irritava-me que a minha mãe soubesse o que se passava na minha vida sem que eu precisasse de lho dizer, mas o que me magoava realmente era que por momento algum ela me tivesse demonstrado que me apoiaria caso eu assumisse aquela paixão. No fundo, eu sabia que não podia contar com o apoio dela. E essa certeza apertava-me o coração e bloqueava-me qualquer sorriso que a imagem do David me pudesse provocar.