terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Capítulo 32 - A primeira mudança de muitas…


Ao longo de toda a viagem de táxi, o meu telefone não parava de tocar. Mensagens e mais mensagens, mas sobretudo informações sobre chamadas que me tinham sido feitas durante a minha estada em Paris, grande parte delas da minha mãe, obviamente.

- Oh pá, sou mesmo parva! – Desabafei, um pouco irritada com aqueles toques repetitivos, enquanto ia apagando as mensagens.
- Que se passa, Kika? – Perguntou-me a Raquel cuidadosamente perante a minha irritação.
- Oh Raquel, tu acreditas que eu não avisei a minha mãe que ia para Paris?! Ela fartou-se de me ligar e mandar mensagens, deve estar super preocupada.
- O quê? – A cara de estupefacção da minha amiga lembrava-me que eu tinha feito asneira da grossa – Kika não quero estar a dar-te sermões, mas nem quero imaginar o estado de nervos da tua mãe.
- Eu sei, eu sei. Merda, ela vai-se passar comigo. E quando lhe contar onde estive, com quem estive… bem, nem quero imaginar a gritaria que vai ser.
- Como assim? Ela não sabe que tu e o David…? – Mais uma vez a minha amiga olhava para mim com cara de espanto.
- Não… quer dizer, sabe, mas… – levei as mãos à cara e esfreguei as sobrancelhas.
- Kika, eu conheço esse gesto. O que se passa? A tua mãe sabe ou não sabe da tua relação com o David? – A Raquel tinha a pele do nariz enrugado, como acontecia sempre que estava preocupada com alguma coisa.
- Não sabe da relação porque como é óbvio não há oficialmente uma relação – as minhas mãos tinham descido então até ao meu pescoço, massajando-o descontroladamente – mas sabe que somos amigos, que passamos muito tempo juntos, que já nos beijámos, enfim, conhece-me o suficiente para saber que estou apaixonada por ele. E não, não aprova. – Disse-lhe, por fim. A Raquel baixou por instantes o olhar, suspirou e voltou a encarar-me.
- Mas achas que isso pode ser um problema? Isto é, o que a tua mãe pensa? Sei lá, ela é tão importante para ti…
- Raquel… – fixei o meu olhar no dela – Raquel, eu já sou crescida, eu sei o que quero, eu é que escolho gostar ou não de alguém. A minha mãe é muito importante sim, mas eu tomo as decisões da minha vida.
- Ela não gosta do David, é isso? É por ele ser jogador de futebol?
- Ela não conhece o David, ela só conhece o jogador. E ela no fundo só não quer que eu volte a sofrer e a cometer os mesmos erros, entendes?
- Sofrer porquê? Que erros?

Lembrei-me naquele instante que nunca tinha falado do meu passado à Raquel, mas soube também que aqueles não eram o momento e o local certos para o fazer.

- Um dia... um dia eu conto-te tudo, prometo! Mas primeiro deixa-me pôr a minha vida em ordem, acordar desta fantasia que vivi em Paris, falar com o David sobre a realidade, conversar com a minha mãe, e depois eu falo contigo, combinado? – Questionei-a, olhos nos olhos.
- Claro, eu respeito. Mas só quero que saibas que, independentemente do que tenha acontecido, do que te tenham feito, tu tens que andar com a tua vida para a frente e o Dê é a pessoa certa para te acompanhar nessa caminhada! – Os olhos da Raquel estavam ligeiramente humedecidos.
- O quem? – Perguntei a rir, numa tentativa de quebrar aquele ambiente triste.
- Oh tu percebeste. Mas não lhe podes chamar isso, só a Regina é que o trata assim desde miúdo e ele odeia. Sabes como são os homens, não sabes? – A Raquel ria ainda mais
- Sei! Oh… mas Dê é tão giro. – Eu também já não conseguia controlar as gargalhadas.
- Kika, tu jura que nunca lhe vais chamar isso. Ele mata-me!
- Ai vou, vou. Aliás vou-lhe chamar Dêzinho.

Com as nossas gargalhadas contagiantes, até o taxista se ia rindo no seu lugar solitário.

- Olha, não ligas à tua mãe?
- Já estamos perto de casa. Quando chegarmos, ligo-lhe.


*******************

Cinco minutos depois estávamos junto ao prédio do David. Pagámos ao taxista, que amavelmente nos retirou as malas da bagageira e subimos. A Raquel já tinha avisado o Ruben que estávamos a chegar e por isso a porta do prédio estava já aberta. Aproveitei a subida pelo elevador para tentar construir mentalmente um início de diálogo com a minha mãe, que esperava difícil.
A Sílvia veio abrir-nos a porta do apartamento com um sorriso estranho. Tentei decifrá-lo e encontrei um misto de alegria com preocupação. Percebi imediatamente que a minha mãe já lhe devia ter ligado e que ela, contrariada, lhe devia ter dado uma qualquer desculpa esfarrapada. Percebi tudo isso enquanto a minha amiga me apertava com toda a força.

- Oh babe, tive tantas saudades tuas. – Murmurou-me ao ouvido, enquanto me apertava um pouco mais.
- E eu tuas, minha bi! – Beijei-lhe a testa e preparei-me para a primeira reprimenda. A Sílvia soltou-me daquele abraço sentido.
- Ana Moreira, tu és parva? Tu vais para Paris, desligas a merda do telemóvel e nem sequer avisas a tua mãe? Ela está farta de ligar, já me ligou, está preocupada.

Deixei a Sílvia a falar sozinha e entrei na sala. Cumprimentei o Gustavo e o Ruben e, literalmente, atirei-me para os braços do David. Queria mostrar-lhe não tanto as saudades que tinha dele mas sobretudo o quanto tinha adorado aquela noite em Paris. Beijei-o apaixonadamente, envolvendo os meus braços no seu pescoço. E aquele até podia ter sido um beijo perfeito, não fosse a Sílvia estar atrás de mim aos berros.

- Isso não se faz… podias ter dito que ias em trabalho, uma porcaria qualquer… a tua mãe está possuída e com razão, Ana Moreira.
- Calma Sílvia. – Berrei-lhe, depois de afastar os meus lábios dos do David. – Tu tens razão e eu já vou ligar à minha mãe. Posso ao menos cumprimentar as pessoas? – Questionei-a enquanto me dirigia ao Paulo para o abraçar – Obrigada. Adoro-te Paulo Leitão! – Segredei-lhe ao ouvido. Ele sorriu-me. – E para de me tratar como se fosses a minha própria mãe, Sílvia Salgado. – Ordenei-lhe, enfurecida. – Agora se me dão licença vou ligar à minha mãe. Dê, posso ir para o teu quarto?

Fez-se silêncio na sala. O David petrificou, a Raquel corou, a Si e o Paulo olharam para mim curiosos e o Ruben e o Gustavo olharam um para o outro e soltaram uma gargalhada monumental. Eu sorri delicadamente.

- Dê, posso? – Voltei a perguntar. O David acenou afirmativamente com a cabeça e começou a andar na minha direcção.
- Sim, eu levo você. – Respondeu-me, colocando as mãos nos meus ombros. Eu estava já de costas a tentar controlar o riso. – Eu vou matar você, garota. – O David ameaçou a Raquel, tal como ela previa, e empurrou-me ligeiramente, fazendo-me caminhar.
- “Mas desde quando é que ela lhe chama Dê?” – Ouvimos o Ruben perguntar, por entre risos descontrolados.

Com o seu habitual cavalheirismo, o David abriu a porta e acendeu as luzes do quarto. Assim que entrámos, voltou a fechar a porta e num movimento repentino, mas suave, atirou-me para cima da sua cama, iniciando um ataque de cócegas que começava a fazer-me rir descontroladamente.

- Foi a Raquel que te contou isso? Foi? Fala para mim!
- Pára, Dê, por favor, pára! – Suplicava-lhe por entre risos.
- Pára você de me chamar esse negócio. – O David intensificava cada vez mais as cócegas e eu contorcia-me.
- Porquê Dêzinho? É tão querido!
- Mas que querido… parece nome de boiola. Vai parar? – Eram já audíveis por todo o prédio as minhas gargalhadas e cada vez mais frustradas as minhas tentativas para fazer o David parar.
- Sim… eu paro… eu paro.
- Mesmo? – O David parou de me fazer cócegas e eu tentava em vão parar de rir.
- Sim, paro. Juro.
- Tá bom, então!

Ao fim de alguns minutos consegui finalmente recompor-me. O David olhava para mim enternecido, de tal forma que chegava a ser constrangedor.

- Que foi? Porque é que estás a olhar assim para mim?
- Porque você tem o sorriso mais lindo que eu já vi até hoje! – A doçura nas palavras do David fizeram-me encolher e sorrir de vergonha mas sobretudo de encantamento. Mais ainda quando ele inclinou o seu corpo para cima do meu.
- E tu és um querido e é por isso que eu gosto tanto de ti! Meu Dêzin…

O David não me deixou terminar a frase. Beijou-me… com paixão, com desejo! Um beijo… aquele beijo que me fazia esquecer do mundo em meu redor, me tirava o fôlego e me arrepiava. Deixei-me levar pelo entusiasmo e entrelacei o meu corpo no do David. As nossas mãos percorriam, estusiasticamente, cada centímetro dos nossos corpos e os nossos corações já palpitavam freneticamente.
Até que o toque do meu telemóvel nos trouxe de novo à realidade. Apertei o David contra mim e rodopiei os nossos corpos de forma a poder ficar sentada sobre o seu corpo ainda trémulo pela excitação. Beijei, delicadamente, os seus lábios e preparei-me para a conversa com a minha mãe.

- Desculpa, tenho mesmo de falar com a minha mãe.
- Vai, antes que pare de chamar.

Levantei-me de rompante e corri para procurar o telemóvel na carteira. O David levantou-se de seguida e começou a caminhar em direcção à porta. Não sem antes me mimar com um beijinho na testa, no mesmo momento em que eu encontrava o meu telemóvel e me preparava para atender.

- Adoro-te, Dê. – Sorri-lhe, de forma provocadora e ele nem hesitou em tentar responder.
- Você prometeu que não falava mais esse negóc… – Num gesto rápido, tapei-lhe a boca com uma mão e simultaneamente levei o meu telemóvel ao ouvido, com a outra mão.
- Sim mãezinha!
Continuei a sorrir para o David, que saía fingidamente amuado do quarto fechando a porta com toda a delicadeza, enquanto ouvia os primeiros gritos da minha mãe no outro lado da linha.

- “Ana Moreira, onde é que tu andaste? O que é que se passa? Mas que raio se passa com a porcaria do teu telemóvel que está desde ontem desligado? Uma pessoa a tentar ligar e uma gaja qualquer a falar em francês ou em inglês ou lá que merda de língua estava a gaja a falar? Tu viajaste? Ana, tu viajaste sem me avisares? Quer dizer, tu já és maior e vacinada e não tens que me dar satisfações da tua vida, se calhar até foste em trabalho, mas não podias, pelo menos, ter mandado uma mensagem à tua mãe a dizer que ias sair do país? Está para aqui uma pessoa preocupada, sem saber onde andas, com quem estás, se estás bem se não estás? Fartinha de te ligar, de mandar mensagens e tu nada. Já liguei para a Sílvia, ela claro que não me disse onde andavas por isso não deves ter ido e trabalho porque se fosses ela dizia-me e ela estava muito nervosa para o meu gosto! Mas, seja como for, eu não quero saber para onde foste, nem com quem foste, ou melhor agora até quero porque estou preocupada, angustiada, numa pilha de nervos. Será que tu não percebes que isto não se faz? Não percebes? Oh, claro que não percebes, tu não és mãe. Ah, mas quando tu fores mãe tu vais entender… isto e muito mais, muito mais Ana! Fodasse, tu estás a ouvir-me? Mas onde é que tu andaste, Ana, o que é que tu andaste a fazer? Ana Moreira, tu estás a ouvir a tua mãe? Respondes-me se faz favor?

Já sem fôlego e praticamente sem voz, a minha mãe parou por fim aquilo que ela supunha ser um diálogo mas que, tão compreensível como irritantemente, tinha transformado num monólogo. Por entre a sua respiração irregular, pude ouvir os desabafos do meu pai.

- “Como é que queres que ela te responda se tu não te calas, Maria?” – O timbre do meu pai mostrava gozo mas também preocupação.
- Ora aí tens a tua resposta – respondi-lhe de forma cansada, mas também triste por saber que ela estava certa. – Tu ainda não calaste, mãe. Eu sei que tu estás cheia de razão, mas se queres saber o que aconteceu ou te calas e me ouves ou fazes uma pergunta de cada vez.
- Pronto, já me calei! – Retorquiu, já com a voz recomposta e ainda mais carregada de fúria. – Posso saber, então, o que aconteceu?
- Podes. – Sentei-me na beira da cama, deixei cair o corpo e, de olhos postos no tecto do quarto do David, tentei encontrar as palavras certas para explicar à minha mãe que finalmente tinha ganho coragem para assumir aquela paixão que ela própria já conhecia. Rapidamente deixei de tentar encontrar o mais bem construído texto explicativo e argumentativo para, de uma forma convicta, resumir tudo numa simples frase. – Eu… eu deixei de fumar.
- O quê? – Surpreendida com a minha resposta, a minha desatou num riso nervoso e enraivecido. – Deixaste de fumar? – Perguntava-me incrédula – E foste para o estrangeiro para deixar de fumar? – A minha mãe continuava num riso enlouquecido.
- Sim, isso mesmo que tu ouviste. Eu ontem fui para Paris e… deixei de fumar! – Dei bastante ênfase à última frase para que a minha mãe percebesse o verdadeiro sentido que eu lhe queria dar.
- Tu foste para Paris e deixaste de fumar? – Ela continuava irritada. – Espera lá… tu foste para Paris? Ontem? E deixaste de fumar? – Pelo tom de voz da minha mãe, conseguia imaginá-la a juntar as peças e formar um pensamento que fizesse finalmente sentido
- Sim, exactamente!
- Ahhhhh… já entendi! – Respondeu-me, de forma seca e sem qualquer emoção.

A velocidade dos meus batimentos cardíacos denunciava o meu nervosismo perante o sarcasmo da minha mãe. A cada minuto que passava eu tinha mais certezas de que ela se tinha já lembrado da nossa conversa, em Coimbra, na última visita que lhe fizera. Ela sabia o que eu queria dizer-lhe, ela sabia que eu tinha ido a Paris ter com o David, ela sabia que eu tinha assumido que estava apaixonada, ela sabia que esse era o motivo para eu ter deixado de fumar, tal como lhe tinha prometido.

- Mãe… mãe… – Eu chamava, mas ela não me respondia. E o meu coração batia cada vez mais apressado. De tanto tremerem, as mãos começavam já a sentir dificuldade em segurar o telemóvel. E quanto mais eu batia o pé direito contra a barra da cama do David, mais os meus olhos se humedeciam. Sentia-me preparada para ouvir qualquer palavra que a minha mãe pudesse pronunciar… mas não para a ausência de palavras. – Mãe, diz qualquer coisa, por favor. Mãe… mãezinha… – O seu silêncio estava a matar-me e, sem resistência, deixei que as lágrimas me rolassem pelo rosto. – Mãe, por favor!...


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Capítulo 31 - Amei tudo isso!

 
Acordei com um ligeiro arrepio de frio causado pela manhã gelada que se fazia sentir em Paris. Num movimento quase automático, puxei os cobertores até aos ombros e cheguei o meu corpo mais para o centro da cama, na esperança de encontrar o corpo quente do David. Rápido me apercebi de que estava sozinha. Abri os olhos lentamente, enquanto me espreguiçava daquela noite de sono tranquila. Percebi então que o David estava já a tomar banho. À medida que ia despertando, tornava-se mais nítido o som da água a cair do chuveiro. Levantei-me e, ainda a cambalear, percorri o caminho até à casa de banho. Abri suavemente a porta e, pé ante pé, cheguei até ao lavatório. Aproveitei as cantorias do David para lavar os dentes sem que ele notasse a minha presença. Sorri, antes de abrir as portadas do poliban e me juntar a ele num duche matinal. O David cantava, entusiasmado, uma música de um dos meus artistas brasileiros favoritos. Apesar da tremenda desafinação, era fácil de perceber que ele cantava com sentimento.

- “Hoje preciso de você, com qualquer humor, com qualquer sorriso, hoje só tua presença, vai me deixar feliz…”

Antes que ele chegasse à última frase do refrão, eu abri a portada e encostei-me de sorriso rasgado.

- “… Só hoje” – cantei, com a voz rouca de quem acaba de acordar – Bom dia, caracolinhos.
- Bom dia, lagartixa dorminhoca. – O David retribui-me o sorriso e de imediato estendeu-me a mão, convidando-me a partilhar o chuveiro com ele – Vem!

Eu não recusei aquele convite tentador. Despi-me num ápice e meti-me debaixo da água que fervia. O David envolveu-me num abraço e beijou-me.

- Que jeito mais gostoso de começar o dia – disse, passando as suas mãos na minha cara.
- Mesmo. – Segurei-lhe numa das mãos e beijei-a – Mas podias me ter acordado.
- Não tinha como. Você ‘tava tão linda dormindo. Tive até pena de acordar você!
- Oh… obrigada. Como eu gostava que o meu despertador pensasse assim… – Rimo-nos descontroladamente.
- Você é demais, sabia? Ainda agora acordou e já ‘tá falando bobagem!
- Eu sou mesmo boba, sabia? – Perguntei-lhe imitando o seu sotaque, depois de lhe beijar o peito. – Nem vi as horas. Já é tarde?
- Quando eu levantei eram nove e meia.
- Hum, isso significa que temos mais duas horas.
- É… dá para gente se arrumar e tomar o café da manhã com calma.
- E eu acordei cá com uma fome! Mas é melhor pedirmos e comermos aqui, não é? Deve estar muita gente lá em baixo.
- Não se preocupa não, eu já tratei de tudo.
- A sério? – Perguntei-lhe, surpreendida – És um cavalheiro, David! E é por isso que eu gosto tanto de ti – Sorri-lhe e beijei-o apaixonadamente.

Deixámo-nos ficar durante quase meia hora naquele banho a dois. E a culpa daquela demora era dos nossos corpos que teimavam em não se afastar, dos nossos lábios que insistiam em unir-se e das carícias não conseguíamos parar de trocar.

O David foi o primeiro a sair debaixo do chuveiro. Enquanto se enxugava, retomou as cantorias desafinadas e eu voltei a deliciar-me ao ouvi-lo, enquanto passava o cabelo por água uma última vez.

Envoltos nas macias toalhas brancas, regressámos para junto da cama onde nos vestimos. O David continuava a cantar e eu tinha-me juntado a ele. Individualmente as nossas vozes eram insuportáveis, mas em simultâneo a desafinação parecia desaparecer. Cantámos de novo a mesma música do banho.

- Você gosta de Jota Quest? – Perguntou-me o David enquanto apertava os atacadores das sapatilhas.
- Aprendi a gostar com a Andreia, uma amiga minha da faculdade. Ela adora as músicas deles.
- Cê sabe que eles vão dar um concerto lá em Lisboa daqui a duas semanas?
- Semana e meia. – Respondi-lhe num ar trocista, esfregando suavemente a toalha contra o cabelo para tirar o excesso de água – Sim, sei. Mas eu não vou.
- Ué, porquê? – O David estava em frente ao espelho do guarda-fatos a ajeitar a roupa
- Porque os bilhetes já estão esgotados. – Respondi-lhe com alguma tristeza na voz. – E tu vais?
- Não – afirmou com alguma rapidez – tenho jogo na Madeira nesse dia. E meus pais já vão estar em Lisboa por essa altura e meu pai não gosta muito não – o David continuava a falar sem tirar os olhos do espelho – então não é uma boa ideia.
- Pois. – Afastei-me da cama, tirei a toalha da cabeça e caminhei em direcção à casa de banho – Tenho esperança de que eles voltem! – Gritei já de secador na mão. – O David não me respondeu e eu liguei o aparelho.
Não me apercebi de quanto tempo tinha gasto a enxugar o cabelo, mas quando regressei ao quarto já a secretária estava transformada numa mesa de pequeno-almoço repleta de pão, queijo, bolo, sumo, leite, café e fruta. O David estava sentado com um jornal francês, aberto sobre as pernas, que ia folheando rapidamente, olhando apenas para as imagens. Assim que encontrou a secção de desporto, parou. Passou os olhos nas imagens e depois centrou toda a sua atenção no texto. Eu sentei-me ao seu lado e fiquei a olhar para ele, a sorrir. Ao fim de algum tempo, o David levantou a cabeça e fitou-me. Pela sua expressão facial percebi que não tinha entendido patavina do que tinha acabado de ler.

- Precisas de ajuda? – Perguntei-lhe com ar de gozo.
- Cê percebe esse negócio que ‘tá aí escrito? – Ripostou, passando-me o jornal para a mão. Eu fingi uma leitura atenta da reportagem sobre o jogo da noite anterior e alguns segundos depois respondi-lhe.
- Ora bem – coloquei um ar de quem estava preparada para uma longa explicação – o texto diz que – parei a tempo de evitar o riso – o Benfica foi muito superior ao PSG, que toda a equipa jogou muito bem mas que de facto o melhor em campo foi o central esquerdo…
- Eu? – O David olhava estupefacto para mim e eu quase perdia o controlo da situação – onde que cê leu isso?
- Aqui – disse-lhe, apontado com o dedo, aleatoriamente, para uma das frases do texto – mas deixa-me continuar. Portanto, diz que o melhor em campo foi o central esquerdo que, como recompensa, teve direito a uma noite de sonho. – Acabei de falar e continuei a olhar, séria, para o David, que continuava atónito.
- Ah… cê tá zoando da minha cara! – Resmungou o David ao fim de alguns segundos, tirando-me de imediato o jornal das mãos, enquanto eu me ria às gargalhadas. – Que maldade, isso não se faz garota.

Enquanto o David combatia a sua indignação com uma chávena de café com leite, eu continuava agarrada à barriga, sem conseguir controlar o riso e algumas lágrimas que já me corriam pela face.

- Vai gozando, vai Kika. Cê não espera pela demora, não! – Dizia-me o David por entre uma golada e um sorriso.
- Desculpa, David, mas foi mais forte que eu. Desculpa, sim? – Perguntava-lhe, enquanto lhe tentava dar um beijo, que ele evitava a todo o custo, colocando os braços á frente da cara. – Oh caracolinhos desculpa. Sim?
- Eu vou pensar no seu assunto mais tarde.
- Hum… está bem. Mas agora podes passar-me o pão, por favor?
- Posso. – Balbuciou, pegando no cesto. Gesto que eu aproveitei para o surpreender com um beijo.

- Ah, eu sabia que tu caías! – Vangloriei-me por ter conseguido que o David destapasse a cara.

Mas ele nem respondeu. Deixou-me pousar o cesto do pão, levantou-se num ápice e agarrou-se a mim, fazendo-me cócegas. Eu tentava afastá-lo, por entre gritos e gargalhadas, contorcendo o corpo, mas a agilidade do David permitia-lhe sempre encontrar um espaço para colocar as suas mãos. Eu parei de oferecer resistência e deixei que aquele “ataque” me levasse ao riso descontrolado e ofegante.

Fomos interrompidos pelas pancadas na porta do quarto. Enquanto o David caminhava para abrir, eu tentava, sem sucesso, parar de rir. Ouvi a porta abrir e vi o Ruben e a Raquel invadirem o quarto boquiabertos.

- Mano, o que é que estavas a fazer à rapariga? – Questionou o Ruben, enchendo um copo com sumo. – Fogo! Ouvia-se os gritos lá fora. Tens de ser mais calminho, mano. – Afirmou com malícia.
- Deixa de ser parvo, Ruben. – Fitei-o, ainda a rir. – Ele estava a fazer-me cócegas, pá!
- Já lhe ouvi chamar muita coisa.
- Oh mor – A Raquel olhava para ele indignada.
- Deixa, Raquel – Intrometeu-se o David – ele se acha mesmo! Né Manz? – Dando-lhe uma pancada na cabeça. – E aí, vocês estão prontos?
- Nós estamos, vocês é que parece que não. Ainda demoram? Daqui a quinze minutos o Paulo está aí.
- Eu ‘tou pronto. – Respondeu-lhe o David.
- E eu só preciso de dois minutos – informei-a depois de beber um copo de leite de uma única golada – vou só ajeitar a mala. Saímos já com eles?
- Cinco minutos depois, é melhor. – Afirmava o Ruben, pegando no jornal, ainda aberto na página que continha a notícia sobre o jogo. – Alguém percebe o que diz o texto? – Questionou.
- Eu. – Gritei, a sorrir.
- Cê ‘tá mas é calada, lagartixa.

Eu e o David riamo-nos com satisfação perante o olhar perplexo do Ruben e da Raquel. Só o som do telemóvel do David impediu um pedido de explicações por parte dos nossos amigos.

- Ruben, o Paulo já está chegando. Temos de ir. – Ao mesmo tempo que falava para o amigo, o David olhava para mim. O Ruben levantou-se, deu-me dois beijos e caminhou para a porta, ladeado pela Raquel que também já se tinha despedido do David.

Estávamos de novo sozinhos, junto à janela do quarto. Sem proferir qualquer palavra, o David abraçou-me com força. Eu deixei-me envolver pelo seu corpo. E senti-me inexplicavelmente triste. Embora a razão me lembrasse que íamos estar separados apenas durante algumas horas, o meu coração lembrava-me do quão maravilhosa tinha sido aquela noite e da vontade que eu tinha de ficar ali para sempre, abraçada ao David e protegida, pelas paredes daquele quarto, de qualquer obstáculo que se colocasse naquele caminho que eu tinha escolhido percorrer até à felicidade. Mostrando que a cada dia me ia conhecendo um pouco melhor, o David descodificou o suspiro que eu acabava de soltar e sussurrou-me ao ouvido.

- Daqui a pouco já vamos estar juntos de novo!
- Eu sei! – Olhei-o profundamente e beijei-o.
- Adorei o seu gesto lá no aniversário da Raquel, a sua visita inesperada, essa noite maravilhosa que a gente teve, o seu acordar cheio de risada. Amei tudo isso!
- Eu tinha mesmo que o fazer. Já não dava para me enganar a mim própria, para não me permitir ser feliz. – Suspirei demoradamente. – E eu sou feliz quando estou contigo. Por isso eu vim. – Passei-lhe os dedos suavemente pelos lábios. – E mesmo que nunca mais pudesse estar contigo, faria tudo de novo… só para viver os momentos maravilhosos que vivemos aqui, nesta cidade encantadora. – Dei um beijo leve nos lábios do David, arredei as cortinas e vislumbrei o Rio Sena e a Torre Eiffel ao fundo. Fiquei prisioneira daquele magnífico retrato real durante alguns segundos. E só despertei quando senti os lábios do David perto do meu ouvido.

- Um dia a gente volta cá, para ser feliz de novo, nessa cidade do amor!

Com aquelas palavras a ecoarem-me no cérebro e a fazerem-me palpitar o coração, voltei-me para o David e beijei-o apaixonadamente. Prolongámos o beijo até ao limite… imposto pela voz do Ruben, que gritava da entrada do quarto.

- Mano, vamos embora pá! Se nos atrasamos o mister passa-se!
- Tou indo manz, relaxa. – O David segurava-me a cara com as duas mãos e olhava-me no fundo dos meus olhos – Tenho de ir meu anjo. Daqui a pouco a gente se encontra.
- Vai, não te atrases. Quando eu chegar a Lisboa, ligo-te. Boa viagem.
- Obrigado. Agora, deixa eu ir.

O David deu-me um beijo, pegou no pequeno saco e começou a caminhar em direcção à porta do quarto, onde o Ruben o esperava. Eu encostei-me à janela, voltando a contemplar Paris, aguardando que a Raquel voltasse para fazermos tempo até deixarmos o hotel. Olhava, encantada, os barcos a navegarem no rio, quando o David regressou atrás, numa corrida. Agarrou-me, inundou-me a boca de leves beijos repenicados, segurou suavemente no meu queixo e olhou-me profundamente.

- Je t’aime! – Afirmou, com convicção.
- Je t’aime aussi! – Respondi-lhe, segura.

Trocámos um beijo rápido e, da mesma forma que regressou, o David saiu a correr. Eu permaneci estática, no mesmo sítio onde ele me tinha deixado, ainda atordoada com a afirmação que tinha acabado de fazer. Apesar de tudo sorria, porque respirava felicidade.

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Poucos minutos depois de os rapazes terem deixado o quarto, eu e a Raquel fizemos o mesmo. Não sem antes tirarmos uma fotografia às portas dos quartos que guardavam o segredo daquela noite inesquecível.
Descemos pelo elevador, de sorriso rasgado, e dirigimo-nos à recepção para fazer o chek-out e pagar a conta. E descobrimos nesse momento que as surpresas parisienses ainda não tinham terminado. A funcionária simpática que nos atendeu explicou-nos, num inglês perfeito e ao mesmo tempo que nos entregava um cartão, que o senhor que tinha ido buscar os rapazes, tinha já feito o pagamento da nossa conta. Agradecemos a explicação e o atendimento, despedimo-nos e saímos. Já no exterior do hotel, abrimos o cartão que o Paulo nos tinha deixado e lemo-lo em conjunto.

“That´s what friends are for…
Espero que a noite tenha sido inesquecível!
Do sempre amigo,
Paulo Leitão!”

Caminhámos, sorridentes, até ao leito do Rio Sena, apanhámos um táxi em direcção ao aeroporto, onde aproveitámos para aconchegar o estômago antes da viagem de regresso a Lisboa.

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Aterrámos em Lisboa pouco passava das cinco da tarde. A característica agitação fazia-se sentir no aeroporto àquela hora. No exterior, o céu da capital começava a escurecer. Entrámos dentro do primeiro táxi disponível e pedimos ao condutor que nos levasse até à margem sul.
Pelo caminho, ligámos os telemóveis e verificámos as inúmeras chamadas e mensagens antes de ligarmos aos rapazes. Com o tempo que perdi a ligar o telemóvel da empresa, a Raquel antecipou-se na chamada para o Ruben. Após uma conversa de alguns minutos, ela desligou o aparelho.

- Não vale a pena ligares ao David. Eles estão juntos e já sabem que vamos a caminho.
- Ok, então vou só ligar à Sílvia para avisar que já estamos em Lisboa.
- Também não é preciso – disse-me a Raquel a sorrir – ela também já sabe. Eles estão todos em casa do David à nosso espera.
- Bem, que grande recepção.
- Sim. Finalmente vamos voltar a ter um jantar dos seis magníficos! Aliás, sete. Porque o Paulo também lá está.
- Posso confessar-te uma coisa? – Perguntei-lhe, enquanto me encostava ao vidro da porta.
- Claro.
- Já tinha saudades. – Sorri-lhe ternamente.
- Oh… também eu minha querida!

A Raquel deixou cair o seu corpo para cima do meu e deitou a cabeça no meu ombro.

- Kika?!
- Sim?
- Apesar de te conhecer há tão pouco tempo, gosto mesmo de ti, miúda!
- Eu também gosto muito de ti, babe! E é por isso que amanhã vou colocar uma foto tua no mural da minha sala.

A Raquel deu um pulo do banco e olhou para mim de sorriso rasgado.

- A sério? – Perguntava-me visivelmente emocionada.

Eu não lhe respondi. Limitei-me a acenar afirmativamente com a cabeça, enquanto lhe mostrava o meu sorriso mais sincero. Depois de um forte abraço, voltámos a aconchegar os nossos corpos nos bancos e permanecemos abraçadas durante aquela demorada viagem até casa do David.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Capítulo 30 - Até às estrelas!


 

As mãos trémulas e humedecidas eram o sinal mais evidente do nervoso miudinho que eu sentia. A mesma imagem que me prendia o olhar paralisava-me também os movimentos. Tinha acabado de abrir a porta e por momentos pensei ter-me enganado no quarto de hotel. Ainda com a minha mão direita pousada sobre a maçaneta, fiquei petrificada perante o que vislumbrava. O David, logo atrás de mim, tinha o seu corpo colado ao meu. Apesar de eu estar de costas, podia adivinhar-lhe no rosto o mesmo sorriso que me rasgava os lábios. O meu coração, que já batia acelerado, disparou velozmente quando o David encostou os seus lábios ao meu ouvido, para me perguntar num sussurro.

- Você preparou tudo isso para a gente?

Senti naquele momento dois corações a palpitarem fortemente numa sintonia tão perfeita que pareciam um só.

- Não fui eu… – Respondi-lhe em surdina.
- Ué, então quem fez isso?

Voltei-me de frente para o David e nem precisei de lhe responder, porque ele fê-lo por mim.

- Esse Paulão me surpreende a cada dia que passa! – Sorriu – Vamo entrar?

Enquanto o David fechava a porta, eu caminhava lentamente pelo corredor em direcção à secretária que tinha uma decoração diferente daquela que eu havia encontrado à tarde. Na jarra de vidro, as rosas brancas tinhas sido substituídas por rosas vermelhas e a madeira clara estava, então, coberta de pétalas da mesma cor. Ao lado do candeeiro, uma garrafa de espumante estava embutida num frapê metalizado, junto ao qual estavam pousados dois copos altos. Ao centro, uma taça de vidro avermelhada continha uma dúzia de bombons. Quer na secretária quer em cima das mesinhas de cabeceira estavam espalhadas algumas velas, ainda intactas. Sorri levemente e agradeci ao Paulo, em pensamentos, pelas várias manifestações de amizade com que me tinha brindado desde que ao início daquela tarde o tinha avisado que estava a caminho de Paris.

Quase em surdina, o David aproximou-se de mim, e afastou algumas madeixas do meu cabelo, deixando o meu pescoço à mercê dos seus leves beijos. O meu sorriso expandiu-se e um suspiro profundo acompanhou um só arrepio que me percorreu o corpo velozmente. Senti-me a flutuar. O David envolveu o meu corpo num abraço forte durante segundos, para me largar logo de seguida. Aproximou-se da secretária e retirou uma das rosas da jarra. Levou-a ao seu nariz e inspirou aquele aroma. Deu-ma também a mim a cheirar.

- Sabe o que essa rosa me faz lembrar? – Perguntou-me com um sorriso rasgado.
- Nova Iorque? – Ripostei, também com um sorriso. Sabia que ele se estava a referir ao nosso primeiro jantar.
- Cara, eu acho que fiquei apaixonado por você nesse momento!
- A sério? E eu a pensar que tinha sido no dia em que quase me mataste. – Soltei uma gargalhada sonora.
- Engraçadinha… – O David colocou de novo a rosa na jarra e puxou-me contra o seu corpo – Esse foi o dia em que eu te achei maior gata – Disse, beijando-me.
- Sim? – Perguntei-lhe interrompendo o beijo – pensei que isso tinha acontecido só naquela noite em que me apanhaste de rabo à mostra – Para evitar a resposta, beijei-o de novo, mas com alguma dificuldade. Manter os nossos lábios unidos era difícil devido aos risos que íamos soltando.
- Boba – Balbuciou o David por entre beijos e sorrisos.

Apesar de nos conhecermos há relativamente pouco tempo, eu e o David tínhamos já algumas histórias para recordar. E isso tornava aquela noite ainda mais especial, porque a dotava de conteúdo. E apesar dos receios, que nem o ambiente romântico conseguia eliminar, eu sentia-me preparada para consumar aquela paixão. Afastei-me ligeiramente do David, despi o casaco, que atirei para cima da mala, e com o isqueiro, que retirei da carteira, acendi as velas pousadas sobre a secretária. Peguei depois num bombom, trinquei suavemente uma metade e levei a outra à sua boca. O David pegou então na garrafa de champanhe, que já estava aberta, e encheu os copos. Por entre uma profunda troca de olhares, brindámos! E o tilintar dos copos a bater marcou o início de uma entrega mágica, que nem as fugazes recordações trazidas pelo travo agressivo das gotas de champanhe com que apenas humedeci os lábios poderiam impedir. Pousámos os copos e beijámo-nos apaixonadamente. Os nossos corações voltavam a bater num compasso sintonizado e os nossos corpos ganhavam vontade própria. Era como se se conhecessem desde sempre. Deixei que as minhas mãos se perdessem pelos rebeldes caracóis do David enquanto ele, delicadamente, me ia retirando cada peça de roupa. E a cada milímetro do meu corpo que ficava a nu, o meu sangue fervilhava de desejo. O David beijou-me o pescoço, depois os ombros e desceu até ao peito, tornando a nossa respiração ofegante. Estávamos já a meio de uma “viagem” que nenhum dos dois queria interromper, mas ainda assim o David não hesitou em questionar o meu grau de certeza. O que me pareceu justificável, perante as constantes dúvidas e hesitações que foram marcando a nossa história até àquela noite em Paris.

- Eu sei que pode parecer estranho eu perguntar, mas eu preciso saber. Até onde você quer ir?

Sem desviar o meu olhar do dele, percorri, com leves beijos, um lento caminho desde a sua boca até ao seu ouvido.

- Até às estrelas! – Disse-lhe com firmeza na voz.

Apertei-o com todas as minhas forças, beijei-o avidamente e sem resistir aos instintos, fui despindo o David, que num gesto delicado me agarrou ao colo e me deitou lentamente na enorme cama. Estávamos apenas em roupa interior e eu senti o olhar do David percorrer-me o corpo. Deixei-me apoderar pela timidez. Ter partilhado durante tantos anos a minha intimidade com apenas um homem e não ter voltado a fazê-lo desde que esse homem deixou de fazer parte da minha vida, intimidava-me e de alguma forma fazia despontar as minhas inseguranças. O David foi buscar o isqueiro e acendeu cada uma das restantes velas espalhadas pelo quarto, apagando as luzes. Numa atitude provocadora, voltou a percorrer a minha silhueta com o olhar. Eu sorri-lhe, tranquilamente, e retribui o gesto. Apreciei o seu corpo delineado com a mesma precisão e deslumbramento de quem aprecia uma obra de arte. Foi então que o David voltou a retirar uma das rosas da jarra e se sentou junto a mim. Depois de um beijo demorado, voltou a levar-me a flor ao nariz para que eu lhe sentisse o aroma.

- Agora… fecha os olhos! – Ordenou-me com uma voz doce.

Eu fechei os meus olhos lentamente e inspirei suavemente. E foi então que senti o toque macio da rosa. Primeiro no rosto, o que provocou em mim um efeito relaxante. Depois no pescoço, descendo lentamente até ao peito, transformando o relaxante em prazeroso, e depois na barriga, percorrendo uma linha até ao umbigo, fazendo acelerar o bater do meu coração. Os movimentos do David eram demorados, delicados, por vezes trémulos. O nervosismo que eu sentia começou a dissolver-se à medida que a minha excitação aumentava. E no momento em que senti aquele toque aveludado das pétalas a contornarem-me as virilhas em direcção ao interior das coxas, gemi baixinho. Voltei a abrir os olhos e encontrei no rosto do David a mesma ânsia de se entregar ao prazer. Em silêncio e por entre beijos ardentes, entrelaçámos os nossos corpos, deixando-os entregues à paixão. E num instante, eles se uniram num só. Um encaixe perfeito que parecia acontecer desde sempre. Ofegantes e suados, eles moviam-se incessantemente ao ritmo daquele desejo que parecia insaciável. E mesmo que no limite das forças, eles pediam sempre mais… e o mais parecia sempre tão pouco.
Pressentindo que o final daquela “viagem” estava próximo, olhámo-nos uma última vez. E, numa sintonia perfeita, atingimos o limite máximo do prazer.

Ficámos largos segundos abraçados, com os corpos ainda entrelaçados, olhando-nos mutua e enternecidamente. Eu sentia o meu corpo ainda dormente, mas o toque da pele macia do David ia acalmando o bater do meu coração. A pouco e pouco, a respiração voltou ao seu ritmo normal. O David dava-me pequenos beijos na testa.

- Obrigado! – Murmurou-me, com um sorriso terno.
- Pelo quê? – Perguntei-lhe no mesmo tom.
- Por essa noite fantástica, pelo seu carinho, pela sua entrega…
- … Shiu – interrompi-o, levando o dedo indicador à boca – não me agradeças por me sentir feliz ao fazer-te feliz!
- Te adoro, lagartixa!
- Eu também te adoro caracolinhos.


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O banho quente que partilhei com o David tinha relaxado de tal forma o meu corpo que sentia o cansaço apoderar-se de mim. O David tinha apagado as velas, deixando apenas a luz do pequeno candeeiro acesa. Aninhei o meu corpo junto ao dele, na cama, e deitei a minha cabeça sobre o seu peito destapado. Coloquei as minhas pernas sobre as dele e abracei-o com força. Ele beijou-me suavemente e envolveu-me com o seu braço musculado. Eu senti-me segura, como já não acontecia há muito tempo. Fechei os olhos e tentei adormecer, embalada pelo cafuné que o David me fazia. Mas quase instantaneamente, uma lágrima soltou-se do canto do meu olho e rolou pela minha face até chegar à pele delicada do David que, num impulso, levou a sua mão livre ao meu queixo, puxando a minha cara de forma a que os nossos olhares se cruzassem.

- Ei, tá chorando porquê meu anjo? – Perguntou-me com um sorriso encantador.
- Desculpa, foi só uma lagrimita teimosa que me escapou.
- Porquê?
- Sabes David – suspirei profundamente – já não estava habituada a sentir-me assim.
- Assim como? Cê está triste, se arrependeu?
- Não, claro que não – retorqui com convicção, enquanto me levantava, ficando sentada ao lado do David – Estou feliz, muito feliz! E há muito que eu não sabia o que isso era. Estar feliz, sentir-me bem, sentir-me acarinhada, sentir-me desejada, sentir-me… – fiz uma breve pausa – … sentir-me mulher!
- Como não? Você é uma mulher linda e atraente, Kika!
- Também já não estava habituada a tantos elogios – as minhas maçãs do rosto estavam rosadas.
- Então vai-se habituando, viu… porque eu vou-te elogiar toda a vez que estivermos juntos! – O David sorria para mim.
- Tu és incrível, sabias?
- Que nada, você é que é fantástica. – O David fez-me uma festinha na cara e beijou-me a ponta do nariz – E eu já entendi que há muita coisa no seu passado que atormenta esse coraçãozinho e eu até posso imaginar o quê…
- Não, não podes… – Interrompi-o de imediato – mas eu também não quero falar sobre isso. É verdade que há muito para ser dito, mas não agora, não depois deste dia incrível e desta noite maravilhosa. Temos tempo, certo? – Perguntei-lhe, procurando ao mesmo tempo uma resposta no seu olhar.
- Claro, todo o tempo do mundo. Vem cá, vem. Deixa eu te abraçar.

Deixei cair o meu corpo para junto do David e beijei-o delicadamente. Tudo o que vinha a acontecer na minha vida desde que o tinha conhecido me parecia demasiadamente irreal, mas não o suficiente fabuloso para apagar a dura realidade que tinha vivido no passado e o medo terrível que tinha do futuro. Como se me adivinhasse os pensamentos, o David intensificou aquele beijo e aquele abraço. E foi nesse preciso momento que eu percebi que, só fechando definitivamente aquele capítulo negro da minha vida, seria capaz de virar a página e começar um novo… muito mais feliz!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Capítulo 29 - Beijos ao luar

 

Encostada ao parapeito da janela, contemplava Paris. Apesar da noite escura, um sem fim de luzes pintavam a cidade de tons amarelados e tornavam-na ainda mais esplêndida. Mas o brilho daquele clarão não conseguia amenizar o sufoco que eu sentia, enquanto esperava pelo David. Estava numa pequena sala que o Paulo tinha providenciado para que o nosso encontro fosse o mais discreto possível. Sentados no sofá, a Raquel e o Ruben, matavam as saudades com beijos e palavras de amor. Indiferente à presença do casal, eu continuava de olhos postos no horizonte, profundamente compenetrada naquele cenário. De tal forma que não ouvi o barulho da porta a abrir quando o David entrou na sala. Apercebi-me da sua presença apenas pelo reflexo da sua imagem no vidro da janela. Deixei-me estar encostada por mais alguns segundos só pelo prazer de o poder admirar. Mas quando o meu olhar se fixou na sua boca, perfeitamente delineada por um sorriso, um impulso tomou conta de mim e eu não ofereci qualquer resistência. Virei-me de frente para o David e num gesto decidido e silencioso os nossos corpos colaram-se e os nossos lábios uniram-se lentamente. O David segurava a minha cara com as duas mãos e eu envolvia os meus braços à volta do seu tronco. Apertei-o contra mim e fechei os olhos. Aquele primeiro beijo suave foi-se intensificando até se transformar numa explosão de sensações. Quanto mais as nossas línguas brincavam, mais os nossos corpos se comprimiam. Beijávamo-nos com paixão e eu tinha a certeza de que queria prolongar aquele beijo até à eternidade. Selámos o momento com pequenos beijos doces e permanecemos em silêncio, simplesmente a olharmo-nos. O brilho dos olhos do David iluminava o meu sorriso. Ele beijou-me a testa levemente, entrelaçou os seus dedos nos meus cabelos e puxou-me a cabeça suavemente.

- Te adoro – Disse-me, num sussurro. A sua voz meiga e a sua respiração fizeram-me estremecer.
- Beija-me – Pedi-lhe, sem conseguir responder-lhe com as mesmas palavras.

O David beijou-me de forma carinhosa. Um beijo apenas interrompido pelo Ruben, que tossia de forma artificial. Eu e o David soltámos uma gargalhada. Estávamos tão focados um no outro que nos tínhamos esquecido dos nossos amigos.

- Já acabaram, pombinhos? – Perguntava o Ruben com ar de gozo.
- Não… mas você não deixa a gente continuar, fazer o quê?
- Manz, continuam com as lamechices ao jantar, pode ser? É que eu estou a morrer de fome.
- Ué, e elas podem vir jantar connosco? – Perguntava o David, admirado.
- Não, mano, nós é que vamos jantar com elas.
- Sério? – A admiração do David aumentava.
- Sim, caracolinhos – Olhei-o e contei-lhe as novidades que o Paulo nos tinha deixado antes de ele chegar – O Paulo já falou com o treinador e vocês estão dispensados de jantar com a equipa. Vamos jantar ao hotel onde eu e a Raquel estamos instaladas.
- Que legal. – O David sorria como uma criança que acaba de receber um presente.
- Mas há mais mano – interrompeu o Ruben, levantando-se do sofá, e caminhando para a porta com a Raquel – A dispensa prolonga-se até às onze e meia da manhã de amanhã. – O Ruben piscou-lhe o olho e saiu.
- Ele ‘tá falando sério? – O David olhava para mim à espera de uma confirmação.

Acenei-lhe com a cabeça, toquei com os meus lábios suavemente nos dele e saí. Ele seguiu-me. Percebendo o meu embaraço perante alguns olhares mais curiosos com os quais nos cruzávamos nos corredores até à garagem do estádio, a Raquel largou a mão ao Ruben e veio colocar-se ao meu lado. O Ruben sorriu e esperou pelo David para lhe fazer companhia. Depressa chegámos ao carro, emprestado pelo Paulo, e seguimos viagem até ao hotel.

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O recepcionista do hotel era o mesmo da tarde e já estava à nossa espera. Encaminhou-nos até ao restaurante que tinha, àquela hora, fraco movimento. Apontou para a mesa do canto e sorriu.

Já acomodados na mesa reservada pelo Paulo, fomos atendidos por um empregado que falava connosco em inglês. Fizemos o pedido e ele retirou-se, de forma elegante.

- Ainda bem o Paulo pensou em tudo. – Dizia a Raquel enquanto arredava a cortina e espreitava para a rua – Se o empregado só falasse francês, estávamos tramados.

Todos sorrimos. O jantar decorreu sempre num tom animado. Enquanto eu contava ao David tudo o que tinha acontecido naquele dia, ela ia acusando o Ruben, na brincadeira, de ser mau amigo por não o ter avisado da nossa presença em Paris. Por entre piadas e gargalhadas sonoras, o tempo passou a voar. Estávamos sozinhos no restaurante, a música ambiente tinha sido desligada e o empregado olhava para nós, entediado.

- Se calhar é melhor irmos andando. O homem precisa de descansar. – O Ruben levantou a mão e chamou o empregado – E nós também.

O funcionário veio até à mesa e informou-nos de que o jantar estava incluído na conta do hotel que, como era normal, só pagaríamos quando fizéssemos o check-out. Agradecemos-lhe, os rapazes deixaram-lhe uma gorjeta e saímos para o hall de entrada, onde estava já um recepcionista diferente. O Ruben colocou os braços por cima dos ombros da Raquel e beijou-lhe a nuca.

- Vamos subir, amor? – Perguntou-lhe carinhosamente.
- Sim, vamos. – Ela olhava então para nós – Boa noite meus queridos, até amanhã.

Ainda não tínhamos acabado de responder e já eles estavam de costas, caminhando em direcção às escadas. Eu e o David tínhamos ficado sozinhos, sob o olhar discreto do empregado do hotel. Apesar de cansada, eu não tinha ainda vontade de ir para o quarto. Sabia que estava uma noite fria em Paris, mas apetecia-me desfrutar da beleza nocturna da cidade e, sobretudo, fazê-lo na companhia do David. Ele leu-me os pensamentos.

- Vamo? – Questionou-me, esticando-me a mão.

Saímos do hotel de mãos dadas e caminhámos sob o olhar atento da lua e das estrelas. Dávamos passadas lentas. Sem precisar de o dizermos um ao outro, sabíamos que queríamos saborear aquele momento. Era como se os nossos movimentos vagarosos fizessem o tempo passar mais lentamente.

Alguns minutos depois estávamos junto ao Sena. Aproximamo-nos do muro de pedra e apreciámos o incrível reflexo dos austeros edifícios nas águas tranquilas do rio. O David debruçou-se ligeiramente, rodou a cabeça e o seu olhar acompanhou o curso das águas. Eu deliciei-me com a sua beleza. Tinha a certeza de que guardaria aquela imagem para sempre na minha memória, mas ainda assim senti necessidade de registar o momento. Tirei a máquina fotográfica da carteira sem ele perceber e disparei. O flash fê-lo voltar-se para mim.

- Não sei se esse é o meu melhor lado – Gracejou.
- Tu não tens um lado melhor. – Respondi-lhe enquanto revia a foto.
- Não? – Perguntou-me cabisbaixo.
- Não… – Fiz uma pausa, preparando a máquina para disparar – Todos os teus lados são perfeitos.

O David sorriu de forma encantador e eu voltei a disparar. Voltámos a unir as nossas mãos e seguimos pela margem do Rio Sena. Atravessámos uma ponte e parámos num parque. Escolhemos um local bastante iluminado, por precaução, e sentámo-nos no banco mais recatado com vista para o Grande Palácio. Apesar do avançar da hora e das baixas temperaturas, ainda havia meia dúzia de pessoas que, ligeiramente afastadas, passeavam e conversavam naquele jardim. O David sentou-se primeiro numa ponta do banco, colocando uma perna para cada lado.

- Senta aqui. – Ordenou-me carinhosamente, apontando para o meio das suas pernas abertas.

Eu sentei-me de costas para ele e deixei descair o corpo, descontraído, encostando a minha cabeça no seu ombro. Com os braços à volta da minha cintura, o David apertou-me suavemente e beijou-me delicadamente a bochecha. Mantivemo-nos assim, abraçados e em silêncio, durante um bom tempo. O abraço do David transmitia-me segurança e conforto. Sentia-me intocável. Naquele momento nada no mundo me faria sofrer, ou chorar… não enquanto permanecesse assim, com os braços do David à minha volta.

Com a máquina fotográfica ainda na mão, fui registando cada carícia, cada beijo, cada sorriso e algumas caretas que o David fazia.

Lá do alto, a lua sorria-nos e iluminava-nos os corpos e os corações. Nós contemplávamo-la e, em silêncio, agradecíamos-lhe a generosidade. Inundados pela beleza do luar, beijávamo-nos com carinho e ternura.

- Posso te confessar uma coisa? – Perguntava-me ele ao ouvido, enquanto revíamos as fotografias já tiradas.
- Podes.
- Nesse momento sou o homem mais sortudo do planeta. E o mais feliz também.

Eu sorri baixinho. Afastei o meu corpo do dele e num movimento quase acrobático, virei-me de frente. Afastei as pernas e, aos poucos, fui-me aproximando um pouco mais. Coloquei as minhas pernas por cima das do David que, percebendo a minha intenção, me agarrou pela cintura e me apertou contra ele. Com os corpos bem juntinhos, entrelacei-lhe as mãos nos seus caracóis e beijei-o apaixonadamente.

- És também o homem mais bonito do planeta… o que faz de mim uma mulher com sorte. – Sorri e roubei-lhe um doce beijo. Ele corou e fez-me uma festinha na cara. - David… (pausa) … que momento solitário foi aquele no final do jogo?

Ele desviou o olhar e fixou-o no céu, sorrindo.

- Foi ali que tudo começou. O sonho, a luta, o sacrifício, as vitórias…
- … Ah, o primeiro jogo com a camisola do Benfica. – Não o deixei terminar a frase. – O início de uma brilhante carreira…
- … E Ele – o David apontava para o céu – esteve comigo naquela noite, e voltou a estar essa noite…
- … e vai continuar a estar todos os dias, tenho a certeza. Estejas tu onde estiveres, faças o que fizeres.

Ele sorriu para mim e beijou-me suavemente.

- Pensei que você não acreditava em Deus?
- David… alguém deve ter mexido os cordelinhos para que os nossos caminhos se cruzassem. E esse alguém só pode ter sido Ele! – Agora era eu quem olhava e apontava para o céu. O David seguia o meu dedo com o olhar.
- Kika – chamava-me com entusiasmo – pede um desejo!

Uma estrela cadente passava naquele momentos. Ficámos os dois calados por instantes, de olhos fechados.

- Já pedi. E tu?
- Também.

A nossa cumplicidade deixava transparecer que tínhamos desejos semelhantes.

- Sabe que eu adoro você? – Perguntava-me por entre um beijo.
- Sei – Respondi-lhe por entre um arrepio – Vamos andando?

Ele não me respondeu. Simplesmente acenou com a cabeça. Levantámo-nos e iniciamos, de mãos dadas, o trajecto de regresso. Estávamos na margem do rio, a uns metros do início da ponte e, num ímpeto, o David parou.

- Que foi? – Questionei-o, tentando perceber o significado daquela paragem.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Porquê você tá sempre evitando falar o que sente? – Ele olhava-me fixamente
- Não estou nada – Eu desviada o olhar numa tentativa de desviar também a conversa.
- ‘Tá sim. Eu te digo que te adoro, que ‘tou apaixonado, que ‘tou feliz e você nem responde.
- David…
- … Você não tem certeza do que tá sentindo, é isso? – Ele interrompeu-me, com uma voz entristecida.
- Se eu não tivesse certezas não estava aqui – Disse-lhe convicta.
- Então porquê você nunca fala? ‘Tá com medo do quê?
- De nada. – Respondi-lhe bruscamente – Outra vez essa conversa do medo?
- Desculpa, mas é que eu não consigo entender.
- Então eu explico-te – o meu desconforto com aquela conversa fazia elevar o meu tom de voz – Eu não tenho que te dizer seja o que for só porque tu também dizes. E eu não preciso de dizer o que sinto. Basta senti-lo. E eu sei perfeitamente o que sinto.
- Mas eu não. – O David começava também a elevar a voz.
- Não? – Perguntei-lhe irritada.
- Não. – Respondeu-me de forma agressiva.
- Não? – Voltei a perguntar ainda mais irritada.
- Já disse que não.
- Ok.

Larguei-lhe a mão abruptamente e comecei a andar em direcção à ponte. A intensidade dos meus passos aumentava à medida que me afastava.

- Onde você vai Kika? – Perguntava-me o David sem sair do sítio. – Volta para cá. Vamo esquecer essa conversa.

Eu continuava determinada, sem lhe responder ou sequer olhar para trás. Ele começou a seguir-me, sem no entanto chegar ao início da ponte.

- Kika. Kika, espera por mim.

Quanto mais eu me afastava, mais alto o David gritava. Eu estava já a meio da ponte, quando parei. Dei meia volta e encarei-o. Ele parou ainda na margem do rio e fixou os olhos em mim. Eu desviei o olhar e avancei em direcção às grades da ponte. Coloquei um pé de cada vez no terceiro ferro horizontal a contar do chão e segurei-me na barra superior.

- KIKA – Gritou-me o David, desesperado.

Eu podia ver o pânico na sua cara. Larguei as mãos lentamente e tentei e, com o olhar fixo no David, encontrar um ponto de equilíbrio. Apesar de estar a tremer de medo, afastei os braços num movimento lento e inspirei profundamente.

- ADORO-TE – Gritei com toda a força que tinha – ADORO-TE, OUVISTE?
- Desce daí sua maluca. – Apesar de furioso, ele não conseguia evitar o sorriso. Começou a caminhar na minha direcção.
- PARIS… EU ESTOU APAIXONADA PELO DAVID LUIZ MOREIRA MARINHO. – Num acto tresloucado eu continuava a gritar bem alto.

As poucas pessoas que ainda permaneciam no parque olhavam para mim estupefactas. Envergonhada, desci cuidadosamente do gradeamento. O David estava já no início da ponte. Assim que os nossos olhares se cruzaram, os nossos corpos iniciaram uma corrida frenética. Mal cheguei perto do David, dei um pulo e atirei-me para o seu colo. Enrolei as pernas à volta da sua cintura, com os braços segurei-me no seu pescoço e beijei-o intensamente. Ele apertava o meu corpo com força contra o seu. Eu afastei os meus lábios e comecei a percorrer-lhe a cara com beijos até chegar à orelha. Passei-lhe com a língua delicadamente no lóbulo e senti o David arrepiar-se de prazer.
- Assim você me deixa louco. – Sussurrou-me ao ouvindo, provocando em mim o mesmo arrepio.
- Eu adoro-te David. Nunca duvides disso.

Ele não me respondeu. Beijou-me simplesmente. Eu voltei a arrepiar-me, mas ambos percebemos que aquele pequeno tremor tinha sido provocado pelo frio que se fazia sentir. Eu deslizei lentamente pelo corpo do David, até ficar de pé. Voltámos a dar as mãos e seguimos até ao hotel.

*************************

Entrámos o mais silenciosamente possível no hall de entrada e dirigimo-nos ao elevador, depois de acenarmos ao recepcionista. Caminhávamos frente-a-frente, sem nos conseguirmos parar de beijar. Como eu estava de costas para o elevador, foi o David quem carregou no botão. Uns segundo depois, o elevador parou por trás de mim e a porta abriu-se. Num movimento veloz, soltei-me do David e, com a minha mão no seu peito, fiz força para não o deixar aproximar.

- Boa noite David, até amanhã. – Disse-lhe com uma cara séria.
- Você não vai me deixar subir? – Ele olhava para mim surpreso e as palavras demoravam a sair da sua boca.
- Não. Eu sou uma senhora. – Tentei manter um ar austero, mas com a sua característica perspicácia o David percebeu que as minhas palavras não espelhavam a minha vontade.
- Tem razão, você é uma senhora – O David aproximou-se serenamente, o que fez com que desarmasse. Deu-me um terno beijo nos lábios e continuou – Uma senhora que ainda há pouco pulou no meu colo e fazendo assim… – aproximou a sua língua da minha orelha e com uma pequena lambidela fez-me estremecer – … me deixou louco. Por isso, cala a boca e entra aí – Com um gesto rápido o David empurrou-me para dentro do elevador.
- Aaahhh – A sorrir, soltei um pequeno guincho que, não fosse o silêncio carregado da madrugada, mal se teria ouvido.
- Shiu – O David segurava-me contra a parede do elevador, à espera que este se fechasse. Eu tentava oferecer resistência.

Assim que a porta se fechou por trás dele, o David pressionou o seu corpo contra o meu. Com uma das mãos segurava-me a cabeça e com a outra puxava uma das minhas pernas, colocando-a à volta do seu corpo. Eu não resisti mais. Abracei-o com força e beijei-o com desejo. Perdemos o controlo das nossas mãos, deixando-as percorrer livremente os nossos corpos. Acometidos pela excitação, esquecemo-nos do quão rápida era aquela viagem até ao terceiro andar. Fomos acordados daquele entusiasmo pelo barulho da porta do elevador a deslizar. Num movimento rápido, recompusemo-nos e preparamo-nos para sair. Mais próximo da porta, o David deu-me a mão e puxou-me. Eu estava já a atravessar a pequena fenda que separava a caixa do elevador do chão do corredor, quando um qualquer instinto me fez parar e olhar para cima. Soltei uma gargalhada sonora, que não consegui evitar. O David olhou para mim estupefacto e tapou-me agilmente a boca com a sua mão quente, evitando o prolongar daquele som que poderia acordar os restantes hóspedes.

- Que foi sua boba?

Sem lhe responder, puxei-o novamente para dentro do elevador e apontei para o canto superior esquerdo.

- Merda! – Sussurrou o David tentando controlar o riso – Como é que a gente esqueceu esse pormenor?

Ríamos os dois perdidamente, mas em surdina, sem conseguir desviar o olhar da câmara de vigilância.

Já com o riso controlado e depois de uma troca de olhares cúmplice, saímos do elevador e abrimos a porta do quarto 23 do hotel. Apesar do desejo que nos consumia, não sabíamos o que aquela noite nos reservava, mas tínhamos a certeza de que queríamos desfrutá-la juntos.