quarta-feira, 16 de março de 2011

Capítulo 33 - Conversas inadiáveis


Aqueles segundos pareciam-me horas… a minha mãe não dizia absolutamente nada e as lágrimas, que a tanto custo eu evitei, rolavam velozmente pelo meu rosto. Era um choro, ainda assim, calmo e silencioso, a contrastar com o barulho ensurdecedor do meu coração a bater-me contra o peito. Já tinha desistido de chamar pela minha mãe. Dei-lhe o tempo que julguei necessário para que ela assimilasse o que tinha acabado de ouvir, mas aquela espera começava a já não fazer sentido. Ela própria me tinha ensinado que “é a conversar que as pessoas se entendem”.

- Tu já sabias. – As minhas palavras eram ditas com uma aparente tranquilidade – O brilho no meu olhar… lembras-te? Tu disseste que o viste…
- Mas tu negaste… lembras-te? – Era bom ouvir de novo a voz da minha mãe, mesmo que o seu timbre fizesse sobressair o desgosto que ela outrora manifestara.
- Mas tu és minha mãe, tu conheces-me como ninguém. Se os meus olhos te mostraram os sentimentos que, é verdade, eu tentei esconder, então tu devias saber que eles eram já fortes demais.
- E sei, sempre soube…
- Então? – Não a deixei terminar a frase. Levantei o meu corpo ainda deitado na cama do David e fui caminhando até à janela à espera da resposta.
- Os teus sentimentos eu conheço-os, os dele não. – A minha mãe falava com uma frieza que eu tentava a todo o custo enfraquecer.
- Acredita que são tão puros quanto os meus.
- Eu só quero que tu sejas feliz, que não voltes a sofrer da…
- Então fica feliz por mim, caramba! – Perdi o controlo sobre mim própria e deixei que o tom da minha voz me saísse um pouco mais elevado.
- … da mesma maneira. Não quero que voltes a sofrer, que voltes a chorar, que voltes a cometer os mesmos erros, percebes? - Também a minha mãe começava a exaltar-se novamente.
- E tu percebes que eu não posso viver para o resto da minha vida numa redoma de vidro duplo? Estou apaixonada, o que queres que faça, que me tranque em casa e tente reprimir os meus próprios sentimentos?
- Não! Quero que penses bem nas consequências dos teus actos.
- Neste momento, todos os meus actos relacionados com o David fazem-me sentir feliz. Posso ser feliz?
- Ei… – aquele “ei” soou-me a grito de mágoa – mas tu achas o quê? Que eu estou a esforçar-me prazerosamente para que a minha filha não seja feliz? – A ironia nas palavras da minha mãe confirmavam as minhas suspeitas de que ela estava realmente magoada com a minha pergunta – Não há ninguém no mundo que te queira ver tão feliz quanto eu, entendes? Eu estou simplesmente preocupada com essa tua paixão por um jogador de futebol, como é perfeitamente normal.

Começava a ficar desgastada emocionalmente com aquela conversa. Deixei deslizar o meu corpo pela parede, sob a janela, e sentei-me no chão do quarto do David. Fechei os olhos, respirei fundo e ouvi, pela primeira vez, o burburinho que vinha da sala, onde todos me esperavam para jantar.

- Não mãe, não é normal. Porque eu não estou apaixonada por um jogador de futebol. Estou apaixonada pelo David, um rapaz maravilhoso, com um coração do tamanho do mundo e um carácter de fazer corar muita gente. Eu estou feliz, mãe. Eu voltei a sentir-me amada, desejada… voltei a sentir-me mulher. Consegues compreender isso, mãe?
- Muito bem… se estás feliz, então eu fico feliz por ti. – Foi uma resposta sem qualquer convicção.
- Quero muito acreditar nisso, mãezinha. Porque tu sabes o quanto o teu apoio é importante para mim.

Estava decidida a colocar um ponto final naquela conversa. Dois dias depois iria para Coimbra e esperava poder conversar mais calmamente com a minha mãe. Sabia que, apesar de tudo, ela queria realmente ver-me feliz e, por isso, tinha esperanças de que um dia ela aceitasse conhecer o David. Sorri ao imaginar esse momento. Tinha a certeza de que eles se iriam adorar. Foi ela quem quebrou o silêncio imposto pela minha divagação.

- Eu sei. Mas por favor, não me voltes a esconder nada. Sobretudo se saíres do país. Minha nossa, Kika, eu estava preocupadíssima.
- Desculpa mãe, desculpa. Tu tens toda a razão. Mas eu não quero que penses que te estava a esconder alguma coisa. Eu apenas me esqueci, desculpa, tu sabes como eu sou despistada.
- Esqueceres-te de me avisar que vais viajar? Por amor de Deus, isso não é descuido. Há quanto tempo tinhas a viagem marcada?
- Oh… – sorri – eu só marquei a viagem ontem de manhã. Foi assim uma coisa sem pensar, sabes?
- Tu e as tuas maluqueiras. Mas quando é que apanhas juízo nessa cabeça? E o trabalho… faltaste ao trabalho?
- Sim, mas eu tinha folgas para gozar, por isso está tudo bem.
- Olha, bem que as podias ter guardado para vires para Coimbra amanhã.
- Eh lá, dona Maria, estamos com ciúmes? Não me parece nada apropriado para uma senhora da sua idade.
- Deixa-te lá de merdas, Kika, mas que ciúmes?! Só gostava que viesses a Coimbra. – Não consegui evitar sorrir com aquelas palavras.
- Mas eu vou. Sexta-feira, assim que sair do trabalho, meto-me no carro para te ir dar um beijinho. Melhor assim?

Já não havia naquela altura qualquer azedume nas palavras que trocávamos. O que era já habitual entre nós. Cada vez que discutíamos, tendíamos a ser duras uma com a outra, por vezes até ligeiramente cruéis. Mas assim que libertávamos do interior tudo o que havia para ser dito, a conversa retomava a normalidade. Não era efusiva, nem tão pouco carinhosa… era simplesmente normal. Claro, com uma boa dose de cinismo à mistura.

- Depois falamos, mãe. Agora tenho de ir jantar, que está toda a gente à minha espera.
- Toda a gente quem? Vais dar um banquete aí em casa?
- Eu estou em casa do David. – Ouvi, do outro lado da linha um grande suspiro de resignação. – Vamos jantar aqui com a Si, o Gustavo, o Paulo…
- O Paulo, claro – ela interrompeu-me de forma abrupta – esse lampião tinha que estar metido nessa história. Enfim… eu só quero que tu me digas mais uma coisa.
- O quê? – Aguardei ainda alguns segundos até ouvir a sua pergunta.
- Foste ver o jogo? – Sorri ligeiramente.
- Sim, fui. Como é que eu sabia que me ias perguntar isso?! – Desabafei.
- Mas não festejaste o golo, pois não? – Perguntava-me ela com algum nervosismo.
- Isso já são duas coisas.
- Eu não acredito, tu… – Senti naquele momento a voz da minha mãe a entristecer.
- Claro que não, mãe. Bolas, até parece que não me conheces. Que estupidez estares a perguntar isso.
- Estupidez não. – Respondeu-me indignada – Era só o que me faltava, tu gostares do Benfica só porque o teu namorado joga lá.
- O meu namorado? – Perguntei com uma ingenuidade fingida.
- Então é o quê? Se gostas dele, se dormes com ele, se…
- Sim, tens razão. É meu namorado.

Estremeci ao pronunciar aquelas palavras. Não só pelo calorzinho delicioso que elas provocaram no meu coração, mas também porque o David tinha acabado de entrar pelo quarto com um sorriso encantador. Assim que se apercebeu que eu ainda estava ao telefone, fez-me sinal que ia sair. Também por gestos, dei-lhe indicação para que esperasse um pouco e sorri.

- Mãe, vou jantar. Amanhã ligo-te, está bem?
- Sim, vai lá. Eu também te ligo na sexta a saber a que horas vens, combinado?
- Combinadíssimo. Beijinho, até amanhã!
- Até amanhã, Kika. Beijinho.
- Mãe…
- Diz.
- Desculpa! A sério, desculpa mesmo. Não te queria magoar.
- Esquece isso. É o melhor. Até amanhã.
- Ok. Beijinho.

Não eram as palavras que eu queria ouvir mas sabia que, naquele momento, eram as possíveis. Um fio de tristeza passeou-se pelo meu rosto e David não lhe ficou indiferente. Veio agachar-se à minha frente.

- Está tudo bem com vocês? – Perguntou-me de forma carinhosa. Uma luz lunar invadia o quarto e realçava a expressão delicada de David, sempre preocupado comigo.
- Vai ficar tudo bem, não te preocupes. – Fiz-lhe uma festinha na cara e suspirei tranquilamente. – Adoro-te!
- Eu também te adoro… minha namorada.

Sorrimos os dois antes de nos beijarmos demoradamente. E só com aquele beijo doce, o meu coração voltou ao seu ritmo normal. Selamos o momento com tantos outros leves beijos e ficámos a contemplar-nos mutuamente. E eu voltava a sentir as borboletas a bailarem no meu estômago, porque na profundidade do olhar do David eu parecia encontrar o meu horizonte… de uma forma tão extraordinária quanto inquietante.

- Achas que faz sentido? – Perguntei-lhe, sem desviar o meu olhar do dele.
- O quê? – Questionou-me confuso.
- Eu ser a tua namorada, tu seres o meu namorado… sei lá, não estamos a apressar as coisas?
- Você acha? Eu acho que faz todo o sentido. Vou falar sobre você como? A amiga com quem eu ‘tou vivendo uma paixão? – Notei na voz do David um misto de tristeza e alegria.
- Vais falar sobre mim a quem? – Perguntei algo nervosa.
- Ah sei lá meu anjo. Era só uma expressão. E se falar que mal tem?
- Depende com quem falares. Mas isso agora não interessa nada. – Eu tinha entendido que o David não se estava a referir a alguém em concreto, mas não consegui evitar pensar na família dele. – Não sei se faz sentido, mas soa muito bem. – Sorri, envolvi os meus braços no seu pescoço e puxei-o para junto de mim, beijando-o apaixonadamente. Fomos interrompidos, no mesmo instante, pelo Gustavo que entrava descontraidamente no quarto.
- E aí pombinhos, vamo jantar? – Perguntou com um sorriso malandro, batendo com uma mão na porta entreaberta enquanto a outra permanecia apoiada na parede do lado contrário.
- Pô mano deixa de ser empata. Posso ‘tar em paz com a minha namorada? – O David fazia uma cara de zangado.
- Ué, desculpa aí tar incomodando, mas ‘tá todo o mundo morrendo de fome. – Desculpava-se o Gustavo enquanto se preparava para sair.
- David! – Repreendi-o ao perceber que o Gustavo tinha acreditado na sua aparente irritação. Levantei-me, atirei o telemóvel para cima da cama e puxei o David que entretanto se tinha sentado. – Gu, não lhe ligues. Não vês que foi só um pretexto para te dizer que tem namorada? – Continuei em tom de brincadeira.
- É mano, deixa eu te apresentar a minha namorada. – O David colocava orgulhosamente o seu braço por cima dos meus ombros e encaminhava-nos para a porta.
- Oh Kika… você não sabe no que ‘tá se metendo, não. Esse daí é um chato, amiga. – O Gustavo falava de uma forma vitoriosa, para se vingar da brincadeira do David. Mal acabou de falar, piscou-me o olho e saiu.
- Cala a boca oh babaca. Não fala besteira para a minha namorada, não.

Eu soltei uma gargalhada. O David parecia uma verdadeira criança que acaba de receber um brinquedo novo e anda a mostrá-lo a toda a gente. Estava tão feliz que todos os pretextos eram válidos para me chamar de namorada. Mas isso não me incomodava absolutamente, porque estivesse certo ou errado, apressado ou não, a verdade é que me fazia feliz. Ter namorado assustava-me, sem dúvida, mas a certeza de que a minha felicidade naquele momento dependia daquele homem a quem eu passara a chamar de namorado era forte o suficiente para dissipar quaisquer medos.


*******************


A boa disposição reinou ao longo de todo o jantar com os nossos amigos. O bom humor, sobretudo do Ruben e do David, sempre os mais divertidos, contagiava todos os outros. Mesmo nos momentos mais sérios, em que trocávamos impressões sobre os nossos empregos ou sobre o país, um deles conseguia provocar a gargalhada geral com qualquer disparate. E tal como acontecia em todas as vezes que nos reuníamos, o tempo não passava… voava. O cansaço começava a manifestar-se em cada um de nós, de forma distinta. E já nos conhecíamos tão bem que nenhum precisou de o dizer para que todos, em simultâneo, nos levantássemos e começássemos a arrumar a sala. Em pouco tempo, a casa do David e do Gustavo voltava a estar impecavelmente arrumada e todos nos preparávamos para sair, quase num atropelo para, entre beijos e abraços, nos despedirmos.

- Bem pessoal, eu vou andando! – O Paulo foi o primeiro a sair da sala, de sorriso rasgado. Todos o seguimos até ao corredor. – Rapazes vemo-nos amanhã. Meninas portem-se bem.
- Nós descemos contigo, Paulão. – Informou o Ruben, abraçando a Raquel – Estás pronta, amor?
- Sim, querido. Deixa-me só pegar a minha mala. – A Raquel esticava a mão e puxava a carteira, pousada sobre um dos móveis do corredor da casa. - Levas a minha mala de viagem, amor?
- Eu? – Perguntava Ruben com um sorriso divertido – Aí a tua amiga é que a devia levar, não foi com ela que foste viajar?
- Oh espertinho – meti-me na conversa – tu devias era agradecer-me por ter levado a tua namorada. Diz lá que não jogaste melhor e tudo? – Enquanto falava ia caminhando pelo corredor em direcção ao quarto do David – Si, vou só pegar as minhas coisas e já saímos.
- Tranquila amiga. Eu não tenho assim tanta pressa – Respondeu-me a Sílvia, sorrindo para o Gustavo, que a abraçava carinhosamente.
- É babaca… se a minha namorada não tivesse levado a sua, a gente ainda acabava perdendo o jogo. – O David voltou a deixar sobressair um sorriso genuíno na sua face enquanto dava uma leve pancada na cabeça do Ruben.
- Ai, tanto mel… – ripostou o Ruben simulando um enjoo – … acho que vou vomitar. Olha lá Dêzinho – frisou bastante a palavra para irritar o David – mas tu agora não conheces outra palavra a não ser namorada? – continuou com um voz fininha, provocando nova gargalhada geral.
- EU ESTOU A OUVIR SR. AMORIM – gritei do quarto do David onde podia ouvir perfeitamente a conversa daqueles dois – E NÃO ESTOU A GOSTAR DA FORMA COMO ESTÁS A TRATAR O MEU NAMORADO.
Voltou a ouvir-se nova gargalhada, e o Ruben contra-atacou – Pronto, já cá faltava a advogada de defesa. TU TAMBÉM JÁ NÃO SABES DIZER MAIS NADA A NÃO SER NAMORADO? – Provocou-me, em gritos.
- Não precisas de gritar que eu não sou surda. – Apareci por trás dele e sussurrei-lhe ao ouvido, numa atitude que fez com que se assustasse. Sorri vitoriosa e abracei o David que estava ainda mais divertido com a conversa. – Raquelinha, acho que o teu amorzinho está a precisar de uma massagem relaxante – Pisquei-lhe o olho e ela retribui o gesto.
- Concordo. Anda amorzinho, que eu já trato de ti em casa. – A Raquel abraçava o Ruben de forma provocante e ele sorria infantilmente.

O Ruben, a Raquel e o Paulo saíram e eu preparava-me para fazer o mesmo. Fui impedida pelo David, que me apertou contra si.

- Não pode ficar mais um pouquinho? – Conseguia encontrar-lhe um traço de súplica no rosto.
- Oh meu caracolinhos… eu estou exausta! E tu também e, para além disso, tens treino amanhã cedo, não tens?
- Sim, é verdade. Mas só mais cinco minutos, vai.
- Não sei, a Si também deve querer ir embora.
- A Sílvinha está sem pressa – Interrompeu o Gustavo. Dei um passo em frente e espreitei para o interior da sala onde estava o casal sentado no sofá, numa troca intensiva de mimos e risadas.
- Viu? A Silvinha está sem pressa. – Repetiu o David, reforçando a súplica – Fica só mais um pouco.
- Ok… convenceste-me! – Admiti de forma ternurenta, perante a sua evidente felicidade. – Como é que me consegues dar sempre a volta?
Ele pegou na minha mão e levou-me para o seu quarto. Assim que entrámos, fechou a porta por trás de nós e envolveu-me num abraço quente.
- Porque eu sou muito teimoso. – Sorriu. – Agora vem cá. – Voltou a segurar-me a mão e arrastou-me para junto da janela, fazendo-me espreitar a noite brilhante, em que a lua e as estrelas pareciam sorrir perante a nossa felicidade. O David colocou o meu corpo de costas à frente do seu e deixou cair o seu queixo sobre o meu ombro direito. Senti a sua respiração serena junto ao meu ouvido e encolhi-me ligeiramente.
- Tá vendo aquela janelinha linda ali ao fundo? – Perguntou-me, apontando com o seu longo dedo indicador na direcção do meu quarto.
- Hum, hum.
- Então, sempre que você estiver lá… – O David falava convicta e pausadamente – …eu quero que você tenha a certeza de que eu vou estar aqui. Sempre, meu anjo.
Um arrepio percorreu cada centímetro do meu corpo e fez-me estremecer. Rodei o meu corpo de forma a ficar frente-a-frente com o David e abracei-o com força. Voltei a fixar-me naquela imensidão esverdeada dos seus olhos.
- Como é que te tornaste tão importante na minha vida, David?
- Da mesma maneira que você se tornou tão importante para mim. Há coisas que simplesmente não têm explicação… – sorriu-me carinhosamente, ao mesmo tempo que fazia deslizar a sua mão aberta desde o cimo do meu rosto até ao meu peito, fazendo-a parar do lado esquerdo – …e o amor é uma delas. O que está aqui – continuou o seu discurso, pegando na minha mão direita e colocando-a também sobre o seu coração. – não se explica… se sente!

Emocionei-me! Os meus olhos humedeceram, o meu coração começou a palpitar descontroladamente, a minha respiração tornou-se pesada e todo o meu corpo se moveu num espasmo. Sentia-me nervosa, muito mais do que na noite anterior. Porque entregar o meu corpo ao David era, indubitavelmente, menos importante e arriscado do que abrir-lhe as portas do meu coração.

- Tenho tanto medo, David! – Exclamei em surdina, numa voz trémula.
- Medo do quê meu anjo? – A voz do David continuava suave e tranquila.
- Medo de me envolver demais e depois descobrir que tudo não passa de um sonho.
- Shiu… – o David colocou um dedo nos meus lábios e sorriu-me – … isto é um sonho sim. – Eu olhava-o confusa. Como é que ele podia estar a dizer-me que aquilo era exactamente o que eu temia que fosse?! Ele desfez as minhas dúvidas, com as suas certezas. – Mas não precisa ter medo, não. É um sonho para você, mas também é um sonho para mim. Então… vamos viver esse sonho bem juntinhos… – os seus grandes braços envolveram o meu tronco, unindo os nossos corpos. - …vamos viver esse sonho lado a lado. – As suas palavras entraram pelos meus ouvidos como o mais belo cântico de pássaros e voaram direitinhos até ao meu coração.
- Adoro-te David!
- Eu também te adoro, Kika.

Selámos aquele diálogo intenso com um beijo longo e apaixonado, desfrutando do melhor que cada um de nós tinha para oferecer ao outro. A paixão arrebatadora da noite anterior deu lugar ao carinho e conforto que ambos parecíamos, inconscientemente, querer alcançar.


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Assim que entrámos em casa, cada uma seguiu até ao seu quarto para trocar de roupa. Cruzámo-nos na porta da casa de banho, eu saí e a Sílvia entrou. A viagem tinha sido feita em silêncio, para que ambas pudéssemos colocar os nossos pensamentos em ordem. Não era um sinal de conflito, era simplesmente um acto de respeito mútuo. Tínhamos aprendido a conviver com os momentos solitários uma da outra sem qualquer problema.
Liguei a televisão da sala sem qualquer intuito de lhe prestar atenção e sentei-me no sofá. A Si apareceu pouco depois com uma tablete de chocolate na mão e sentou-se ao meu lado

- Queres um bocadinho? – Perguntou, estendendo-me a tablete.
- Sim, obrigada. – Retirei uma tira de chocolate com o qual me comecei a deliciar.
- Posso? – A Sílvia tinha afastado o corpo até ao lado oposto do sofá e esperava permissão para esticar as suas pernas para cima das minhas. Acenei afirmativamente com a cabeça. – Então, como correu a conversa com a tua mãe?
- Como deves imaginar… mal.
- Por teres viajado sem a avisar ou por namorares com o David?
- As duas. – Trinquei mais um pouco do chocolate antes de continuar. – Ela ficou mesmo lixada por não lhe ter dito que ia para Paris. E ficou danada contigo também.
- Pois, já sabia que ia sobrar para mim.
- O que lhe disseste?
- Nada de especial. Disse-lhe que tu estavas bem, que não era preciso ela estar preocupada, mas que tinhas de ser tu a contar-lhe o que se passava.
- Fizeste bem. Mas ela estava mesmo lixada. Fez-me chorar. – Sorrimos para tentar esconder o embaraço de termos, ambas, escondido algo importante à minha mãe.
- Mas ela tem razão. E tu tens culpa e eu também. – A Sílvia dava mais uma trinca na tablete. – E sobre o David?
- Difícil… muito difícil. Ela acha que estou a cometer um erro, que não estou a pensar nas consequências. Definitivamente, não vê com bons olhos esta relação.
- Tens de a compreender. Ela não conhece o David, não sabe quais são as suas intenções e tem medo que voltes a sofrer. Ela é tua mãe.
- Eu sei, bichinha. Mas eu só queria que ela ficasse feliz por eu estar feliz?
- E achas que não está, babe? Claro que está, só não to diz. Já devias saber que ela dificilmente dá a mão à palmatória. Tens bem a quem sair teimosa, tu…
- Olha que bem podes estar caladinha, tu. Não és filha dela mas também pareces…
- Estás a chamar-me teimosa, Ana Moreira?
- Não, Sílvia Salgado… estou a chamar-te muito teimosa. – Comecei a fazer cócegas nos pés da Sílvia enquanto ela se contorcia de riso e me implorava que parasse. Quando a senti no seu limite, parei.
- Olha e mudando de assunto – já com o riso controlado, a minha amiga fez uma cara mais séria e fitou-me – já contaste ao David?
- O quê? – Perguntei a medo.
- Sobre o que aconteceu no Verão passado. – Subitamente, o ambiente tornara-se pesado entre aquelas paredes.
- Ainda não. – Respondi já com as mãos a transpirarem.
- Mas tens de contar. Sabes que a confiança entre um casal é importante não sabes?
- Sei, bi, mas tenho medo… – confessei, com o olhar descaído. – E se ele reage mal, me condena, me critica? Sei lá…
- Kika, todos nós cometemos erros nas nossas vidas. Com certeza o David também já errou, como ser humano que é. E ele tem de gostar de ti com tudo o que tu tens… as tuas qualidades, os teus defeitos, as tuas vitórias, os teus fracassos e os teus vícios… mesmo que eles façam parte do passado. E se lhe contares tudo direitinho, sem tentar desculpar quem não merece desculpa, ele vai perceber que tu estavas a sofrer e apenas escolheste os caminhos errados para sair desse sofrimento. – A emoção da Sílvia era já evidente mas controlada, ao contrário da minha que já me fazia derramar grossas lágrimas.
- Eu não sei se consigo falar sobre o assunto… – o meu desespero era tão transparente que a minha amiga se levantou para me vir dar um abraço.
- Consegues, sim. Tu és forte e vais conseguir falar desse maldito passado. E depois disso vais saber lidar melhor com ele e vais viver muito mais tranquilamente. O David precisa de saber o que aconteceu e tem de sabê-lo por ti. Afinal ninguém gosta de ser apanhado de surpresa…
- Tens razão. Eu não posso adiar esta conversa por muito mais tempo. Está na hora de libertar, de uma vez por todas, tudo o que tenho cá dentro.

A Sílvia sorriu-me e beijou-me a face carinhosamente. E o meu coração ficou apertado como há muito não o sentia. E a minha consciência voltou a pesar-me como uma barra de chumbo. Realmente, tinha chegado a hora de falar sobre o meu passado ao David. Mas, muito mais importante que isso, tinha chegado a altura certa para contar à Sílvia algo que, tão dolorosamente, o meu medo de a desiludir me obrigara a esconder-lhe…


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Capítulo 32 - A primeira mudança de muitas…


Ao longo de toda a viagem de táxi, o meu telefone não parava de tocar. Mensagens e mais mensagens, mas sobretudo informações sobre chamadas que me tinham sido feitas durante a minha estada em Paris, grande parte delas da minha mãe, obviamente.

- Oh pá, sou mesmo parva! – Desabafei, um pouco irritada com aqueles toques repetitivos, enquanto ia apagando as mensagens.
- Que se passa, Kika? – Perguntou-me a Raquel cuidadosamente perante a minha irritação.
- Oh Raquel, tu acreditas que eu não avisei a minha mãe que ia para Paris?! Ela fartou-se de me ligar e mandar mensagens, deve estar super preocupada.
- O quê? – A cara de estupefacção da minha amiga lembrava-me que eu tinha feito asneira da grossa – Kika não quero estar a dar-te sermões, mas nem quero imaginar o estado de nervos da tua mãe.
- Eu sei, eu sei. Merda, ela vai-se passar comigo. E quando lhe contar onde estive, com quem estive… bem, nem quero imaginar a gritaria que vai ser.
- Como assim? Ela não sabe que tu e o David…? – Mais uma vez a minha amiga olhava para mim com cara de espanto.
- Não… quer dizer, sabe, mas… – levei as mãos à cara e esfreguei as sobrancelhas.
- Kika, eu conheço esse gesto. O que se passa? A tua mãe sabe ou não sabe da tua relação com o David? – A Raquel tinha a pele do nariz enrugado, como acontecia sempre que estava preocupada com alguma coisa.
- Não sabe da relação porque como é óbvio não há oficialmente uma relação – as minhas mãos tinham descido então até ao meu pescoço, massajando-o descontroladamente – mas sabe que somos amigos, que passamos muito tempo juntos, que já nos beijámos, enfim, conhece-me o suficiente para saber que estou apaixonada por ele. E não, não aprova. – Disse-lhe, por fim. A Raquel baixou por instantes o olhar, suspirou e voltou a encarar-me.
- Mas achas que isso pode ser um problema? Isto é, o que a tua mãe pensa? Sei lá, ela é tão importante para ti…
- Raquel… – fixei o meu olhar no dela – Raquel, eu já sou crescida, eu sei o que quero, eu é que escolho gostar ou não de alguém. A minha mãe é muito importante sim, mas eu tomo as decisões da minha vida.
- Ela não gosta do David, é isso? É por ele ser jogador de futebol?
- Ela não conhece o David, ela só conhece o jogador. E ela no fundo só não quer que eu volte a sofrer e a cometer os mesmos erros, entendes?
- Sofrer porquê? Que erros?

Lembrei-me naquele instante que nunca tinha falado do meu passado à Raquel, mas soube também que aqueles não eram o momento e o local certos para o fazer.

- Um dia... um dia eu conto-te tudo, prometo! Mas primeiro deixa-me pôr a minha vida em ordem, acordar desta fantasia que vivi em Paris, falar com o David sobre a realidade, conversar com a minha mãe, e depois eu falo contigo, combinado? – Questionei-a, olhos nos olhos.
- Claro, eu respeito. Mas só quero que saibas que, independentemente do que tenha acontecido, do que te tenham feito, tu tens que andar com a tua vida para a frente e o Dê é a pessoa certa para te acompanhar nessa caminhada! – Os olhos da Raquel estavam ligeiramente humedecidos.
- O quem? – Perguntei a rir, numa tentativa de quebrar aquele ambiente triste.
- Oh tu percebeste. Mas não lhe podes chamar isso, só a Regina é que o trata assim desde miúdo e ele odeia. Sabes como são os homens, não sabes? – A Raquel ria ainda mais
- Sei! Oh… mas Dê é tão giro. – Eu também já não conseguia controlar as gargalhadas.
- Kika, tu jura que nunca lhe vais chamar isso. Ele mata-me!
- Ai vou, vou. Aliás vou-lhe chamar Dêzinho.

Com as nossas gargalhadas contagiantes, até o taxista se ia rindo no seu lugar solitário.

- Olha, não ligas à tua mãe?
- Já estamos perto de casa. Quando chegarmos, ligo-lhe.


*******************

Cinco minutos depois estávamos junto ao prédio do David. Pagámos ao taxista, que amavelmente nos retirou as malas da bagageira e subimos. A Raquel já tinha avisado o Ruben que estávamos a chegar e por isso a porta do prédio estava já aberta. Aproveitei a subida pelo elevador para tentar construir mentalmente um início de diálogo com a minha mãe, que esperava difícil.
A Sílvia veio abrir-nos a porta do apartamento com um sorriso estranho. Tentei decifrá-lo e encontrei um misto de alegria com preocupação. Percebi imediatamente que a minha mãe já lhe devia ter ligado e que ela, contrariada, lhe devia ter dado uma qualquer desculpa esfarrapada. Percebi tudo isso enquanto a minha amiga me apertava com toda a força.

- Oh babe, tive tantas saudades tuas. – Murmurou-me ao ouvido, enquanto me apertava um pouco mais.
- E eu tuas, minha bi! – Beijei-lhe a testa e preparei-me para a primeira reprimenda. A Sílvia soltou-me daquele abraço sentido.
- Ana Moreira, tu és parva? Tu vais para Paris, desligas a merda do telemóvel e nem sequer avisas a tua mãe? Ela está farta de ligar, já me ligou, está preocupada.

Deixei a Sílvia a falar sozinha e entrei na sala. Cumprimentei o Gustavo e o Ruben e, literalmente, atirei-me para os braços do David. Queria mostrar-lhe não tanto as saudades que tinha dele mas sobretudo o quanto tinha adorado aquela noite em Paris. Beijei-o apaixonadamente, envolvendo os meus braços no seu pescoço. E aquele até podia ter sido um beijo perfeito, não fosse a Sílvia estar atrás de mim aos berros.

- Isso não se faz… podias ter dito que ias em trabalho, uma porcaria qualquer… a tua mãe está possuída e com razão, Ana Moreira.
- Calma Sílvia. – Berrei-lhe, depois de afastar os meus lábios dos do David. – Tu tens razão e eu já vou ligar à minha mãe. Posso ao menos cumprimentar as pessoas? – Questionei-a enquanto me dirigia ao Paulo para o abraçar – Obrigada. Adoro-te Paulo Leitão! – Segredei-lhe ao ouvido. Ele sorriu-me. – E para de me tratar como se fosses a minha própria mãe, Sílvia Salgado. – Ordenei-lhe, enfurecida. – Agora se me dão licença vou ligar à minha mãe. Dê, posso ir para o teu quarto?

Fez-se silêncio na sala. O David petrificou, a Raquel corou, a Si e o Paulo olharam para mim curiosos e o Ruben e o Gustavo olharam um para o outro e soltaram uma gargalhada monumental. Eu sorri delicadamente.

- Dê, posso? – Voltei a perguntar. O David acenou afirmativamente com a cabeça e começou a andar na minha direcção.
- Sim, eu levo você. – Respondeu-me, colocando as mãos nos meus ombros. Eu estava já de costas a tentar controlar o riso. – Eu vou matar você, garota. – O David ameaçou a Raquel, tal como ela previa, e empurrou-me ligeiramente, fazendo-me caminhar.
- “Mas desde quando é que ela lhe chama Dê?” – Ouvimos o Ruben perguntar, por entre risos descontrolados.

Com o seu habitual cavalheirismo, o David abriu a porta e acendeu as luzes do quarto. Assim que entrámos, voltou a fechar a porta e num movimento repentino, mas suave, atirou-me para cima da sua cama, iniciando um ataque de cócegas que começava a fazer-me rir descontroladamente.

- Foi a Raquel que te contou isso? Foi? Fala para mim!
- Pára, Dê, por favor, pára! – Suplicava-lhe por entre risos.
- Pára você de me chamar esse negócio. – O David intensificava cada vez mais as cócegas e eu contorcia-me.
- Porquê Dêzinho? É tão querido!
- Mas que querido… parece nome de boiola. Vai parar? – Eram já audíveis por todo o prédio as minhas gargalhadas e cada vez mais frustradas as minhas tentativas para fazer o David parar.
- Sim… eu paro… eu paro.
- Mesmo? – O David parou de me fazer cócegas e eu tentava em vão parar de rir.
- Sim, paro. Juro.
- Tá bom, então!

Ao fim de alguns minutos consegui finalmente recompor-me. O David olhava para mim enternecido, de tal forma que chegava a ser constrangedor.

- Que foi? Porque é que estás a olhar assim para mim?
- Porque você tem o sorriso mais lindo que eu já vi até hoje! – A doçura nas palavras do David fizeram-me encolher e sorrir de vergonha mas sobretudo de encantamento. Mais ainda quando ele inclinou o seu corpo para cima do meu.
- E tu és um querido e é por isso que eu gosto tanto de ti! Meu Dêzin…

O David não me deixou terminar a frase. Beijou-me… com paixão, com desejo! Um beijo… aquele beijo que me fazia esquecer do mundo em meu redor, me tirava o fôlego e me arrepiava. Deixei-me levar pelo entusiasmo e entrelacei o meu corpo no do David. As nossas mãos percorriam, estusiasticamente, cada centímetro dos nossos corpos e os nossos corações já palpitavam freneticamente.
Até que o toque do meu telemóvel nos trouxe de novo à realidade. Apertei o David contra mim e rodopiei os nossos corpos de forma a poder ficar sentada sobre o seu corpo ainda trémulo pela excitação. Beijei, delicadamente, os seus lábios e preparei-me para a conversa com a minha mãe.

- Desculpa, tenho mesmo de falar com a minha mãe.
- Vai, antes que pare de chamar.

Levantei-me de rompante e corri para procurar o telemóvel na carteira. O David levantou-se de seguida e começou a caminhar em direcção à porta. Não sem antes me mimar com um beijinho na testa, no mesmo momento em que eu encontrava o meu telemóvel e me preparava para atender.

- Adoro-te, Dê. – Sorri-lhe, de forma provocadora e ele nem hesitou em tentar responder.
- Você prometeu que não falava mais esse negóc… – Num gesto rápido, tapei-lhe a boca com uma mão e simultaneamente levei o meu telemóvel ao ouvido, com a outra mão.
- Sim mãezinha!
Continuei a sorrir para o David, que saía fingidamente amuado do quarto fechando a porta com toda a delicadeza, enquanto ouvia os primeiros gritos da minha mãe no outro lado da linha.

- “Ana Moreira, onde é que tu andaste? O que é que se passa? Mas que raio se passa com a porcaria do teu telemóvel que está desde ontem desligado? Uma pessoa a tentar ligar e uma gaja qualquer a falar em francês ou em inglês ou lá que merda de língua estava a gaja a falar? Tu viajaste? Ana, tu viajaste sem me avisares? Quer dizer, tu já és maior e vacinada e não tens que me dar satisfações da tua vida, se calhar até foste em trabalho, mas não podias, pelo menos, ter mandado uma mensagem à tua mãe a dizer que ias sair do país? Está para aqui uma pessoa preocupada, sem saber onde andas, com quem estás, se estás bem se não estás? Fartinha de te ligar, de mandar mensagens e tu nada. Já liguei para a Sílvia, ela claro que não me disse onde andavas por isso não deves ter ido e trabalho porque se fosses ela dizia-me e ela estava muito nervosa para o meu gosto! Mas, seja como for, eu não quero saber para onde foste, nem com quem foste, ou melhor agora até quero porque estou preocupada, angustiada, numa pilha de nervos. Será que tu não percebes que isto não se faz? Não percebes? Oh, claro que não percebes, tu não és mãe. Ah, mas quando tu fores mãe tu vais entender… isto e muito mais, muito mais Ana! Fodasse, tu estás a ouvir-me? Mas onde é que tu andaste, Ana, o que é que tu andaste a fazer? Ana Moreira, tu estás a ouvir a tua mãe? Respondes-me se faz favor?

Já sem fôlego e praticamente sem voz, a minha mãe parou por fim aquilo que ela supunha ser um diálogo mas que, tão compreensível como irritantemente, tinha transformado num monólogo. Por entre a sua respiração irregular, pude ouvir os desabafos do meu pai.

- “Como é que queres que ela te responda se tu não te calas, Maria?” – O timbre do meu pai mostrava gozo mas também preocupação.
- Ora aí tens a tua resposta – respondi-lhe de forma cansada, mas também triste por saber que ela estava certa. – Tu ainda não calaste, mãe. Eu sei que tu estás cheia de razão, mas se queres saber o que aconteceu ou te calas e me ouves ou fazes uma pergunta de cada vez.
- Pronto, já me calei! – Retorquiu, já com a voz recomposta e ainda mais carregada de fúria. – Posso saber, então, o que aconteceu?
- Podes. – Sentei-me na beira da cama, deixei cair o corpo e, de olhos postos no tecto do quarto do David, tentei encontrar as palavras certas para explicar à minha mãe que finalmente tinha ganho coragem para assumir aquela paixão que ela própria já conhecia. Rapidamente deixei de tentar encontrar o mais bem construído texto explicativo e argumentativo para, de uma forma convicta, resumir tudo numa simples frase. – Eu… eu deixei de fumar.
- O quê? – Surpreendida com a minha resposta, a minha desatou num riso nervoso e enraivecido. – Deixaste de fumar? – Perguntava-me incrédula – E foste para o estrangeiro para deixar de fumar? – A minha mãe continuava num riso enlouquecido.
- Sim, isso mesmo que tu ouviste. Eu ontem fui para Paris e… deixei de fumar! – Dei bastante ênfase à última frase para que a minha mãe percebesse o verdadeiro sentido que eu lhe queria dar.
- Tu foste para Paris e deixaste de fumar? – Ela continuava irritada. – Espera lá… tu foste para Paris? Ontem? E deixaste de fumar? – Pelo tom de voz da minha mãe, conseguia imaginá-la a juntar as peças e formar um pensamento que fizesse finalmente sentido
- Sim, exactamente!
- Ahhhhh… já entendi! – Respondeu-me, de forma seca e sem qualquer emoção.

A velocidade dos meus batimentos cardíacos denunciava o meu nervosismo perante o sarcasmo da minha mãe. A cada minuto que passava eu tinha mais certezas de que ela se tinha já lembrado da nossa conversa, em Coimbra, na última visita que lhe fizera. Ela sabia o que eu queria dizer-lhe, ela sabia que eu tinha ido a Paris ter com o David, ela sabia que eu tinha assumido que estava apaixonada, ela sabia que esse era o motivo para eu ter deixado de fumar, tal como lhe tinha prometido.

- Mãe… mãe… – Eu chamava, mas ela não me respondia. E o meu coração batia cada vez mais apressado. De tanto tremerem, as mãos começavam já a sentir dificuldade em segurar o telemóvel. E quanto mais eu batia o pé direito contra a barra da cama do David, mais os meus olhos se humedeciam. Sentia-me preparada para ouvir qualquer palavra que a minha mãe pudesse pronunciar… mas não para a ausência de palavras. – Mãe, diz qualquer coisa, por favor. Mãe… mãezinha… – O seu silêncio estava a matar-me e, sem resistência, deixei que as lágrimas me rolassem pelo rosto. – Mãe, por favor!...


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Capítulo 31 - Amei tudo isso!

 
Acordei com um ligeiro arrepio de frio causado pela manhã gelada que se fazia sentir em Paris. Num movimento quase automático, puxei os cobertores até aos ombros e cheguei o meu corpo mais para o centro da cama, na esperança de encontrar o corpo quente do David. Rápido me apercebi de que estava sozinha. Abri os olhos lentamente, enquanto me espreguiçava daquela noite de sono tranquila. Percebi então que o David estava já a tomar banho. À medida que ia despertando, tornava-se mais nítido o som da água a cair do chuveiro. Levantei-me e, ainda a cambalear, percorri o caminho até à casa de banho. Abri suavemente a porta e, pé ante pé, cheguei até ao lavatório. Aproveitei as cantorias do David para lavar os dentes sem que ele notasse a minha presença. Sorri, antes de abrir as portadas do poliban e me juntar a ele num duche matinal. O David cantava, entusiasmado, uma música de um dos meus artistas brasileiros favoritos. Apesar da tremenda desafinação, era fácil de perceber que ele cantava com sentimento.

- “Hoje preciso de você, com qualquer humor, com qualquer sorriso, hoje só tua presença, vai me deixar feliz…”

Antes que ele chegasse à última frase do refrão, eu abri a portada e encostei-me de sorriso rasgado.

- “… Só hoje” – cantei, com a voz rouca de quem acaba de acordar – Bom dia, caracolinhos.
- Bom dia, lagartixa dorminhoca. – O David retribui-me o sorriso e de imediato estendeu-me a mão, convidando-me a partilhar o chuveiro com ele – Vem!

Eu não recusei aquele convite tentador. Despi-me num ápice e meti-me debaixo da água que fervia. O David envolveu-me num abraço e beijou-me.

- Que jeito mais gostoso de começar o dia – disse, passando as suas mãos na minha cara.
- Mesmo. – Segurei-lhe numa das mãos e beijei-a – Mas podias me ter acordado.
- Não tinha como. Você ‘tava tão linda dormindo. Tive até pena de acordar você!
- Oh… obrigada. Como eu gostava que o meu despertador pensasse assim… – Rimo-nos descontroladamente.
- Você é demais, sabia? Ainda agora acordou e já ‘tá falando bobagem!
- Eu sou mesmo boba, sabia? – Perguntei-lhe imitando o seu sotaque, depois de lhe beijar o peito. – Nem vi as horas. Já é tarde?
- Quando eu levantei eram nove e meia.
- Hum, isso significa que temos mais duas horas.
- É… dá para gente se arrumar e tomar o café da manhã com calma.
- E eu acordei cá com uma fome! Mas é melhor pedirmos e comermos aqui, não é? Deve estar muita gente lá em baixo.
- Não se preocupa não, eu já tratei de tudo.
- A sério? – Perguntei-lhe, surpreendida – És um cavalheiro, David! E é por isso que eu gosto tanto de ti – Sorri-lhe e beijei-o apaixonadamente.

Deixámo-nos ficar durante quase meia hora naquele banho a dois. E a culpa daquela demora era dos nossos corpos que teimavam em não se afastar, dos nossos lábios que insistiam em unir-se e das carícias não conseguíamos parar de trocar.

O David foi o primeiro a sair debaixo do chuveiro. Enquanto se enxugava, retomou as cantorias desafinadas e eu voltei a deliciar-me ao ouvi-lo, enquanto passava o cabelo por água uma última vez.

Envoltos nas macias toalhas brancas, regressámos para junto da cama onde nos vestimos. O David continuava a cantar e eu tinha-me juntado a ele. Individualmente as nossas vozes eram insuportáveis, mas em simultâneo a desafinação parecia desaparecer. Cantámos de novo a mesma música do banho.

- Você gosta de Jota Quest? – Perguntou-me o David enquanto apertava os atacadores das sapatilhas.
- Aprendi a gostar com a Andreia, uma amiga minha da faculdade. Ela adora as músicas deles.
- Cê sabe que eles vão dar um concerto lá em Lisboa daqui a duas semanas?
- Semana e meia. – Respondi-lhe num ar trocista, esfregando suavemente a toalha contra o cabelo para tirar o excesso de água – Sim, sei. Mas eu não vou.
- Ué, porquê? – O David estava em frente ao espelho do guarda-fatos a ajeitar a roupa
- Porque os bilhetes já estão esgotados. – Respondi-lhe com alguma tristeza na voz. – E tu vais?
- Não – afirmou com alguma rapidez – tenho jogo na Madeira nesse dia. E meus pais já vão estar em Lisboa por essa altura e meu pai não gosta muito não – o David continuava a falar sem tirar os olhos do espelho – então não é uma boa ideia.
- Pois. – Afastei-me da cama, tirei a toalha da cabeça e caminhei em direcção à casa de banho – Tenho esperança de que eles voltem! – Gritei já de secador na mão. – O David não me respondeu e eu liguei o aparelho.
Não me apercebi de quanto tempo tinha gasto a enxugar o cabelo, mas quando regressei ao quarto já a secretária estava transformada numa mesa de pequeno-almoço repleta de pão, queijo, bolo, sumo, leite, café e fruta. O David estava sentado com um jornal francês, aberto sobre as pernas, que ia folheando rapidamente, olhando apenas para as imagens. Assim que encontrou a secção de desporto, parou. Passou os olhos nas imagens e depois centrou toda a sua atenção no texto. Eu sentei-me ao seu lado e fiquei a olhar para ele, a sorrir. Ao fim de algum tempo, o David levantou a cabeça e fitou-me. Pela sua expressão facial percebi que não tinha entendido patavina do que tinha acabado de ler.

- Precisas de ajuda? – Perguntei-lhe com ar de gozo.
- Cê percebe esse negócio que ‘tá aí escrito? – Ripostou, passando-me o jornal para a mão. Eu fingi uma leitura atenta da reportagem sobre o jogo da noite anterior e alguns segundos depois respondi-lhe.
- Ora bem – coloquei um ar de quem estava preparada para uma longa explicação – o texto diz que – parei a tempo de evitar o riso – o Benfica foi muito superior ao PSG, que toda a equipa jogou muito bem mas que de facto o melhor em campo foi o central esquerdo…
- Eu? – O David olhava estupefacto para mim e eu quase perdia o controlo da situação – onde que cê leu isso?
- Aqui – disse-lhe, apontado com o dedo, aleatoriamente, para uma das frases do texto – mas deixa-me continuar. Portanto, diz que o melhor em campo foi o central esquerdo que, como recompensa, teve direito a uma noite de sonho. – Acabei de falar e continuei a olhar, séria, para o David, que continuava atónito.
- Ah… cê tá zoando da minha cara! – Resmungou o David ao fim de alguns segundos, tirando-me de imediato o jornal das mãos, enquanto eu me ria às gargalhadas. – Que maldade, isso não se faz garota.

Enquanto o David combatia a sua indignação com uma chávena de café com leite, eu continuava agarrada à barriga, sem conseguir controlar o riso e algumas lágrimas que já me corriam pela face.

- Vai gozando, vai Kika. Cê não espera pela demora, não! – Dizia-me o David por entre uma golada e um sorriso.
- Desculpa, David, mas foi mais forte que eu. Desculpa, sim? – Perguntava-lhe, enquanto lhe tentava dar um beijo, que ele evitava a todo o custo, colocando os braços á frente da cara. – Oh caracolinhos desculpa. Sim?
- Eu vou pensar no seu assunto mais tarde.
- Hum… está bem. Mas agora podes passar-me o pão, por favor?
- Posso. – Balbuciou, pegando no cesto. Gesto que eu aproveitei para o surpreender com um beijo.

- Ah, eu sabia que tu caías! – Vangloriei-me por ter conseguido que o David destapasse a cara.

Mas ele nem respondeu. Deixou-me pousar o cesto do pão, levantou-se num ápice e agarrou-se a mim, fazendo-me cócegas. Eu tentava afastá-lo, por entre gritos e gargalhadas, contorcendo o corpo, mas a agilidade do David permitia-lhe sempre encontrar um espaço para colocar as suas mãos. Eu parei de oferecer resistência e deixei que aquele “ataque” me levasse ao riso descontrolado e ofegante.

Fomos interrompidos pelas pancadas na porta do quarto. Enquanto o David caminhava para abrir, eu tentava, sem sucesso, parar de rir. Ouvi a porta abrir e vi o Ruben e a Raquel invadirem o quarto boquiabertos.

- Mano, o que é que estavas a fazer à rapariga? – Questionou o Ruben, enchendo um copo com sumo. – Fogo! Ouvia-se os gritos lá fora. Tens de ser mais calminho, mano. – Afirmou com malícia.
- Deixa de ser parvo, Ruben. – Fitei-o, ainda a rir. – Ele estava a fazer-me cócegas, pá!
- Já lhe ouvi chamar muita coisa.
- Oh mor – A Raquel olhava para ele indignada.
- Deixa, Raquel – Intrometeu-se o David – ele se acha mesmo! Né Manz? – Dando-lhe uma pancada na cabeça. – E aí, vocês estão prontos?
- Nós estamos, vocês é que parece que não. Ainda demoram? Daqui a quinze minutos o Paulo está aí.
- Eu ‘tou pronto. – Respondeu-lhe o David.
- E eu só preciso de dois minutos – informei-a depois de beber um copo de leite de uma única golada – vou só ajeitar a mala. Saímos já com eles?
- Cinco minutos depois, é melhor. – Afirmava o Ruben, pegando no jornal, ainda aberto na página que continha a notícia sobre o jogo. – Alguém percebe o que diz o texto? – Questionou.
- Eu. – Gritei, a sorrir.
- Cê ‘tá mas é calada, lagartixa.

Eu e o David riamo-nos com satisfação perante o olhar perplexo do Ruben e da Raquel. Só o som do telemóvel do David impediu um pedido de explicações por parte dos nossos amigos.

- Ruben, o Paulo já está chegando. Temos de ir. – Ao mesmo tempo que falava para o amigo, o David olhava para mim. O Ruben levantou-se, deu-me dois beijos e caminhou para a porta, ladeado pela Raquel que também já se tinha despedido do David.

Estávamos de novo sozinhos, junto à janela do quarto. Sem proferir qualquer palavra, o David abraçou-me com força. Eu deixei-me envolver pelo seu corpo. E senti-me inexplicavelmente triste. Embora a razão me lembrasse que íamos estar separados apenas durante algumas horas, o meu coração lembrava-me do quão maravilhosa tinha sido aquela noite e da vontade que eu tinha de ficar ali para sempre, abraçada ao David e protegida, pelas paredes daquele quarto, de qualquer obstáculo que se colocasse naquele caminho que eu tinha escolhido percorrer até à felicidade. Mostrando que a cada dia me ia conhecendo um pouco melhor, o David descodificou o suspiro que eu acabava de soltar e sussurrou-me ao ouvido.

- Daqui a pouco já vamos estar juntos de novo!
- Eu sei! – Olhei-o profundamente e beijei-o.
- Adorei o seu gesto lá no aniversário da Raquel, a sua visita inesperada, essa noite maravilhosa que a gente teve, o seu acordar cheio de risada. Amei tudo isso!
- Eu tinha mesmo que o fazer. Já não dava para me enganar a mim própria, para não me permitir ser feliz. – Suspirei demoradamente. – E eu sou feliz quando estou contigo. Por isso eu vim. – Passei-lhe os dedos suavemente pelos lábios. – E mesmo que nunca mais pudesse estar contigo, faria tudo de novo… só para viver os momentos maravilhosos que vivemos aqui, nesta cidade encantadora. – Dei um beijo leve nos lábios do David, arredei as cortinas e vislumbrei o Rio Sena e a Torre Eiffel ao fundo. Fiquei prisioneira daquele magnífico retrato real durante alguns segundos. E só despertei quando senti os lábios do David perto do meu ouvido.

- Um dia a gente volta cá, para ser feliz de novo, nessa cidade do amor!

Com aquelas palavras a ecoarem-me no cérebro e a fazerem-me palpitar o coração, voltei-me para o David e beijei-o apaixonadamente. Prolongámos o beijo até ao limite… imposto pela voz do Ruben, que gritava da entrada do quarto.

- Mano, vamos embora pá! Se nos atrasamos o mister passa-se!
- Tou indo manz, relaxa. – O David segurava-me a cara com as duas mãos e olhava-me no fundo dos meus olhos – Tenho de ir meu anjo. Daqui a pouco a gente se encontra.
- Vai, não te atrases. Quando eu chegar a Lisboa, ligo-te. Boa viagem.
- Obrigado. Agora, deixa eu ir.

O David deu-me um beijo, pegou no pequeno saco e começou a caminhar em direcção à porta do quarto, onde o Ruben o esperava. Eu encostei-me à janela, voltando a contemplar Paris, aguardando que a Raquel voltasse para fazermos tempo até deixarmos o hotel. Olhava, encantada, os barcos a navegarem no rio, quando o David regressou atrás, numa corrida. Agarrou-me, inundou-me a boca de leves beijos repenicados, segurou suavemente no meu queixo e olhou-me profundamente.

- Je t’aime! – Afirmou, com convicção.
- Je t’aime aussi! – Respondi-lhe, segura.

Trocámos um beijo rápido e, da mesma forma que regressou, o David saiu a correr. Eu permaneci estática, no mesmo sítio onde ele me tinha deixado, ainda atordoada com a afirmação que tinha acabado de fazer. Apesar de tudo sorria, porque respirava felicidade.

***********************

Poucos minutos depois de os rapazes terem deixado o quarto, eu e a Raquel fizemos o mesmo. Não sem antes tirarmos uma fotografia às portas dos quartos que guardavam o segredo daquela noite inesquecível.
Descemos pelo elevador, de sorriso rasgado, e dirigimo-nos à recepção para fazer o chek-out e pagar a conta. E descobrimos nesse momento que as surpresas parisienses ainda não tinham terminado. A funcionária simpática que nos atendeu explicou-nos, num inglês perfeito e ao mesmo tempo que nos entregava um cartão, que o senhor que tinha ido buscar os rapazes, tinha já feito o pagamento da nossa conta. Agradecemos a explicação e o atendimento, despedimo-nos e saímos. Já no exterior do hotel, abrimos o cartão que o Paulo nos tinha deixado e lemo-lo em conjunto.

“That´s what friends are for…
Espero que a noite tenha sido inesquecível!
Do sempre amigo,
Paulo Leitão!”

Caminhámos, sorridentes, até ao leito do Rio Sena, apanhámos um táxi em direcção ao aeroporto, onde aproveitámos para aconchegar o estômago antes da viagem de regresso a Lisboa.

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Aterrámos em Lisboa pouco passava das cinco da tarde. A característica agitação fazia-se sentir no aeroporto àquela hora. No exterior, o céu da capital começava a escurecer. Entrámos dentro do primeiro táxi disponível e pedimos ao condutor que nos levasse até à margem sul.
Pelo caminho, ligámos os telemóveis e verificámos as inúmeras chamadas e mensagens antes de ligarmos aos rapazes. Com o tempo que perdi a ligar o telemóvel da empresa, a Raquel antecipou-se na chamada para o Ruben. Após uma conversa de alguns minutos, ela desligou o aparelho.

- Não vale a pena ligares ao David. Eles estão juntos e já sabem que vamos a caminho.
- Ok, então vou só ligar à Sílvia para avisar que já estamos em Lisboa.
- Também não é preciso – disse-me a Raquel a sorrir – ela também já sabe. Eles estão todos em casa do David à nosso espera.
- Bem, que grande recepção.
- Sim. Finalmente vamos voltar a ter um jantar dos seis magníficos! Aliás, sete. Porque o Paulo também lá está.
- Posso confessar-te uma coisa? – Perguntei-lhe, enquanto me encostava ao vidro da porta.
- Claro.
- Já tinha saudades. – Sorri-lhe ternamente.
- Oh… também eu minha querida!

A Raquel deixou cair o seu corpo para cima do meu e deitou a cabeça no meu ombro.

- Kika?!
- Sim?
- Apesar de te conhecer há tão pouco tempo, gosto mesmo de ti, miúda!
- Eu também gosto muito de ti, babe! E é por isso que amanhã vou colocar uma foto tua no mural da minha sala.

A Raquel deu um pulo do banco e olhou para mim de sorriso rasgado.

- A sério? – Perguntava-me visivelmente emocionada.

Eu não lhe respondi. Limitei-me a acenar afirmativamente com a cabeça, enquanto lhe mostrava o meu sorriso mais sincero. Depois de um forte abraço, voltámos a aconchegar os nossos corpos nos bancos e permanecemos abraçadas durante aquela demorada viagem até casa do David.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Capítulo 30 - Até às estrelas!


 

As mãos trémulas e humedecidas eram o sinal mais evidente do nervoso miudinho que eu sentia. A mesma imagem que me prendia o olhar paralisava-me também os movimentos. Tinha acabado de abrir a porta e por momentos pensei ter-me enganado no quarto de hotel. Ainda com a minha mão direita pousada sobre a maçaneta, fiquei petrificada perante o que vislumbrava. O David, logo atrás de mim, tinha o seu corpo colado ao meu. Apesar de eu estar de costas, podia adivinhar-lhe no rosto o mesmo sorriso que me rasgava os lábios. O meu coração, que já batia acelerado, disparou velozmente quando o David encostou os seus lábios ao meu ouvido, para me perguntar num sussurro.

- Você preparou tudo isso para a gente?

Senti naquele momento dois corações a palpitarem fortemente numa sintonia tão perfeita que pareciam um só.

- Não fui eu… – Respondi-lhe em surdina.
- Ué, então quem fez isso?

Voltei-me de frente para o David e nem precisei de lhe responder, porque ele fê-lo por mim.

- Esse Paulão me surpreende a cada dia que passa! – Sorriu – Vamo entrar?

Enquanto o David fechava a porta, eu caminhava lentamente pelo corredor em direcção à secretária que tinha uma decoração diferente daquela que eu havia encontrado à tarde. Na jarra de vidro, as rosas brancas tinhas sido substituídas por rosas vermelhas e a madeira clara estava, então, coberta de pétalas da mesma cor. Ao lado do candeeiro, uma garrafa de espumante estava embutida num frapê metalizado, junto ao qual estavam pousados dois copos altos. Ao centro, uma taça de vidro avermelhada continha uma dúzia de bombons. Quer na secretária quer em cima das mesinhas de cabeceira estavam espalhadas algumas velas, ainda intactas. Sorri levemente e agradeci ao Paulo, em pensamentos, pelas várias manifestações de amizade com que me tinha brindado desde que ao início daquela tarde o tinha avisado que estava a caminho de Paris.

Quase em surdina, o David aproximou-se de mim, e afastou algumas madeixas do meu cabelo, deixando o meu pescoço à mercê dos seus leves beijos. O meu sorriso expandiu-se e um suspiro profundo acompanhou um só arrepio que me percorreu o corpo velozmente. Senti-me a flutuar. O David envolveu o meu corpo num abraço forte durante segundos, para me largar logo de seguida. Aproximou-se da secretária e retirou uma das rosas da jarra. Levou-a ao seu nariz e inspirou aquele aroma. Deu-ma também a mim a cheirar.

- Sabe o que essa rosa me faz lembrar? – Perguntou-me com um sorriso rasgado.
- Nova Iorque? – Ripostei, também com um sorriso. Sabia que ele se estava a referir ao nosso primeiro jantar.
- Cara, eu acho que fiquei apaixonado por você nesse momento!
- A sério? E eu a pensar que tinha sido no dia em que quase me mataste. – Soltei uma gargalhada sonora.
- Engraçadinha… – O David colocou de novo a rosa na jarra e puxou-me contra o seu corpo – Esse foi o dia em que eu te achei maior gata – Disse, beijando-me.
- Sim? – Perguntei-lhe interrompendo o beijo – pensei que isso tinha acontecido só naquela noite em que me apanhaste de rabo à mostra – Para evitar a resposta, beijei-o de novo, mas com alguma dificuldade. Manter os nossos lábios unidos era difícil devido aos risos que íamos soltando.
- Boba – Balbuciou o David por entre beijos e sorrisos.

Apesar de nos conhecermos há relativamente pouco tempo, eu e o David tínhamos já algumas histórias para recordar. E isso tornava aquela noite ainda mais especial, porque a dotava de conteúdo. E apesar dos receios, que nem o ambiente romântico conseguia eliminar, eu sentia-me preparada para consumar aquela paixão. Afastei-me ligeiramente do David, despi o casaco, que atirei para cima da mala, e com o isqueiro, que retirei da carteira, acendi as velas pousadas sobre a secretária. Peguei depois num bombom, trinquei suavemente uma metade e levei a outra à sua boca. O David pegou então na garrafa de champanhe, que já estava aberta, e encheu os copos. Por entre uma profunda troca de olhares, brindámos! E o tilintar dos copos a bater marcou o início de uma entrega mágica, que nem as fugazes recordações trazidas pelo travo agressivo das gotas de champanhe com que apenas humedeci os lábios poderiam impedir. Pousámos os copos e beijámo-nos apaixonadamente. Os nossos corações voltavam a bater num compasso sintonizado e os nossos corpos ganhavam vontade própria. Era como se se conhecessem desde sempre. Deixei que as minhas mãos se perdessem pelos rebeldes caracóis do David enquanto ele, delicadamente, me ia retirando cada peça de roupa. E a cada milímetro do meu corpo que ficava a nu, o meu sangue fervilhava de desejo. O David beijou-me o pescoço, depois os ombros e desceu até ao peito, tornando a nossa respiração ofegante. Estávamos já a meio de uma “viagem” que nenhum dos dois queria interromper, mas ainda assim o David não hesitou em questionar o meu grau de certeza. O que me pareceu justificável, perante as constantes dúvidas e hesitações que foram marcando a nossa história até àquela noite em Paris.

- Eu sei que pode parecer estranho eu perguntar, mas eu preciso saber. Até onde você quer ir?

Sem desviar o meu olhar do dele, percorri, com leves beijos, um lento caminho desde a sua boca até ao seu ouvido.

- Até às estrelas! – Disse-lhe com firmeza na voz.

Apertei-o com todas as minhas forças, beijei-o avidamente e sem resistir aos instintos, fui despindo o David, que num gesto delicado me agarrou ao colo e me deitou lentamente na enorme cama. Estávamos apenas em roupa interior e eu senti o olhar do David percorrer-me o corpo. Deixei-me apoderar pela timidez. Ter partilhado durante tantos anos a minha intimidade com apenas um homem e não ter voltado a fazê-lo desde que esse homem deixou de fazer parte da minha vida, intimidava-me e de alguma forma fazia despontar as minhas inseguranças. O David foi buscar o isqueiro e acendeu cada uma das restantes velas espalhadas pelo quarto, apagando as luzes. Numa atitude provocadora, voltou a percorrer a minha silhueta com o olhar. Eu sorri-lhe, tranquilamente, e retribui o gesto. Apreciei o seu corpo delineado com a mesma precisão e deslumbramento de quem aprecia uma obra de arte. Foi então que o David voltou a retirar uma das rosas da jarra e se sentou junto a mim. Depois de um beijo demorado, voltou a levar-me a flor ao nariz para que eu lhe sentisse o aroma.

- Agora… fecha os olhos! – Ordenou-me com uma voz doce.

Eu fechei os meus olhos lentamente e inspirei suavemente. E foi então que senti o toque macio da rosa. Primeiro no rosto, o que provocou em mim um efeito relaxante. Depois no pescoço, descendo lentamente até ao peito, transformando o relaxante em prazeroso, e depois na barriga, percorrendo uma linha até ao umbigo, fazendo acelerar o bater do meu coração. Os movimentos do David eram demorados, delicados, por vezes trémulos. O nervosismo que eu sentia começou a dissolver-se à medida que a minha excitação aumentava. E no momento em que senti aquele toque aveludado das pétalas a contornarem-me as virilhas em direcção ao interior das coxas, gemi baixinho. Voltei a abrir os olhos e encontrei no rosto do David a mesma ânsia de se entregar ao prazer. Em silêncio e por entre beijos ardentes, entrelaçámos os nossos corpos, deixando-os entregues à paixão. E num instante, eles se uniram num só. Um encaixe perfeito que parecia acontecer desde sempre. Ofegantes e suados, eles moviam-se incessantemente ao ritmo daquele desejo que parecia insaciável. E mesmo que no limite das forças, eles pediam sempre mais… e o mais parecia sempre tão pouco.
Pressentindo que o final daquela “viagem” estava próximo, olhámo-nos uma última vez. E, numa sintonia perfeita, atingimos o limite máximo do prazer.

Ficámos largos segundos abraçados, com os corpos ainda entrelaçados, olhando-nos mutua e enternecidamente. Eu sentia o meu corpo ainda dormente, mas o toque da pele macia do David ia acalmando o bater do meu coração. A pouco e pouco, a respiração voltou ao seu ritmo normal. O David dava-me pequenos beijos na testa.

- Obrigado! – Murmurou-me, com um sorriso terno.
- Pelo quê? – Perguntei-lhe no mesmo tom.
- Por essa noite fantástica, pelo seu carinho, pela sua entrega…
- … Shiu – interrompi-o, levando o dedo indicador à boca – não me agradeças por me sentir feliz ao fazer-te feliz!
- Te adoro, lagartixa!
- Eu também te adoro caracolinhos.


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O banho quente que partilhei com o David tinha relaxado de tal forma o meu corpo que sentia o cansaço apoderar-se de mim. O David tinha apagado as velas, deixando apenas a luz do pequeno candeeiro acesa. Aninhei o meu corpo junto ao dele, na cama, e deitei a minha cabeça sobre o seu peito destapado. Coloquei as minhas pernas sobre as dele e abracei-o com força. Ele beijou-me suavemente e envolveu-me com o seu braço musculado. Eu senti-me segura, como já não acontecia há muito tempo. Fechei os olhos e tentei adormecer, embalada pelo cafuné que o David me fazia. Mas quase instantaneamente, uma lágrima soltou-se do canto do meu olho e rolou pela minha face até chegar à pele delicada do David que, num impulso, levou a sua mão livre ao meu queixo, puxando a minha cara de forma a que os nossos olhares se cruzassem.

- Ei, tá chorando porquê meu anjo? – Perguntou-me com um sorriso encantador.
- Desculpa, foi só uma lagrimita teimosa que me escapou.
- Porquê?
- Sabes David – suspirei profundamente – já não estava habituada a sentir-me assim.
- Assim como? Cê está triste, se arrependeu?
- Não, claro que não – retorqui com convicção, enquanto me levantava, ficando sentada ao lado do David – Estou feliz, muito feliz! E há muito que eu não sabia o que isso era. Estar feliz, sentir-me bem, sentir-me acarinhada, sentir-me desejada, sentir-me… – fiz uma breve pausa – … sentir-me mulher!
- Como não? Você é uma mulher linda e atraente, Kika!
- Também já não estava habituada a tantos elogios – as minhas maçãs do rosto estavam rosadas.
- Então vai-se habituando, viu… porque eu vou-te elogiar toda a vez que estivermos juntos! – O David sorria para mim.
- Tu és incrível, sabias?
- Que nada, você é que é fantástica. – O David fez-me uma festinha na cara e beijou-me a ponta do nariz – E eu já entendi que há muita coisa no seu passado que atormenta esse coraçãozinho e eu até posso imaginar o quê…
- Não, não podes… – Interrompi-o de imediato – mas eu também não quero falar sobre isso. É verdade que há muito para ser dito, mas não agora, não depois deste dia incrível e desta noite maravilhosa. Temos tempo, certo? – Perguntei-lhe, procurando ao mesmo tempo uma resposta no seu olhar.
- Claro, todo o tempo do mundo. Vem cá, vem. Deixa eu te abraçar.

Deixei cair o meu corpo para junto do David e beijei-o delicadamente. Tudo o que vinha a acontecer na minha vida desde que o tinha conhecido me parecia demasiadamente irreal, mas não o suficiente fabuloso para apagar a dura realidade que tinha vivido no passado e o medo terrível que tinha do futuro. Como se me adivinhasse os pensamentos, o David intensificou aquele beijo e aquele abraço. E foi nesse preciso momento que eu percebi que, só fechando definitivamente aquele capítulo negro da minha vida, seria capaz de virar a página e começar um novo… muito mais feliz!